Estudantes têm experiência de quase morte em filme. Mas o que é realidade e ficção?

Parece a letra de Overkill, da banda australiana “Men at Work”. O filme “Além da Morte”, com ar de remake de “Linha Mortal” (1990), que estreou no Brasil na quinta-feira (19), trata de experiências de quase morte (EQM). Depois que cinco estudantes de medicina resolvem fazer experimentos com ressuscitação para poder vivenciar o que seria a vida após a morte e o que se passa nesse intervalo, uma ideia encabeçada pela personagem de Ellen Page (Courtney), muitas coisas acontecem: um momento de grande alegria, sensação de êxtase, inteligência aguçada e a consciência pesada que vem à tona – inclusive causando alucinações.
No longa, com roteiro de Ben Ripley e direção de Niels Arden Oplev, a tensão aumenta conforme o tempo que cada personagem passa desacordado, no limite entre a vida e a morte. Daí a comparação com a letra da música: “Specially at night I worry over situations. I know it'll be alright, perhaps it's just imagination” (especialmente à noite eu me preocupo com situações. Eu sei que ficará tudo bem, talvez seja apenas imaginação, em tradução livre). A revelação que cada um tem durante sua experiência de quase morte acabará influenciando também sua vida.
A produção é abaixo da média e deixa muito a desejar se comparado aos outros lançamentos de terror e ficção-científica deste ano como “Fragmentado”, “Corra!”, “Annabelle 2” e “It – A Coisa”, bastante elogiados pela crítica. “Além da Morte” marcou 4% de aprovação no agregador Rotten Tomatoes. Da metade para o fim, a ficção-científica que andava bem se transforma num terror mal executado que deveria ser o suficiente para transformar o filme num fracasso de público.
Vida real
Relatos de visões de luzes fortes e sentimento de conforto, semelhantes com os narrados pelos personagens, também são colecionados fora das telonas. O neurocirurgião americano Alexander Eben, por exemplo, era um cético com muitos anos de profissão. Depois de viver uma EQM durante sete dias de coma, ocasionados por uma meningite bacteriana, ela escreveu o livro “Uma prova do Céu” (Ed. Sextante) contando sobre o fato que mudou a sua vida.
No livro, Eben diz que a consciência não dependia do cérebro porque seu neocórtex estava destruído pela doença, o que não impediu de tornar experiência real. Para ele, a visão de que a consciência é criada pelo cérebro é démodé.
Outro médico que passou por uma experiência similar foi paranaense Eliseu Portugal, 55 anos. Prestes a se formar, em 1985, ele foi visitar os seus pais em Pitanga, no interior do Paraná. No seu último dia na cidade, sofreu um assalto com dois bandidos, um portando uma arma de fogo e o outro uma faca. “Comecei a lutar com eles, não sei o que passou pela minha cabeça na hora. Mas um tiro me atingiu”, conta. Ele caiu no chão, imediatamente. “Vi tudo como se fosse um filme. Eu estava flutuando no quarto e minha memória deste momento é muito viva, parece que tudo aconteceu ontem”. Depois, Portugal diz que a sensação era a de estar se afastando da cena do crime enquanto era contemplado por uma sensação de plenitude, paz e bem-estar.
Segundo ele, é possível comparar o momento a algo como se você estivesse numa geladeira, passando muito frio e sem roupa e, de uma hora para outra, alguém te colocasse numa banheira quentinha. “Eu fui tomado pela sensação que foi crescendo até que uma luz muito forte começou a ficar cada vez mais próxima. Ela me deixava feliz e tranquilo”.
Ele não tem certeza de quanto tempo a sensação durou, mas afirma que o retorno ao corpo foi abrupto e a vida nunca mais foi a mesma depois da experiência. “Morrer é um processo que ninguém deveria temer, porque não é algo ruim”.
A ciência
Existem duas teorias sobre as EQM. A primeira corrente, a dualista, acredita que a consciência não é produzida pelo cérebro: elas são coisas distintas e independentes. Outra corrente de médicos acredita que as experiências de quase morte poderiam ser explicadas pela falta de oxigênio no cérebro, responsável por provocar alucinações.
De acordo com a neurologista do Hospital Santa Cruz Adriana Moro não existe qualquer tipo de comprovação científica sobre o que acontece durante as EQM. “O que temos são relatos de pessoas que tiveram um período de consciência enquanto estavam sendo reanimadas depois de uma parada cardiorrespiratória”, diz. A especialista ainda explica que os relatos não têm um padrão e são bastante variados.
Um estudo feito em 2001 e publicado na revista científica The Lancer avaliou pacientes que passaram pelo quadro de reanimação. Pelo menos 18% deles lembram com detalhes da experiência e têm muita história para contar.
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