Depois de 20 anos, Vox Bar fecha as portas

Enquanto a seleção brasileira perdia a final da Copa do Mundo de 1998 (3×0, para a França) os empresários Márcia Fontana e Paulo Giroletti estavam terminando as obras do Vox Café, casa que que abririam um mês e meio depois, em setembro daquele ano, num casarão de esquina na rua Ébano Pereira com a Saldanha Marinho.
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Neste sábado (14), véspera da final da Copa de 2018, o Vox Bar fecha as portas depois de uma última festa – batizada de Bye, Bye, Vox – e de quase 20 anos como sinônimo de vida noturna e boa música em Curitiba.
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A troca de guarda das gerações boêmias e a crise econômica em que o país se arrasta foram os motivos que fizeram os empresários repensarem o negócio e encerrarem o ciclo do Vox.
“A gente conseguiu trazer o público bem durante mais de 15 anos. Nos últimos três, foi uma luta”, observa Paulo.“Parece que metade do nosso público hoje prefere dormir cedo, pois no dia seguinte tem de treinar ou andar de bike e não pode ficar até as 5 da manhã ouvindo música”, avalia, com bom humor.
Para ele, esta tendência mundial é influenciada por uma mudança de cultura. “Esta coisa de ir a um clube dançar está em viés de baixa. Em Londres já houve uns 400 clubes com DJ's. Hoje, há menos de 80”, explica Paulo. “Isto é cíclico. Uma hora a coisa muda e volta. As discotecas existem desde 1971 e sempre vão existir”, conclui.
Para Márcia, o sentimento diante do fechamento iminente mistura nostalgia e orgulho. Como negócio, o Vox foi um caso de sucesso. Em incontáveis noites, o público ficou perto dos mil pagantes (contando com o giro total de pessoas). “Nem nos nossos maiores delírios a gente achou que o Vox iria durar tanto tempo e com tanto sucesso. A gente fez coisas importantes, fizemos a nossa parte, mas esta proposta esgotou. Não há tristeza, só a sensação do dever cumprido”, afirma
Segredo industrial
O casarão centenário que abriga o Vox fecha as portas na madrugada de domingo (15), mas na segunda-feira (16) já vai ter gente trabalhando na reforma do espaço. Uma nova casa vai surgir, com outro nome, conceito e nicho de público diferentes. Um grupo de jovens empresários comprou mais da metade da operação de uma da terceira sócia da casa, Morgana Petrycoski, e uma porcentagem da participação de Márcia e Paulo. Detalhes do novo negócio, porém, são guardados como “segredo industrial”.
Alta fidelidade aos bons sons
O Vox Café abriu em setembro de 1998 como uma evolução do Sheena, lendário reduto boêmio do rock alternativo na rua Inácio Lustosa. “Nossa proposta inicial não era fazer um bar de rock ou um clube noturno. A gente queria fazer um café, com boa música claro, mas um lugar para o pessoal comer”, lembra Márcia.
Tinha salmão grelhado e batata-suíça no cardápio. “O problema é que a gente não sabia fazer aquilo. Como não dava nada certo, a gente abriu uma pistinha”, completa Paulo.
A virada foi criação da festa Hang the DJ. A marca da casa levava para a pista a melhor música pop da década de 1980, o som que fazia a cabeça de Márcia e Paulo [que é colecionar de discos e os tem aos milhares]. “Juntou um povo que estava carente de um lugar para dançar com um povo que ouvia a mesma música que nós”, lembra Márcia.
O espírito da época está sintetizado no livro Alta Fidelidade, do escritor Nick Hornby (que foi adaptado pelo cliente do Vox, o dramaturgo Felipe Hirsch com o nome de “A Vida é cheia de som e fúria"). Uma época em que o conhecimento sobre cultura pop era um ativo social e as conversas rolavam em torno de bandas e filmes obscuros.
Logo, o Vox virou a maior balada da cidade. A fila para entrar se formava antes da casa abrir, tomando a quadra toda. Além das festas, a casa também promovia shows. “Nosso compromisso era com o bom gosto, com a boa música. Se fosse punk rock, queríamos a melhor banda. Se fosse um sambista, que fosse um dos melhores. O Nélson Sargento cantou aqui em 2000”, lembra Paulo.
Depois de oito anos a casa ficou pequena. Em 2006, o Vox se mudou para a Barão do Rio Branco. Primeiro só com uma pista no térreo. Depois, com um imponente lounge na sobreloja do imóvel – que é uma Unidade de Interesse de Preservação – numa festa com discotecagem do Andy Rourke, baixista da banda inglesa The Smiths.
Convidar DJ's célebres virou também uma marca do Vox. João Gordo, Supla, Dado Villa Lobos, Marina Person, Rafael Cortez, Danilo Gentili, Clemente e Kid Vinil, dezenas de vezes. “Durante muito tempo, funcionou muito bem com um público que vinha para comer e depois descia para a pista”, disse Márcia.
Neste último fim de semana de festa, o Lounge e a pista estarão abertos uma última vez para reviver a era boêmia do Vox.
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