Cinema

Em tempos de fake news, "The Post" de Spielberg é um alento

·4 min de leitura·Bruna Covacci
Em tempos de fake news, "The Post" de Spielberg  é um alento

Em tempos de fake news e de questionamento do papel do jornalismo, em que as redes sociais se tornam arena de embate de opiniões, filmes como The Post – A Guerra Secreta, que estreia essa semana nas salas de cinema do Brasil, ajudam a reforçar ao público a importância da imprensa e seus profissionais na defesa dos valores democráticos.



Com um elenco estrelado, encabeçado por Meryl Streep e Tom Hanks, o longa conta a história do “Pentagon Papers”, documento publicado pelo jornal The Washington Post em 1971 que continha informações militares sigilosas sobre as ações dos EUA no Vietnã. Os protagonistas são a aristocrata editora do jornal Katharine Graham (Streep) e o seu editor-executivo, Ben Bradlee (Hanks). 

O drama central aborda a decisão de Graham de publicar os documentos do Pentágono, um movimento que poderia ter provocado consequências fatais para o jornal que ela começou a dirigir em 1963, após a morte de seu marido. A empresa, no entanto, era da sua família há anos – antes disso, Katharine cresceu vendo seu pai dirigir o jornal. 

Os papéis do Pentágono, vazados pelo informante Daniel Ellsberg, eram um relatório confidencial de 7 mil páginas que afirmava, ao contrário das declarações públicas dos representantes do governo americano, que a guerra do Vietnã era impossível de vencer.

O jornal The New York Times publicou trechos do relatório até que o governo do presidente Richard Nixon obteve uma ordem judicial que proibia a publicação de continuar interferindo em temas de segurança nacional. Foi então que o Post entrou na jogada, assumindo a missão e desafiando os perigos legais e financeiros.

De acordo com o The New York Times, o caso ajudou a expor que a administração do presidente Lyndon Johnson “mentiu sistematicamente, não apenas ao público, mas também ao Congresso” sobre seu papel na Guerra do Vietnã.

Na época, o Washington Post era um jornal local, familiar e que sofria de problemas econômicos – tendo, inclusive, que abrir seu capital em 1971, entrando para a bolsa de valores. Katharine vivia uma posição desconfortável, cercada de conselheiros, todos homens, que sempre diziam a ela o que ela deveria fazer. 
A mudança do seu comportamento durante os acontecimentos merece atenção especial: ela passa de uma mulher que não tinha responsabilidades com o conteúdo editorial do Post para alguém que precisa responder sobre tudo – sem que os outros acreditem que ela é capaz de tanto. Em determinado momento, em um jantar de relacionamento com autoridades da Casa Branca, todas as mulheres, inclusive Katharine, levantam-se da mesa quando os homens começam a falar sobre política. Numa sala reservada, acabam tratando sobre os assuntos relacionados ao caderno feminino – como o casamento de Tricia Nixon, filha do presidente Nixon. 

Ela também não entendia exatamente como era o relacionamento dos jornalistas com as fontes (pessoas de confiança que passam informações aos repórteres) e nem como ser firme em algumas situações, mesmo sabendo que isso não fosse agradar autoridades. “É difícil dizer não ao presidente”, diz, em uma das cenas. 

O motor da mudança toda é o jornalismo e suas possibilidades. A sensibilidade e o papel social. Quando pensa que o seu filho foi mandado para o Vietnã, assim como outros muitos jovens foram jogados à sorte, mesmo quando o governo não acreditava em qualquer chance de vitória, a sensibilidade traz à tona o jornalismo: “informar e proteger a sociedade por meio da vigilância e da liberdade de imprensa”. Ela foi a primeira mulher americana a assumir um alto cargo em um jornal de grande circulação. 

Estreia internacional

Spielberg, e Hanks compareceram à pré-estreia de The Post no museu dedicado ao jornalismo, o Newseum, que fica a poucas quadras da Casa Branca, na avenida Pennsylvania, em Washington.

Mesmo com a ausência de Donald Trump, o evento girou em torno do presidente americano, que desde antes de sua eleição lidera uma campanha contra a imprensa, por considerá-la injusta com ele. Trump tem sido particularmente mordaz com a CNN e o New York Times e atacou repetidamente o Post, que acusou de “desonesto, mentiroso” e, seus termos favoritos, de publicar fake news.

Para a revista New Yorker, “The Post não é um filme de época. Enfrenta diretamente o dia de hoje, lutando pela urgência de um manchete”. Além de ser dirigido por Spielberg, o filme foi escrito por Josh Singer, produtor e roteirista de outro longa centrado no jornalismo, Spotlight: Segredos Revelados, e Liz Hannah.

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