Aos 95 anos, sambista Riachão faz três shows em Curitiba

“O samba nasceu na Bahia porque o Brasil nasceu na Bahia”, disse Riachão. Por telefone, de Salvador, o sambista que faz uma temporada de três shows com o grupo Os Bambas de Sampa, entre os dias 9 e 10, na Caixa Cultural, falou com o Guia Gazeta do Povo e fez questão de dar a sua opinião a respeito da polêmica origem do gênero. Os dois têm quase a mesma idade.
“Com certeza o samba nasceu aqui na forma do samba de chula (gênero do recôncavo baiano tido como precursor do samba de hoje), trazido pelos africanos escravizados. O samba é a coisa mais bonita que existe no Brasil. É o jeito que Deus escolheu pra falar com a gente”.
Riachão nasceu com o nome de Clementino Rodrigues, em 1921. Cantor, compositor e ator, é natural de uma Salvador quase rural, mais precisamente da rua Língua de Vaca, no bairro de Fazenda Garcia. Era um mundo muito diferente. O primeiro samba, “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, tinha sido lançado em disco apenas quatro anos antes. O presidente do Brasil era Epitácio Pessoa. Albert Einstein acabara de ganhar o prêmio Nobel de Física por sua teoria da relatividade e o cinema falado só seria lançado seis anos depois, um ano antes da descoberta da penicilina.
Riachão viu e cantou um século inteiro. E não tem dúvida sobre o que é mais importante. “A mulher para mim é a maior felicidade. É por isso que eu canto até hoje. Dediquei a minha vida às mulheres”.
Riachão fez parte de uma geração de grandes sambistas baianos, ao lado de Batatinha, Nélson Rufino, Roque Ferreira e outros. Virou cantor profissional aos 23, (ou seja em 1943). Em paralelo, trabalhou como alfaiate, contínuo de banco, vendedor de cachorro-quente e, por 20 anos, trabalhou na Rádio Sociedade da Bahia.
O apelido lhe foi dado quando era adolescente e brigão: "Eu fazia uma pose de brigão e ganhei a fama de Riachão, que é como os baianos chamam gente encrenqueira". A carreira decolou na década de 1950, quando Jacson do Pandeiro, um dos primeiro astros nacionais nordestinos, gravou várias de suas músicas, como "Meu Patrão" e "Saia".
Como vários artistas de sua geração, Riachão só lançou seu primeiro disco solo muito tarde, no ano de 1973, quando ainda trabalhava como office-boy do Banco de Desenvolvimento do Estado da Bahia (Desenbanco) que, aliás patrocinou o álbum, "Sonho de malandro". Cronista do cotidiano, neste disco, no samba "Eu também Quero", o compositor relata o aparecimento do tíquete-refeição: "Essa turma que trabalha muito cedo, vem a fome que faz medo e faz a barriga roncar. Vai no caixa compra tique, pega tique, leva o tique, dá o tique para poder almoçar".
Caetano Veloso e Gilberto Gil não cansam de declarar que Riachão é uma influencia maior. A dupla gravou seu maior sucesso, “Cada Macaco no Seu Galho” no álbum Tropicália II (1993).
“Curitiba é uma cidade de gente boa e eu conheci um pessoal do samba da pesada por aí. Que Deus abençoe todos que vão cantar comigo nestes shows”, disse Riachão.
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