Passeios

Por que as visitas guiadas ao cemitério municipal de Curitiba são imperdíveis?

·5 min de leitura·Sandro Moser
Por que as visitas guiadas ao cemitério municipal de Curitiba são imperdíveis?

Um cemitério é, sempre, feito para os vivos. E não para os mortos.

Até porque, os mortos estão “bem mortos, e, mudos…”, como escreveu o poeta Emiliano Perneta. Ele mesmo é um dos eternos moradores (desde 1921) do São Francisco de Paula, o cemitério municipal de Curitiba.

Esta é a primeira das muitas lições que se aprendem nas visitas guiadas ao mais antigo “campo santo” de Curitiba. Na noite desta quinta-feira (12), nem mesmo a ameaça de tempestade assustou as quarenta almas (vivas) inscritas na concorrida lista das visitas noturnas à "cidade dos mortos".

Ainda que o assovio do vento gelado desse certo clima de conto de Edgar Allen Poe, o passeio noturno não tem nada de mórbido ou soturno. Pelo contrário. A visita é uma aula aberta, engraçada e descontraída, (não a ponto de ser desrespeitosa), sobre a sociedade curitibana e paranaense.

Os pontos são ligados pelas lápides de nossos mortos mais notórios e delas, várias camadas de história emergem. Ainda que nunca dure menos que três horas, a taxa de visitantes que voltam é altíssima e a de recomendações positivas beira os 100%.

Como a cabeleira Sílvia Plotz, que fazia o périplo pela segunda vez. “Tem sempre muita história bacana. A gente enriquece bastante. Eu indiquei para todo mundo. Quem nunca veio não sabe o que está perdendo, além do que é bem melhor vir para cá ainda vivo”, brinca ela ao conhecer os quase 100 mil metros quadrados.

A maior parte do sucesso das visitas deve ser colocado na conta da guia e idealizadora do passeio, Clarissa Grassi, que comanda o evento desde 2011. Até 2016, como voluntária. Em 2017, ela foi contratada pela Fundação Cultural de Curitiba e as visitas ganharam periodicidade maior.

Só neste ano, já foram 34 visitas. Ainda há muitas outras programadas até o final do ano. À luz das lanternas dos visitantes, Clarissa faz conexões entre arte e economia, entre sociologia e futebol, entre religião e arquitetura. Sem suas explicações nosso olhar destreinado passaria batido.

Ervateiros, políticos, mulheres pioneiras e candidatos a santo

Antes da visita, ela reúne o grupo em uma palestra na ágora à frente da entrada principal cujo tema pode ser definido como “A morte na evolução da civilização ocidental”.

Começa falando de como sociedades da antiguidade lidavam com seus mortos até chegar o Brasil do século 19 e dando zoom na narrativa chega a Curitiba dos 1850, quando coube ao presidente da província, Zacarias Goés de Vasconcellos, liderar a luta política pela construção do cemitério  de São Francisco de Paula.

Ele mesmo, porém, não pode gozar seu descanso eterno no cemitério que construiu a duras penas (e aumento de impostos sobre a aguardente do povo). Ele morreu no Rio de Janeiro e por lá ficou.

Durante o passeio, ficamos sabendo que entre os mais de cinco mil jazigos, há capelas em estilo greco-romano, monópteros (como o jazigo de João Gualberto) e mausoléus com influências greco-egípcias como a pirâmide da família Glasser.

Cada esquina guarda uma surpresa como os exclusivos túmulos ornados com elementos visuais paranistas (família Stenghel) e o monumento a André de Barros, com busto do homenageado feito pelo escultor João Turin.

Aprendemos sobre arte e alegoria sacras, sobre a diatribe de Vicente Machado com o Barão do Serro Azul e pasmamos com a exuberância funeral das famílias de ervateiros desde sempre os oligarcas mais endinheirados do estado.

A pequena Curitiba dos mortos resume a Curitiba dos vivos

Pelas tumbas, sepulturas, mausoléus e túmulos, e possível ver quem é quem na cidade. O cemitério é uma pequena Curitiba. “O cemitério é um resumo simbólico, uma reverberação histórica da cidade real na cidade dos mortos”.

A geologia é outro tema dominante. Há mais de 35 cinco tipos de rochas diferentes guardando a última morada dos habitantes da necrópole, do granito-rosa ao  mármore Carrara.

Os olhos da guia Clarissa brilham quando ele pode falar de dois pontos mal resolvidos na formação da sociedade paranaense que aprecem impiedosamente na visita ao campo santo: a participação dos negros e das mulheres. “Eu digo que eu sou uma relações públicas dos mortos e entre eles, tenho uma queda pelos outsiders”.  

Entre as nossas grandes mulheres que dormem na necrópole estão estão a revolucionária Didi Caillet  e Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do Brasil. Negra curitibana como o doutor Pamphilo d’Assumpção que criou a seção paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil.

No túmulo mais visitado do cemitério, em meio a centenas dos ex-votos que agradecem as graças da santa curitibana, ficamos sabendo, por exemplo que a  “santa” curitibana foi esbranquiçada com o tempo. Ainda que a seu registro de óbito confirme que a moça assassinada por um soldado tinha a pele “parda”

O compositor Léo Fé (foto), um dos visitantes, disse que as histórias o inspiraram. “Esta revelação me despertou a ideia de um tema para o enredo do nosso bloco de carnaval. Os nossos negros que são “invisíveis” bom vê-los e conhecer melhor a história deles”.

Próximas visitas serão temáticas

As visitas neste final de semana, 13 e 14 de novembro estão lotadas. Mas ainda há mais de 15 visitas programadas até o final do ano. Para se inscrever, é preciso enviar um e-mail, com o nome completo, data de nascimento, RG e telefone para contato.

Em outubro, no dia 21, o passeio temático visitará as moradas finais dos principias poetas do paranismo que descansam no cemitério municipal pelos séculos e séculos. Em novembro, no dia 25, haverá uma visita com o tema música e a apresentações com compósitos de alguns dos autores sepultados. Quem é vivo, não deve perder.

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