Mostra relembra carreira do cineasta Sylvio Back, curitibano de coração

“Eu sempre investi no dissenso. Meu cinema é anti-utópica e se há um traço que dá coerência à minha obra é esta angústia em contar a história por todos os lados”, avalia ao cineasta Sylvio Back ao olhar a sua carreira em retrospectiva.
No ano em que completou 80 anos de idade, Back está recebendo uma grande homenagem com a exibição de seus 12 longas-metragens na Mostra Sylvio Back 8.0 – Filmes Noutra Margem. A programação completa pode ser encontrada aqui. De Curitiba amostra segue para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde será exibida na Cinemateca Brasileira.
A mostra que já passou por Santa Catarina e Rio Grande do Sul, foi aberta no dia 3 de outubro fica em cartaz por duas semanas (até o dia 15 de outubro) na Cinemateca de Curitiba.
Autora de uma tese sobre a obra de Back, Rosane Kaminski é uma das organizadoras da mostra. De acordo com a pesquisadora, a trajetória cinematográfica de Back é marcada pela constante participação em questões políticas, estéticas e sociais. Seus filmes apresentam uma postura crítica, questionadora e provocativa.
“Hoje, num contexto de crise e desilusões política, vale a pena assistir aos filmes de Back e tentar pensar com a própria cabeça, ao invés de esperar respostas para os nossos problemas, muitos dos quais cristalizados em valores que negamos revisitar. Seus filmes não apontam soluções, mas levantam questões”, afirma Rosane.

Cena de Lance Maior, o filme que lançou Sylvio Back e mostra images icônicas de Curitiba.
Nascido em Blumenau, mas radicado em Curitiba, a carreira de Back como diretor de longas-metragens foi iniciada em 1968 com o hoje clássico “Lance Maior”. O filme mostra o triângulo amoroso, entre os jovens Reginaldo Farias, Regina Duarte e Irene Stefânia tendo como cenário Curitiba e Antonina, fotografadas em preto e branco. As locações no prédio da Reitoria, na piscina do Country Club ou na praça 29 de março são imagens icônicas do cinema de Back.
Cinema contra a corrente
“Esta mostra é uma homenagem a todos as pessoas que me ajudaram a construir a minha obra. Hoje olhando para trás só posso dizer que meus filmes são melhores que eu”, observa Back.
A sequência de sua carreira mostrou um cineasta preocupado com outros temas. Em longas de ficção como Aleluia, Gretchen (1976) e A Guerra dos Pelados (1971) ou nos “docudramas”, (como prefere chamar) Yndio do Brasil (1995), ou Contestado – Restos Mortais (2010), Back mira uma lente iconoclasta na história do país, na questão do imigrante num espaço hostil a sua presença e na guerra. Sua visão de história e de cinema diferem demais do cinema reverente que se faz no pais hoje em dia, em sua opinião.
“No cinema brasileiro atual todo mundo virou santo. As biografias hoje mostram as personagens amputadas. Os grandes homens são feitos pelo conjunto de suas mentiras e verdades”.
Na maior parte de seus filmes, ficção e realidade se misturam. Para Back, um documentário não pode levar o espectador pela mão. “Acabei aprendendo que não são apenas os vencedores que reescrevem a história. Os Vencidos também querem perpetuar a sua versão. Sinto enorme prazer em deixar a plateia órfã, sem corrimão de qualquer natureza política, ideológica ou moral”.
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