Outros

Em festa de samba, Tinhorão vem a Curitiba lançar seu novo livro

·5 min de leitura·Redação Clube Gazeta
Em festa de samba, Tinhorão vem a Curitiba lançar seu novo livro

“Se o conhecimento não está nos livros, onde estará? Na memória dos velhos”, explica José Ramos Tinhorão.

Aos 90 anos, o historiador mais importante da música popular brasileira estará em Curitiba neste sábado (28) para o lançamento de seu último livro "Primeiras Lições de Samba e Outras Mais", a partir das 16h, n'A Caiçara, no centro histórico. Tinhotão fará uma palestra as 16h em ponto. O livro custa R$ 40. 

A frase acima – um resumo da teoria de preservação do patrimônio imaterial – serve para Tinhorão explicar como construiu os textos que compõem o livro, surgidos após uma famosa conversa com Reynaldo Jardim, então editor no Caderno B do Jornal do Brasil, em 1961. 

Jardim encomendou-lhe uma série de artigos sobre a história do samba. Na época, o diário havia publicado um material similar sobre jazz. Tinhorão o questionou: “Como? Quase não há livros sobre o assunto?”. Jardim então respondeu: Pois então escreva-os”.

Foi o que fez Tinhorão, e até hoje faz. Como tinha acesso às “fontes primárias", ele entrevistou famosos e anônimos que participaram dos primórdios do samba. Suas descobertas foram notáveis em temas que até hoje dão pano para manga (o samba é baiano ou carioca? Quem compôs o primeiro samba?).

 “Fui conversar com todos os velhos que eram os portadores do conhecimento da música popular”, lembra. 

Os textos foram publicados no JB entre 1961 e 1962 e hoje são lidos o primeiro estudo sério sobre a história do samba organizado de forma crítica e cronológica.

Entre os textos antológicos uma pequena biografia de Nélson Cavaquinho ou o relato de uma tarde no ateliê do sambista e pintor Heitor dos Prazeres.

“O mérito do meu trabalho foi ter sido curioso e escrever procurando não apenas falar da música, mas buscar o ambiente em que aquela manifestação cultural foi criada”, disse.

O colóquio do crítico implacável

A segunda parte do livro compila as críticas musicais que escreveu para o JB entre 1962 e 1982. Sua defesa radical da cultura popular, avessa aos estrangeirismos e picaretagens que conspurcavam a indústria fonográfica, o transformou em um personagem da imprensa nacional: o crítico implacável e temido que atacava as vacas sagradas do momento.

Gil, Caetano, Jorge Ben, Chico Buarque e principalmente Tom Jobim e os demais compositores da bossa-nova foram vergastados por suas chicotadas em forma de texto.

Veja algumas frases marcantes de José Ramos Tinhorão

“O tropicalismo é uma boa malandragem”

“Quando a grandeza repousa no espontâneo, fora do povo não há salvação. E é com ele que se deve aprender”.

 “Emilio Santiago canta como uma espécie de açum-preto da toada de Luiz Gonzaga na gaiola dourada da classe A, com os olhos ideologicamente furados para assim cantar melhor”.

“Tenho pena do Tom Jobim, ele achava que fazia música brasileira…”

“[Gilberto Gil e Jorge Ben, no álbum Gil & Jorge] são dois caras da classe média que se torturam numa espécie de glossosália, desmunhecam vocalmente e descambam para uma falsidade cultural que oscila entre a mais santa inocência e a mas abjeta vigarice”.

“A bossa nova é ritmo de goteira”,

 “O axé não é nada”.

Sua postura até hoje inflexível em defesa da arte brasileira pura torna-o uma espécie de herói para os grupos de músicos e pesquisadores que hoje se ocupam de pesquisar e manter viva a história do samba tradicional como o coletivo paulistano Glória ao Samba e seu equivalente curitibano, o grupo Samba do Sindicatis. “Estes caras são uns sobreviventes”, elogia Tinhorão.

A publicação de seus textos fundamentais, aliás é o primeiro projeto do Instituto Glória ao Samba e da editora curitibana Banquinho Publicações.

O dinheiro com a venda dos livros será usado para o lançamento de o disco perdido da Portela, um material inédito gravado em 1959 e recentemente redescoberto.

Antes da roda de Samba do Sindicatis ferver, Tinhorão fará um “pequeno colóquio” dando sua visão sobre a cultura brasileira. Ao contrário de sua “fama de mau”, Tinhorão é eloquente, educado e bem-humorado e sempre pronto para o debate.

O tapa na cara da realidade

Na ativa desde os anos 1940, Tinhorão segue produtivo em sua rotina de pesquisador. Ele admite, porém, que o tempo deixou um pouco mais cético e reticente. “A realidade dá tapa na cara da gente. Não adianta se insurgir em nome de ideias, a realidade vem e te põe no teu lugar. Não é agradável, mas é assim que as coisas são”.

Ele afirma que não sente saudade de seu acervo de mais de 30 mil discos e livros que está sob a custódia do Instituto Moreira Salles desde 2001. “Às vezes, eu queria procurar alguma coisa, mas é muito melhor que esteja lá a disposição de todos. Como as grandes obras de arte que pertencem a todos e precisam estar nos museus”.

Com seu pensamento dialéticos, ele identifica como o fim de uma era na música brasileira. “Existe uma coisa que as pessoas não querem compreender: a história é um processo que vai evoluindo de acordo com a evolução material da sociedade. Os homens se reúnem para produzir bens, entre estes que os homens historicamente se reúnem para produzir estão os bens culturais”, propõe.

“Houve um tempo no processo histórico que fazia sentido que o processo fosse assim: um artista criava música em um instrumento e ia apresenta-lá ao vivo para um público num bar ou sala de concerto que gostaria de ouvi-la. Neste tempo histórico, isto acabou”, conclui.

Para Tinhorão, em pouco tempo, a música sobre a qual escreveu e pesquisou vai seguir agonizando e pode desaparecer.

“A massa tem sido cada vez esvaziada de conteúdo humano e artístico. Como você vai exigir de um garoto de 12 anos, quando ele começa se interessar por alguma coisa de arte o negócio já vem empacotado e dirigido. Enfiam aquele fio no ouvido dele e o celular escolhe até a sequência das músicas”, observa.  

“Este sujeito nunca irá a um lugar ouvir música e dificilmente terá curiosidade para conhecer outras coisas. Mas ele é o menos culpado”.

Curitiba sai mais barata com o Clube

Centenas de parceiros na cidade, do restaurante ao cinema. O desconto é usado direto pelo app.

Assinar o Clube Gazeta
R
Redação Clube Gazeta
O amigo que sempre sabe o lugar bom em Curitiba.
Assine o Clube Gazeta
descontos na cidade inteira
Assinar