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Infiltrado na Klan retoma fúria criativa do diretor Spike Lee

·7 min de leitura·Luiz Gustavo Vilela
Infiltrado na Klan retoma fúria criativa do diretor Spike Lee

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos parece ter despertado algo que esteve adormecido em Spike Lee. Durante a Era Obama seus filmes perderam parte da urgência que marcou Faça a Coisa Certa (1989) ou Malcolm X (1992), indo um passo além do mero denuncismo, imprimindo em película a raiva e opressão do povo negro.

Ainda que tenham certo interesse estético-narrativo, títulos recentes como Verão de Red Hook (2012) ou a desnecessária refilmagem Oldboy: Dias de Vingança (2013) poderiam ser feitos por outros diretores menos talentosos com efeito similar. Infiltrado na Klan, que estreia no Brasil na próxima quinta-feira (22), resgata essa fúria, agora temperada com os anos de experiência, se convertendo num dos mais divertidos e importantes trabalhos do ano.

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A história beira o surreal, não fosse tão real – ou, como o próprio Lee coloca em um letreiro, "some fo real, fo real shit", praticamente intraduzível. Nos anos 1970, Ron Stallworth (John David Washington) é um jovem policial na cidade de Colorado Springs. O único negro, em uma tentativa de reduzir a imagem racista da corporação. Sua primeira missão de fato foi se infiltrar em um evento da mobilização negra que trazia Kwame Ture (Corey Hawkins), um ativista que não vê alternativa senão a revolução armada como forma de encerrar a luta racial. As autoridades se preocupam com a retórica inflamada. Incomodado com o exagero na comoção gerada sobre sua própria comunidade, Stallworth se volta para o paralelo branco: a Ku Klux Klan. Mais até, decide iniciar uma investigação.

Esta talvez seja a primeira das muitas provocações baseadas em paralelismos, visuais e narrativos, que Lee vai trabalhar em seu filme. A retórica inflamada negra preocupa as autoridades, enquanto a preparação terrorista de supremacistas brancos, envolvendo confecção de bombas e aquisição de armamento, é tolerada. Ou, ao menos, reduzida a mera excentricidade de gente com muito tempo de sobra. Lee não se preocupa em responder de forma enfática, permitindo que o público faça a conexão, mas deixa claro que há um abismo de diferença entre a reação violenta à opressão sistemática e a ação violenta com objetivo de manter os oprimidos em seus lugares. Uma falsa equivalência que atende a um projeto social.

A dinâmica da dualidade é encarnada pelos dois líderes, Ture, pela proximidade com os Panteras Negras – grupo que incentivava, entre outras coisas, que os negros andassem armados como ação afirmativa e para a própria proteção – e David Duke (Topher Grace), líder nacional da Klan que ainda hoje aparece nos noticiários, seja declarando apoio direto a Donald Trump ou afirmando que muitas das ideias de Jair Bolsonaro, nosso presidente eleito, "soam" como as dele. A questão é que este paralelismo nasce da própria dinâmica da investigação encabeçada por Stallworth para, em um segundo momento, ser desconstruída.

É óbvio que um homem negro não conseguiria se infiltrar na KKK. Não completamente, ao menos. Stallworth faz o contato telefônico – é como ele chega em uma figura tão famigerada quanto Duke – enquanto o policial Flip Zimmerman (Adam Driver) aparece nos atos e reuniões da Klan. Stallworth e Zimmerman são dois lados desse sistema opressivo. O negro que foi criado fora do gueto, e por isso quer ser policial, e o judeu que passa por branco, e por isso reproduz a retórica de acobertamento em relação ao grupo. A discriminação racial não é uma dimensão formativa das histórias e personalidades destes personagens, mas, segundo argumenta Lee, é impossível fugir dela.

Cinema e representação

Spike Lee faz cinema e por isso não consegue dissociar seu filme da produção de imagens e seu real impacto no mundo. As primeiras sequências de Infiltrado na Klan envolvem a reprodução de cenas de …E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming, que romantiza as relações sociais da aristocracia do Sul dos EUA durante a Guerra Civil. Em seguida temos o discurso francamente racista de Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin) diante de uma projeção de O Nascimento de Uma Nação (1915), de D.W. Griffith, filme sobre como a Ku Klux Klan salvou o Sul de uma dominação negra.

O Nascimento de Uma Nação é uma obra reverenciada na história do cinema, apesar do racismo patente, por solidificar uma série de convenções narrativas – como flashbacks e montagem paralela –, criando o que se convencionou chamar de linguagem do cinema. O filme é retomado mais adiante em Infiltrado na Klan, em uma exibição para os membros da Klan de Colorado Springs. Eles gritam e aplaudem os momentos em que os personagens negros aparecem retratados como pouco mais que animais selvagens, ladrões e estupradores. O cinema fornecendo a realidade especificamente desenhada para sustentar preconceitos. Lembra algo, não?

Lee recorre ao cinema para a criação de uma nova estética, uma nova narrativa, dando ao povo negro um herói da vida real em Ron Stallworth. Um herói falho, contraditório e idealista, que acredita poder mudar o sistema por dentro. Ao mesmo tempo, pela época que serve de pano de fundo, Infiltrado na Klan abraça a estética da “Blaxploitation”, cinema negro feito por negros e para negros, com ícones do quilate de Richard Roundtree e Pam Grier em filmes policiais como Shaft (1971), de Gordon Parks, ou Foxy Brown (1974), de Jack Hill. Stallworth e sua namorada, a líder estudantil Patrice Dumas (Laura Harrier), chegam a discutir quem são os melhores entre estes atores e filmes. É preciso se ver nas telas e reconhecer que há alternativas.

A estética da Blaxploitation ganha ressonância particular durante o discurso de Ture. Lee escancara as feições negras enquanto o personagem lista suas características questionando a ideia de beleza. Os lábios grossos, o nariz largo, o cabelo crespo. Os corpos, todos esteticamente belos, são amontoados, primeiro pela montagem, com rostos ocupando a tela durante a fala do ativista, e, depois, em um momento de celebração, através da música e da dança. Como achar feio? Como pensar em termos do que é esteticamente reprovável? A escalação de elenco, com os homens da Klan bem prejudicados visualmente, mostra a inclinação do diretor.

Todas essas proposições são montadas sobre falsas equivalências. As cenas com os membros da Klan bradando para O Nascimento de uma Nação são entremeadas por um senhor negro contando uma terrível história de injustiça racial. A verdade negra dói mais ao ser ressaltada pela caricatura branca. Por isso, quando o filme chega ao final e Lee sobrepõe o discurso de Trump em imagens da tragédia de Charlottesville, a farsa se desfaz. Como considerar, como propôs o presidente estadunidense, que "há gente muito boa em ambos os lados" quando só um deles é nazista (e não se preocupa em esconder)? Quando só um deles atropela e mata alguém que não aceita ser subjugado? A resposta, pensa Lee, está na própria pergunta.

Raça e país

Em um filme cheio de imagens poderosas, que falam alto e por si só, Spike Lee faz questão de apresentar discursivamente seu principal ponto. É possível ser negro e estadunidense simultaneamente? Pensar a si mesmo como um cidadão norte americano não é trair sua raça, seu povo? Segundo a argumentação do diretor em Infiltrado na Klan, os EUA são um país que se desdobra para criminalizar qualquer atitude negra, ao mesmo tempo em que mantém institucionalizados os mecanismos de opressão. Não há pílula a ser dourada.

"América em primeiro lugar" e "América para os americanos", duas frases que comumente se ouvem da boca de Donald Trump em comícios pelo país não por acaso são ditas por David Duke ao longo do filme. São, também, repetidas em coro pelos outros homens da Klan, também não muito diferentes dos fervorosos eleitores do presidente. É parte de uma noção exclusivista, de que as relações sociais estão a serviço de um país e não o contrário. A única forma de ser negro e estadunidense, dentro deste pensamento, é se sujeitar à estrutura de dominação.

Choca, mas Infiltrado na Klan é um filme cheio de pensamentos e imagens chocantes, que são atenuados pelo humor preciso e ironia fina que permeia toda a narrativa. O tom cômico e farsesco, aliados ao estilo cool da Blaxploitation poderiam até colocar em risco o poder da obra, criada para colocar o pé na porta das relações raciais dos EUA. Daí a importância de usar as imagens reais de Charlottesville ao final, com o discurso de Trump. É Spike Lee dizendo, sem medo, que este não é um filme sobre os anos 70, sobre a reação à conquista de Direitos Civis, através da luta de Martin Luther King, Malcolm X e outros tantos. É, acima de tudo, um filme sobre e para 2018.

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