Conheça a escritora que, aos 102 anos, lança seu primeiro livro

Um velho caderno de folhas amareladas estava entre os itens que seriam jogados fora por Odette Cazamajou Amaral, a Tita, há alguns meses. Aos 102 anos de idade completos nesta sexta-feira (15), Tita queria se desfazer de algumas coisas que ocupavam espaço na casa.
O volume chamou a atenção de sua bisneta Audrey que, ao folhear, percebeu que eram textos e poesias escritos pela bisavó. Com caligrafia e ortografia impecáveis, os textos são poemas e memórias de mais de um século de vida desta mulher que conheceu o amor, a alegria na mesma medida que a solidão e a tristeza. “Ela me falou bem assim: você está louca! Nunca vou deixar você jogar isto fora, bisa”, se diverte Tita.
Durante um almoço de família, o caderno chegou a Vanessa Zaniolo, esposa do neto de Tita. “Eu fiquei emocionada com a letra linda e a riqueza das anotações, na hora vi que tinha material suficiente para fazer um livro e assim eternizar as lembranças e anotações da vó”, explica Vanessa.
Foi ela que efetivamente produziu o livro “Tita, um Século de Vida”, que será lançado neste sábado (16) no Memorial de Curitiba. Tita estará presente no lançamento das 14h às 18h e haverá leitura dos textos.
O conteúdo do livro era desconhecido da família em razão do temperamento reservado de autora. “Eu escrevia e ninguém sabia. Pois eu sempre dormi muito pouco. Desde quando era mocinha, assim que todos dormiam eu apanhava um livro e uma vela que deixava em baixo do colchão e lia durante horas”, lembra.
Um dos poemas conta a história da origem de seu romance com o advogado Mário Amaral, falecido há 60 anos, mas até hoje amado fervorosamente pela esposa. No poema, ela lembra que Mário mandava um menino de recados todo dia entregar-lhe um botão de rosa como prova de amor.
Em outros versos, ela fala da relação que tem com as próprias mãos, que a ajudaram a trabalhar nos momentos difíceis da viuvez e da solidão. Mãos que foram envelhecendo com ela e a fazem perceber a passagem do tempo.
“Ela é uma escritora, realmente. Há riqueza no que ela escreve, e ela passa uma mensagem de que nunca é tarde”, diz Vanessa.
Entre Buenos Aires e Curitiba, uma vida de amor e luta
Totalmente lúcida, eloquente e muito elegante, Tita conta a sua história – que dá outro livro. Ele nasceu em 1915 (mesmo ano em que nasceram Frank Sinatra e Edith Piaf), em Buenos Aires, filha de um casal de professores franceses.
Lá, aprendeu a escrever e conheceu a cidade que vive em sua memória (“o bairro de La Boca era um matagal"). Em 1924 (ano em que rebentou a Coluna Prestes) a família mudou-se para o Brasil, antes para Curitiba e depois para Canoinhas, no interior de Santa Catarina.
Foi lá que casou, em 1935 (o ano em que nasceu Elvis Presley), com Mário Amaral Gurgel, um advogado proeminente e promotor de Justiça e viveu 22 anos da vida que pediu a Deus. Mario, porém, adoeceu e morreu em 1957 (ano em que Pelé estreou na seleção brasileira).
Viúva e sozinha, Tita precisou trabalhar em um momento em que poucas mulheres faziam isso. Ela conta que resistiu a galanteio e à pressão social para um novo casamento. Mas sofreu para pagar a hipoteca bancária da casa trabalhando como secretária em uma escola. A escrita virou sua companheira em momentos de solidão.
“Nunca tinha escrito nada. Depois que fiquei viúva, precisava preencher as horas sem ele. Foi um tempo de luta tremenda. Ele se foi e eu fiquei com dívidas, sozinha, cheia de compromissos e nunca tinha trabalhado. A vida sempre é mais difícil para uma mulher sozinha”, disse.
Um lugar no livro dos recordes?
Mas Tita superou. Trabalhou até se aposentar. Hoje, vive num agradável apartamento no Água Verde, na companhia do cãozinho Zairon. Seu grande problema de saúde é a perda gradual da visão, pior diagnóstico para uma leitora voraz.
Quanto ao lançamento do livro, ela se divide. Está honrada com a homenagem, mas receosa com a repercussão. “Sempre fui uma pessoa muito modesta. Nunca me passou pela cabeça ter esta divulgação que esta acontecendo. Não sei se estou a altura”, disse.
A partir do lançamento deste sábado, Tita poderá, inclusive, pleitear um lugar no Guiness Book como a mulher mais idosa a publicar um livro. A marca atual é da inglesa Bertha Wood, que publicou seu livro com 100 anos. Tita ganha por dois.
“Tudo o que eu desejei na minha vida eu tive. Por um tempo. Vivi feliz na minha casa com meu amor. Mas acabou uma hora, como tudo mais na vida. Nestes textos abri minha alma e contei o que passei”.
Curitiba sai mais barata com o Clube
Centenas de parceiros na cidade, do restaurante ao cinema. O desconto é usado direto pelo app.
Assinar o Clube Gazeta



