Cinema

Indicado ao Oscar, Trama Fantasma é mais uma joia na carreira do Paul Thomas Anderson

·6 min de leitura·Ricardo Sabbag Zipperer
Indicado ao Oscar, Trama Fantasma é mais uma joia na carreira do Paul Thomas Anderson

A obra do cineasta Paul Thomas Anderson, de 47 anos, é bastante marcada pelo local em que nasceu e cresceu, o Vale de San Fernando, na Califórnia (EUA). A maior parte dos seus filmes é localizada ou faz referência ao Vale, um lugar cuja efervescência cultural é capaz de abrigar de empresas de alta tecnologia à indústria do cinema pornográfico.

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À parte de uma ou outra cena isolada, o cinema de Anderson nunca deixou a Califórnia. Até a realização de Trama Fantasma, seu novo longa-metragem que estreia essa semana. O filme se passa em Londres e, em menor parte, cidades do interior da Inglaterra. Mais: os personagens principais não são remotamente ligados aos Estados Unidos ou sequer têm traços da cultura americana. Para um diretor conhecido por refletir o espírito americano como poucos, o desafio não é pequeno.

Em diversos sentidos, Trama Fantasma precisa ser enxergue como uma antítese do longa anterior de Anderson, Vício Inerente. No filme de 2014, o diretor fez uma adaptação livre do romance de um dos maiores autores americanos contemporâneos, Thomas Pynchon, conhecido por sua prosa afastada da linearidade. A trama intrincada e a narrativa lisérgica colaboraram para que Vício Inerente se tornasse um dos filmes de mais difícil interpretação da obra de Anderson, conhecido por sucessos populares como Boogie Nights: Prazer sem Limites e Magnólia.

Após o mergulho na Califórnia profunda dos anos 1970, Anderson conta que quis se distanciar daquele universo. Para isso, criou a história de um excêntrico estilista inglês de alta costura dos anos 1950, que veste a elite londrina e vive em seu ateliê junto da irmã controladora e solteirona. Interpretado por Daniel Day-Lewis, Reynolds Woodcock é um gênio introvertido e cheio de manias, obcecado pelo seu trabalho, com clara sujeição à Síndrome de Édipo, que precisa da irmã para administrar seu negócio – ou todos os aspectos da sua vida que não sejam a criação, costura dos vestidos e relacionamento com as clientes afortunadas do ateliê.

Quem divide com Day-Lewis o protagonismo de Trama Fantasma é a pouco conhecida atriz luxemburguesa Vicky Krieps, que interpreta Alma, a garçonete a quem Woodcock tomará como musa e eventual amante e que se tornará figura imprescindível ao sucesso das novas criações do estilista. Alma é, à sua medida imperfeita (para os padrões de beleza dos nossos anos 2010), a modelo ideal para os vestidos esfuziantes de Woodcock. Ao mesmo tempo, a presença de Alma em meio aos irmãos Woodcock criará a perturbação necessária para o andamento da trama de Trama Fantasma.

Referência

O argumento do filme faz alguma referência a Rebecca, A Mulher Inesquecível, filme de Alfred Hitchcock de 1940. Mas é difícil enxergar uma semelhança maior do que o conflito entre este improvável triângulo (até amoroso, mas não no sentido de amor romântico) e o do filme de Hitch. De certo modo, Trama Fantasma talvez seja o filme mais convencional de PT Anderson, levando o espectador mais desavisado a acreditar que se trata de uma narrativa morna, no máximo muito bem executada por atores, figurinistas e compositores (falaremos mais adiante deles).

Colocando em perspectiva, no entanto, Trama Fantasma é um filme ousado dentro da obra de Anderson. É um longa que preserva a linha do cinema do diretor que começa com Sangue Negro, de 2007 – não à toa a primeira colaboração entre Anderson e Daniel Day-Lewis –, e que segue adiante com O Mestre e o já citado Vício Inerente.

Até Embriagado de Amor, de 2002, os filmes de Anderson são mais leves e divertidos, embora sempre ricos em técnica de roteiro e direção. Mas de Sangue Negro em diante, Anderson faz um cinema que flerta com a obscuridade, com histórias menos palatáveis e com signos menos evidentes do que faz um filme ser reconhecido como bom cinema.

É possível, aliás, que a maior qualidade de Trama Fantasma seja justamente se tratar de um filme mais digerível que seus antecessores imediatos sem perder em qualidade cinematográfica. Anderson, afinal, mergulha nos meandros de uma sociedade pouco familiar para si, confiando que os elementos essenciais de seus personagens e de sua história deem conta – e eles dão – da complexidade da narrativa que está sendo contada.

Outros profissionais

Mas os méritos de Trama Fantasma não devem ficar apenas na conta do diretor. A excelência do filme também se deve ao trabalho de outros profissionais. A começar pela interpretação de Daniel Day-Lewis. O trabalho do ator inglês – que anunciou que este seria seu último papel no cinema – é quase sobrenatural. Dizer que Day-Lewis “encarna” o personagem é pouco. É um tipo de interpretação que mais parece uma transmutação, algo que exige mais do que apenas qualidade artística. Day-Lewis é um devoto da atuação, um avatar que se dispõe a personificar personagens que só existem na ficção.

E se o ator cumprir com sua palavra e não voltar a trabalhar no cinema, não devemos lamentar. Interpretações como a de Reynolds Woodcock pertencem à história da sétima arte. A maior parte dos atores não conseguirá em vida uma atuação como essa – que, aliás, não é nenhuma novidade na trajetória do inglês. Parar no auge é para poucos.

A dupla de atrizes que sustentam Trama Fantasma também não deixa a desejar, embora a atuação de Day-Lewis seja das que eclipsam qualquer um a seu lado. Vicky Krieps é uma grata surpresa e sua Alma é indispensável para o bom andamento do filme. Foi uma aposta de Paul Thomas Anderson que se provou certa. Já Lesley Manville como a irmã Ciryl é uma bola de segurança. A experiente atriz inglesa é colaboradora antiga do diretor Mike Leigh e tem longa carreira na tevê e no cinema. Ela consegue segurar muito bem a tensão psicológica entre os irmãos, que são interdependentes mas vivem uma relação quase patológica.

Outros aspectos técnicos que não podem deixar de ser considerados são o figurino criado por Mike Bridges e a trilha sonora original de Jonny Greenwood, guitarrista da banda Radiohead, que compôs para Trama Fantasma música orquestrada. Ambos, assim como Anderson, foram indicados ao Oscar em suas categorias.

A temporada de premiações não tem sido tão generosa com Trama Fantasma. Prêmios, afinal, dependem de absoluta subjetividade do corpo de jurados e há anos em que um tipo de filme é mais valorizado do que outro. Nem isso nem a aparente simplicidade da história devem reduzir a importância de Trama Fantasma para o cinema e a filmografia de seu diretor. É possível argumentar que o melhor cinema de Paul Thomas Anderson ainda é o feito na Califórnia, mas desde quando uma viagem por Londres é uma coisa desagradável?

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