Como foi o primeiro show de Chico Buarque em Curitiba e o que esperar dos próximos

Quando daqui a muito tempo Curitiba for uma cidade submersa e os escafandristas vierem explorar a alma e os desvãos desta época conturbada em que vivemos, eles se vão deparar, num fundo de armário, com a pequena joia que foi o show de estreia da minitemporada de Chico Buarque no Teatro Guaíra na noite de quinta (2).
Chico ainda faz dois shows, nesta sexta e sábado (3 e 4) e sobram pouquíssimos ingressos. Assinates do Guia + Clube Gazeta do Povo têm 30% na compra de até dois ingressos.
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Na primeira noite, o criador mais importante da música popular brasileira fez um show enxuto em que banda, arranjos, cenários, iluminação e figurinos – e o próprio artista – serviram de apoio ao desfile da estrela principal: a poesia contundente do compositor de 74 anos.
Investido em sua proverbial timidez, Chico soube no palco para mesclar seu catálogo de canções de todas as suas fases com as peças principais do repertório de seu mais recente trabalho, Caravanas, que dá nome à turnê. O show pode ser chamado de histórico por vários motivos.
O primeiro é a inusitada ausência do maestro e diretor musical do espetáculo, Luiz Cláudio Ramos. Acometido de um problema de coluna, Ramos passou o dia tentado tratar a lesão, até com acupuntura, mas acabou desfalcando o octeto titular. A banda precisou rearranjar alguns temas e Chico tocou violão na maioria das músicas, o que normalmente não o faria, mas todos saíram-se muito bem.
Na primeira vez em que falou com a plateia, Chico explicou a ausência de Ramos e depois disse, cheio de modéstia, que seu trabalho consistia em “colocar letras em músicas que ele gostaria de ter composto, como as de Tom Jobim”. De sua parceria com Tom, cantou Retrato em Branco e Preto e Sabiá, com Edu Lobo (A Moça do Sonho e A História de Lily Braun) e com Cristóvão Bastos (Todo Sentimento e Tua Cantiga).
Em várias das canções Chico, cantou em dueto com a instrumentista Bia Paes Leme. A relação de Chico com a banda, aliás, é famosa pela lealdade recíproca. Os músicos e a equipe de produção parecem ter um contrato vitalício com Chico.
Esta é a primeira turnê de Chico sem Wilson das Neves na bateria – o sambista morreu em 2017. Foi substituído por Junim Moreira. Completam a banda João Rebouças (piano), Chico Batera (percussão), Jorge Helder (contrabaixo), Marcelo Bernardes (flauta e sopros) e o ausente maestro Ramos. Chico dedicou o show a das Neves (“Saravá, Chefia!”) antes de cantar de chapéu Panamá, Grande Hotel, a principal parceria entre os dois artistas.
Veja abaixo, o repertório completo do show Caravanas:
Minha embaixada chegou (Assis Valente)
Mambembe
Partido alto
Iolanda
Casualmente
A moça do sonho
Retrato em branco e preto
Desaforos
Injuriado
A volta do malandro
Homenagem ao malandro
Palavra de mulher
As vitrines
Jogo de Bola
Massarandupió
Outros sonhos
Blues pra Bia
A história de Lily Braun
A bela e a fera
Todo o sentimento
Tua cantiga
Sabiá
Grande Hotel
Gota d'agua
As caravanas
Estação derradeira
Minha embaixada chegou
Bis
Geni e o Zepelim
Futuros amantes
Bis 2:
Paratodos
Mais um aspecto que torna o show Cravanas memorável é cenografia de Helio Eichbauer, falecido há duas semanas. Em seu último trabalho, portanto, o cenógrafo recicla formas com cordas e hélices que completam o conjunto elegante do espetáculo.
Há outro motivo óbvio que fará o show ser lembrado: o contexto político. A noite será para sempre lembrada como a do show do dia em que Chico Buarque visitou o ex-presidente Lula na cela da Superintendência da Polícia Federal de Curitiba.
As esperadas manifestações políticas durante o show foram discretas, mas constantes. Um grito de “Lula Livre” e outros de "lindo" se ouviram entre quase todas as canções. Na parte final do show, porém, as manifestações subiram um tom com a maior parte da plateia gritando o refrão pró-Lula, acompanhada discretamente por Chico no violão.
No primeiro bis, os acordes de Geni e o Zepellim (seria a melhor canção já escrita no país?) fizeram parte do público levantar das poltronas para acompanhar de pé no gargarejo.
No segundo bis, após a catártica versão Paratodos, Chico dançou miudinho, rebolou, correu pelo palco (mostrando agilidade invejável) cumprimentando os fãs como um astro do rock e aceitou uma camiseta vermelha com a cara de Lula de presente de uma fã, antes de sumir no palco do Guaíra.
A plateia do teatro virou uma arquibancada em que a grande maioria gritava a favor da liberdade do ex-presidente, contra algumas poucas vozes contrárias. O embate, porém, logo arrefeceu sem maiores consequências e todos foram embora em paz.
Que Chico seja mais discutido por sua postura política do que por sua obra poética (caudalosa e fundamental) é um dos mistérios de nossa estranha civilização. Talvez os mergulhadores do futuro saibam explicar.
Para os admiradores da música de Chico Buarque, sobretudo, shows desta turnê são a chance de ver o autor defender sua obra com muita paixão. Este último, o dado histórico mais importante.
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