Claire Foy não brilha em A Garota na Teia de Aranha

Lisbeth Salander não é uma heroína daquelas que o grande público sempre esteve acostumado a ver. A literatura, o cinema e a televisão popularizaram a personagem feminina que usava o sex appeal para esconder a dureza, se aproveitava das curvas e do olhar sedutor para atrair suas presas, e acabava surrando os bandidos sem perder o charme. Mas não Lisbeth. A protagonista da série literária Millenium, campeã de vendas e posteriormente adaptada para o cinema, era uma antítese a esse modelo: franzina, introvertida, cabelos curtos, roupas pretas, corpo coberto por tatuagens e piercings, um olhar que mistura fragilidade e intimidação.
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A personagem é obra da mente de Stieg Larsson, um jornalista investigativo sueco que ganhou fama mundial somente após sua morte, em 2004. Dos manuscritos que deixou nasceu a trilogia que vendeu dezenas de milhões de livros mundo afora. A primeira obra, Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2008), rapidamente ganhou as telas de cinema, dirigida com competência pelo dinamarquês Niels Arden Oplev em 2009 e, dois anos depois, numa versão ainda melhor produzida por Hollywood, sob a batuta de David Fincher (Seven, Zodíaco, Clube da Luta).
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Lisbeth é uma hacker talentosa que, nas horas vagas, atua como uma espécie de justiceira feminina, punindo dolorosamente homens que agridem mulheres. O mais recente filme da série, A Garota na Teia de Aranha, em cartaz nos cinemas desde a última quinta-feira (8), ajuda a explicar o porquê dessa sede de vingança. O primeiro episódio da franquia já mostrava a violência cometida à personagem por seu tutor e o consequente revide. O novo filme, contudo, acrescenta a isso um pouco do passado da protagonista, que escapou dos abusos do pai e deixou para trás uma irmã mais velha.
Mas, antes de se aprofundar nos detalhes da versão cinematográfica de A Garota na Teia de Aranha, há uma informação bem importante a ser considerada: esse é o primeiro volume de uma nova etapa da franquia. Com o material produzido por Stieg Larsson esgotado em 2007, a solução foi contratar um novo escritor para retomar a saga e faturar mais alguns milhões. O escolhido pelo pai e o irmão de Larsson (herdeiros do autor) foi David Lagercrantz, cujo feito principal no currículo até então nem levava seu nome. Ele foi o ghost writer (escritor não creditado) de Eu Sou Zlatan, biografia do craque futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic.
A nova obra foi lançada em 2015 e, em 2017, já saiu o episódio seguinte, O Homem que Buscava sua Sombra. De acordo com o autor, pelo menos um terceiro livro deve ser escrito, ainda sem previsão de lançamento.
Em entrevista ao The Guardian logo após a publicação de A Garota na Teia de Aranha, Lagercrantz contou que, de início, tentou ser como Stieg Larsson. “Eu li que ele costumava trabalhar durante a noite, as palavras fluindo, então, fiz o mesmo. Infelizmente, não sou esse tipo de escritor. Eu estava apavorado. Que desgraça seria se eu escrevesse um livro ruim. Então, eu comecei devagar. Ficar apavorado, no fim das contas, não era mau. O medo pode fazer você prosseguir, te dar energia, da mesma maneira como quando você é jornalista e faltam 10 minutos para entregar a matéria”, disse.
Clichês e decepção
Dessa maneira nasceu a trama que, pelo menos em sua versão cinematográfica, se apresenta como um amontoado de clichês muito aquém das duas versões de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Sob a direção do uruguaio Fede Alvarez (do remake de A Morte do Demônio e O Homem nas Trevas), o novo filme já começa mal pela escalação da protagonista. Claire Foy, que brilhou recentemente como a mulher de Neil Armstrong em O Primeiro Homem, faz uma Lisbeth Salander completamente apática, sem a força que tinham as intérpretes anteriores, Noomi Rapace e Rooney Mara (indicada ao Oscar pelo papel).
O filme começa com Lisbeth ainda criança brincando com a irmã. Até que o pai chama as duas e dá a entender que pretende abusar sexualmente delas. Lisbeth foge, tenta levar a irmã junto, mas ela opta por ficar. Corta para os dias atuais, onde um homem pede desculpas à esposa após agredi-la violentamente. Lisbeth surge do nada para dar uma lição no agressor, numa cena cujo único propósito parece ser o de lembrar o espectador da persona justiceira da protagonista. Logo em seguida, ela já tem seus serviços de hacker requisitados para recuperar da NSA (a agência de segurança norte-americana) um programa que dá acesso a um imenso arsenal bélico do mundo inteiro.
O que se segue não é nenhuma surpresa: bandidos violentos e misteriosos aparecem atrás do programa, colocando a vida de Lisbeth em risco. Ela vai pedir a ajuda a quem? Claro, Mikael Blomkvist, o jornalista investigativo que é seu parceiro habitual de trabalho e, eventualmente, amoroso (aqui, um mero coadjuvante em uma versão rejuvenescida, vivida pelo ator sueco Sverrir Gudnason). E assim a trama segue com perseguições, tiros, lutas e mudanças de rumo previsíveis. E nem é preciso dizer que, a certa altura, a irmã de Lisbeth dará as caras em sua versão adulta. No fim das contas, o que nos primeiros filmes se mostrou uma trama tensa com personagens complexos virou uma história policialesca insossa.
Rusgas familiares
Se as tramas da saga Millenium são feitas para envolver e surpreender o leitor, a história real por trás dessas obras não fica atrás. Tudo começa em Estocolmo, capital sueca, em 2004, quando, ao subir as escadas da editora na qual trabalhava, o jornalista Stieg Larsson sofre um ataque cardíaco fulminante e morre. Ela havia se notabilizado por seu trabalho investigativo, denunciando grupos fascistas e neonazistas em reportagens para a revista Expo e publicando um livro sobre a extrema direita no país.
Após sua morte, o irmão e o pai de Larsson vendem os direitos de publicação sobre uma série de manuscritos de ficção que o jornalista havia produzido. Foi assinado então um contrato para publicação de três livros, que se tornaram a série Millenium. Em 2005 foi lançado Os Homens que Não Amavam as Mulheres, que logo se tornou um best-seller narrando a história de uma hacker e um jornalista investigativo responsáveis por desvendar um crime. Nos anos seguintes já saíram os outros dois volumes, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar.
Os livros venderam milhões de exemplares pelo mundo, mas nem todos ficaram felizes. Eva Gabrielsson viveu com Stieg Larsson durante 32 anos, mas como os dois não eram casados oficialmente, ela não teve direito a nenhuma participação nas vendas. Em uma entrevista ao jornal português Público, revelou que nem sabia da publicação dos livros. “Fiquei em estado de choque. Não sabia quando ia ser publicado, ninguém me informou. Vi um monte de livros expostos e tive de sair dali”, relatou.
A rusga entre a viúva e os herdeiros de Larsson ficou ainda mais séria quando foram vendidos os direitos para David Lagercrantz dar sequência à franquia. Eva não concordou com a decisão. “Eu sinto muito por tê-la deixado infeliz ou brava, mas ela é uma pessoa, e os leitores são milhões. Eu a entendo. É uma situação triste. Eu sei que ela está brava comigo, mas eu tenho o mais profundo respeito por ela”, disse o escritor.
Mesmo alheia ao processo de publicação dos livros, a ex-mulher revelou alguns detalhes sobre a concepção das histórias. Por exemplo, o fato de Lisbeth Salander combater homens violentos é fruto de um estupro coletivo presenciado por Larsson em sua juventude. “[Ele] queria mostrar porque era tão empenhado contra a discriminação e a violência contra as mulheres. Foi essa força interior que fez com que fosse tão persuasivo nessa luta. Não se tratava de uma agenda política, era uma coisa pessoal”, revelou Eva. Outra inspiração para a protagonista foi Pippi Meialonga, personagem de livros infantis escritos pela sueca Astrid Lindgren.
Dos livros para as telas
No cinema, a trajetória da franquia foi um tanto errática. Na Suécia, toda a trilogia de Stieg Larsson foi adaptada, mantendo nos três filmes os mesmos protagonistas, Noomi Rapace e Michael Nyqvist, morto em junho do ano passado. Já nos Estados Unidos, Os Homens que Não Amavam as Mulheres foi lançado em 2011 tendo no elenco Rooney Mara e o ex-James Bond Daniel Craig. Assim como na Suécia, a promessa era de adaptar para as telas os outros dois livros.
O filme de David Fincher teve um desempenho satisfatório nas bilheterias, foi bem recebido pela crítica e ganhou um Oscar de melhor edição, além de outras quatro indicações. Tudo isso, porém, não foi suficiente para que o projeto de dar sequência às adaptações fosse em frente. Não se falou mais em novos filmes, até que fosse anunciado A Garota na Teia de Aranha, com direção, elenco e produtores diferentes do primeiro. Não há informações sobre a adaptação do quinto livro, O Homem que Buscava sua Sombra, mas seguramente vai depender do desempenho do novo filme nas bilheterias.
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