Maestro brasileiro diz que sem música nas escolas, todo estímulo será em vão

Maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e principal regente convidado da Orquestra Sinfônica Nacional UFF, o carioca Tobias Volkmann é um dos destaques da nova geração de regentes orquestrais do Brasil. De passagem em Curitiba para duas apresentações com a Camerata Antiqua de Curitiba, nesta sexta (22) e sábado (23) na Capela Santa Maria, o maestro falou ao Guia Gazeta do Povo + Clube sobre o cenário atual da música erudita no Brasil, reconhecendo que há uma geração talentosa de alto nível surgindo, mas que toda iniciativa será em vão enquanto não houver o ensino de música nas escolas, “para formar público e novos músicos”.
No programa com a Camerata – regida pela primeira vez por Volkmann – obras de Villa-Lobos, Sebastian Bach e Benjamin Britten com acompanhamento do harpista Hélio Leite e solos da soprano Luísa Favero, da contralto Ariadne Oliveira, do tenor Alexandre Mousquer e do baixo Claudio de Biaggi.
A “Cantata Misericordium”, de Edward Britten, dá nome ao programa e é o fio condutor do restante do repertório. Como foi essa escolha?
Formatei esse programa para a Camerata a partir da cantata dramática de Benjamin Britten, que traz a parábola do bom samaritano. É um programa que fala de amor ao próximo, o principal e mais universal princípio cristão. Acho que estamos todos precisando passar essa mensagem! (risos).
Será minha primeira apresentação de todo o repertório, uma escolha difícil e desafiadora que mescla Britten, Bach e Villa-Lobos. Quando recebi o convite da Camerata, resolvi escolher esse programa também com base na estrutura de coro de câmara e instrumentos. Tendo selecionado a “Cantata Misericordium”, as outras peças vieram pela minutagem e pelo tema comum.
Temos ainda com a “Bachianas Brasileiras no. 9”, em comemoração aos 130 anos de nascimento de Villa-Lobos. Completa o concerto a “Cantata BWV 77 – Du sollt Gott, deinen Herren, lieben”, de Bach, escrita em 1723, com texto baseado na parábola de “O Bom Samaritano” das Escrituras Sagradas, fazendo assim a relação entre as obras.
Essa é sua primeira apresentação com a Camerata Antiqua, mas qual é sua relação com Curitiba?
Minha ligação com a cidade vem desde a Oficina de Música: minha mãe era professora, participei de duas edições como aluno. Como regente não cheguei a vir. No Teatro Guaíra, me apresentei duas vezes recentemente com a Orquestra Sinfônica. Curitiba tem uma programação bastante variada, em especial a Camerata Antiqua, que é bastante feliz em suas escolhas.
Em relação ao cenário internacional, o que poderia destacar sobre os países em que já atuou, como a Finlândia?
Os finlandeses são um grande celeiro de regentes, especialmente nos últimos 20 anos. Assim como a Alemanha, em que estive em 2015. Podemos ver maestros jovens que se destacam também na Venezuela, por exemplo, como o Gustavo Dudamel.
Como você avalia o atual momento da música erudita e dos jovens maestros no Brasil?
É um bom momento, sem dúvida, devido principalmente aos projetos sociais de formação de jovens músicos e regentes. São Paulo e Rio de Janeiro têm iniciativas muito boas, assim como a Filarmônica de Goiás. A globalização e o maior acesso à informação trazem muitos benefícios também, há uma geração de alto nível se formando. Eu mesmo atuei como cantor, e tem gente que se surpreende por ser um maestro relativamente jovem [ ele tem 40 anos]. Isso acontece pelo preparo técnico e de estudos, é uma carreira que exige bastante. Talvez por isso o estereótipo do “maestro velho” (risos).
A música erudita, aos poucos, está se tornando popular no país? Como vem sendo a resposta do público nos últimos anos?
Pode parecer que sim pela exposição na mídia, como no burburinho gerado este ano pelo filme sobre o maestro João Carlos Martins. Isso se deve, ao meu ver, mais à trajetória pessoal dele do que em relação à música erudita propriamente dita. O resto, infelizmente, é “fogo de palha”.
Enquanto não tivermos espaço nas escolas para a música – iniciativa que foi aprovada em lei, mas já revogaram – para formar não só músicos, mas o público, as demais iniciativas não terão muito efeito prático. A música erudita, o balé, precisam se renovar e gerar interesse nas pessoas, senão ninguém assiste. A divulgação nos meios de comunicação também é importante, assim como incentivos à participação de orquestras em eventos gratuitos e mais festivais abertos ao público.
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