Cinema

Deadpool 2 tem falta de coragem de se assumir bobo

·6 min de leitura·Luiz Gustavo Vilela, especial para a Gazeta do Povo
Deadpool 2 tem falta de coragem de se assumir bobo

O espectador desavisado que vê a continuação de Deadpool (2016) chegar aos cinemas pode não ter dimensão do desafio que foi fazer o primeiro para a Fox, estúdio detentor dos direitos do personagem-título que, nos quadrinhos, pertence ao Universo Marvel. Para ser uma adaptação minimamente fidedigna era preciso manter o espírito anárquico, a meta-narrativa, as situações sexuais e a violência explícita presentes no material original. Com a censura alta, o público infantil e adolescente fica impedido de ver o filme. Ou seja, estão de fora boa parte de quem tem interesse genuíno em ir ao cinema e comprar brinquedos relacionados, o que garante as férias extravagantes dos executivos do estúdio. Para se ter uma ideia, mesmo o relativamente adulto Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) precisou garantir censura 13 anos para ser viável financeiramente.

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Apesar de todos os sinais vermelhos, o primeiro Deadpool foi um grande sucesso. A cultura voltada para filmes de super-heróis estava solidificada o suficiente para abraçar um filme de ação que era, a um só tempo, paródia e versão hipertrofiada de si mesma. O orçamento de US$ 58 milhões, enxuto para o gênero, garantiu ainda mais liberdade criativa. Violência explícita, palavrões, sexualidade fluida e muita ‘tiração de sarro’ com os clichês adolescentes e dos filmes de super-herói, honrando os quadrinhos, foram os verdadeiros recheios da produção. O resultado é impressionante: quase 800 milhões de dólares em bilheteria, se tornando a mais rentável produção proibida para menores e garantindo a aprovação praticamente instantânea de uma continuação.

Brigas e morte
Não demorou para os problemas aparecerem, porém. Começando pela saída de Tim Miller, diretor do original, motivada com uma briga com Reynolds, também produtor dos filmes e creditado como roteirista deste segundo (quem o acompanha no Twitter consegue reconhecer seu estilo em muitas das tiradas do anti-herói). Segundo rumores, o primeiro buscava manter o espírito anárquico do original ao manter a história pequena e direto ao ponto. O ator, por outro lado, queria aumentar a escala, sucumbindo à pressão do estúdio, que costuma pensar que grande produção equivale a grande bilheteria, ao contrário do que a realidade objetiva teima em demonstrar. O segundo problema, mais sério, foi a morte da dublê Joi Harris durante as filmagens, gerando sérias discussões sobre como a produção estava sendo tocada – incluindo aí o despreparo sistêmico de dublês mulheres no calor do movimento #MeToo.

Quem assumiu o comando da continuação foi David Leitch, ex-dublê e co-diretor não-creditado de De Volta ao Jogo (John Wick, 2014) e diretor de Atômica (Atomic Blond, 2017), dois dos filmes de ação mais inventivos do cinema recente. Para interpretar o antagonista, Cable, conseguiram Josh Brolin, ator normalmente compromissado que está em um período particularmente inspirado da carreira. Se isso ainda não for o bastante, Reynolds estaria ali para segurar o filme com seu carisma e tempo afinado de humor. Apesar dos solavancos da produção, a perspectiva era de uma continuação interessante, ao expandir a reflexão sobre cinema de super-heróis do primeiro colocando em perspectiva a lógica dos grandes grupos, das sequências decepcionantes e das franquias.

Falta de reflexão
Não foi o que aconteceu. Deadpool 2 traz do primeiro filme a meta-narrativa, fazendo o próprio mercenário comentar com o público o que está acontecendo no filme, recurso conhecido como quebra da quarta parede. Se em Deadpool isso funciona como crítica, ao apontar a caretice e infantilidade do cinema de super-heróis – dimensão encarnada por Colossus (Stefan Kapicic, voz) – e imediatamente depois colidir com subversão e humor, na continuação ela serve apenas para disfarçar sua incapacidade de refletir sobre si mesmo. O roteiro aponta o cliché, mas, ao invés de perverte-lo, o reforça.

Um exemplo que não estraga nenhuma surpresa. Durante o clímax, no início da dramática batalha final, Deadpool lança a piada: "lá vem a luta de computação gráfica" (cito de cabeça), seguido de dois personagens gerados por computador se enfrentando e nada mais. Ao evitar fazer qualquer outra coisa diferente dos outros filmes de super-heróis, a quebra da quarta parede perde sua força subversiva e se torna apenas paternalista junto a audiência. O filme toma o público pela mão como se juntos celebrassem um conhecimento sobre a cultura pop que na verdade não existe, foi implantado ali. Não é diferente do que Woody Allen fez com os ícones literários em Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011) e considerando que este é seu maior sucesso de bilheteria, talvez a estratégia seja acertada.

À falta de reflexão soma-se a falta de coragem de se assumir bobo. No primeiro, Deadpool quer reverter os efeitos colaterais de seu poder mutante recém-adquirido: o fator de cura que lhe livra do câncer terminal o deixou deformado e ele teme não ser mais aceito por sua namorada Vanessa (Morena Baccarin). É uma motivação leviana e divertida, adequada a um personagem leviano e divertido. Agora, na continuação, ele embarca em uma missão para salvar um jovem mutante (Julian Dennison) que é perseguido por Cable. Sua motivação é um misto de sentimento de culpa com responsabilidade que vai aos poucos tornando-o irreconhecível. É clichê pelo clichê.

A opção pelo melodrama (um solitário abrutalhado que busca redenção ao se tornar figura paterna de um jovem problemático é melodrama puro) como condutor dramático afeta tanto o desenvolvimento do personagem quanto o ritmo do filme. Este é um gênero que exige lentidão para assentar bem, o que incomoda, arrastando o que deveria ser, de outro modo, uma narrativa fluida e frenética, rápida o suficiente para que não fosse possível perceber suas fragilidades gritantes (antes de chegar em casa, pelo menos). O problema, claro, não é o gênero. Taika Waititi contou uma história bem parecida de forma brilhante em A incrível História de Rick Baker (Hunt for the Wilderpeople, 2016), filme coincidentemente ou não estrelado pelo mesmo Dennison.

Acertos
Não quer dizer, porém, que o Deadpool 2 seja um desperdício completo. Não só algumas (raras) piadas alcançam um certo nível subversivo – como a participação especial de uma certa equipe de mutantes – como as sequências de ação são divertidas e bem elaboradas. Nada com o nível de expressão poética de uma batalha corporal iluminada por uma projeção de Stalker (1979), clássico de Andrei Tarkovski, ao fundo, como mostrado por Leitch no já citado Atômica. Ainda assim, o fator de cura praticamente ilimitado de Deadpool e as armas futuristas de Cable são usadas com bastante inventividade pelo diretor em cenas bem divertidas.

Neste quesito quem rouba a cena é Zazie Beetz, que vive Domino. Seu poder mutante é a sorte – ou, de forma mais articulada, ela é capaz de dobrar os campos de probabilidade à seu favor. O charme da atriz combinado com a habilidade de Leitch com cenas de ação bastante cinéticas produzem juntos uma das mais divertidas sequências do filme, em que ela atravessa de forma leve e suave uma zona de guerra em que o caos ao seu redor simplesmente lhe favorece. Pense em uma daquelas sequências de morte de Premonição (Final Destination, 2000), só que ao contrário. É brilhante e, se tivermos a sorte de Domino, veremos mais disso na inevitável continuação.

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