Pista radical no Prado Velho é a 'Disney' para os amantes de moto

O sábado de sol rachando judiou da 883, um modelo mais leve da icônica Harley-Davidson, do empresário Paulo Furtado, quando estive pela primeira vez na Usina 5. Depois de uma meia dúzia de voltas na pista ovalada de terra montada no espaço do Prado Velho, mal dava pra reconhecer a cor original de qualquer parte que fosse da máquina. O marrom tomava conta de cada detalhe, dando um tom muito mais interessante à bike, mas um desfalque no bolso de seu proprietário. “Essa brincadeira vai custar uns R$ 100 só em lavagem”, brinco. “Mas lugar de moto é mesmo no barro”, responde o motociclista. E, a julgar pelo sorriso, aquela ali é sua Disneylândia.
Furtado é mais um dos frequentadores de um point relativamente recente para curitibanos que gostam de cultura motociclística: o Circuito: Lama, Chope e Brasa. Não é um bar, mas também não só uma pista de moto. É quase um templo. Ou “um resgate histórico dos apaixonados pelo motociclismo”, como filosofa seu idealizador, Cezinha Mocelin – que comanda outros eventos importantes de moto na cidade, incluindo o Brasil Motorcycle Show. De forma prática, é um espaço fixo, aberto duas vezes por semana, onde há food trucks, cervejas artesanais, costela fogo de chão e muito escape barulhento. O principal ali, claro, é queimar gasolina no escorregadio (sobretudo quando chove) traçado de terra – uma modalidade de motociclismo chamada de dirty track ou flat track.
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Todas as terças e sábados, motociclistas corajosos jogam suas bikes nas curvas de terra e saibro, torcendo para evitar os tombos, em competições ou voltinhas descompromissadas.
Ninguém sabe exatamente porque a brincadeira, nascida ainda nos anos 1920, voltou à moda. Mas é uma tendência em países onde as motos são cultuadas, como Estados Unidos, Inglaterra e, agora, Brasil. O fato é que quando figurões do motociclismo, como o catalão Marc Márquez (que rivaliza com Valentino Rossi o posto de grande piloto dos últimos anos), começaram a participar de provas televisionadas de dirty track, o negócio subiu algumas cilindradas em popularidade. Hoje estas provas atraem muito mais público e movimentam um mercado em ebulição: o de customização de motos. Afinal, para colocar essas máquinas na terra, é preciso algumas modificações de potência e suspensão.
O Circuito: Lama, Chope e Brasa surgiu nesse contexto. “A história começa com o Wall of Death, uma espécie de globo da morte. Fui para os Estados Unidos porque e tinha ouvido falar dele. Nas minhas pesquisas, descobri que antes do Wall existia o dirty track”, conta. No início do século passado, os pioneiros no motociclismo testavam suas bikes em pistas lamacentas e que exigiam habilidade. Ao voltar para o Brasil, conheceu um evento de dirty track esporádico organizado por um entusiasta de Harleys em Sorocaba. “Por ele ter sido o pioneiro, pedi ‘autorização’ para montar uma pista fixa em Curitiba”, diz Mocelin. No ano passado, o traçado de terra e saibro estava montado.
Mocelin então passou a convidar os amigos motociclistas – gente como o customizador Celio Dobrucki – para brincarem no track. Um foi chamando outro e, quando percebeu, já era algo grande demais para não profissionalizar. A pista foi aberta ao público em fevereiro. Hoje, os motociclistas podem formar equipes para competirem aos sábados, com os treinos livres nas terças. “Na terça ele conhece a pista e no sábado é para valer”, conta. No intervalos, comem um hambúrguer ou uma costela e escutam as bandas que eventualmente tocam por ali. Estas equipes pagam uma taxa, para a manutenção do local, levam suas próprias motos e fazem o que deve ser feito. “Nos dias de competição fazemos várias baterias com 3, 4 motos. Os primeiros colocados – quem chegar na frente nas 12 a 15 voltas, dependendo da fase – vão avançando”, explica.
Mocelin faz questão de deixar claro que a dirty track brasileira não segue uma regra fixa das competições norte-americanas. É muito mais uma adaptação para um esporte que engatinha no Brasil. As equipes formadas pagam cerca de R$ 300 por mês e ganham direito a um espaço, uma espécie de box, nos dias de competição. Quatro já estão fixas nos eventos. Mas o Lama, Chope e Brasa aceita mais: basta juntar os amigos e se inscrever.
Claro, não é preciso tanta dedicação ao esporte para aproveitar o local. Não competidores também podem cruzar a linha que divide a área de chope da área de barro. Nos intervalos entre as baterias, entram motociclistas comuns, que querem apenas saber como é pilotar em condições adversas – e, convenhamos, mais divertidas. Esses não pagam nada. “Damos preferência às Harleys, mas podem entrar Tryumphs, Ducatis, Royal Essenfelders”, indica. A única exigência é que sejam motos originais, não modificadas.
E eles vão. Por sábado, o espaço recebe até 450 pessoas, garante o idealizador. É o sinal da força de um público que cada vez mais molda o perfil curitibano. “A cidade sempre foi muito forte na comercialização de motos. E, agora, com essas iniciativas, vejo que estamos perto de São Paulo em termos de cultura motociclística”, comemora Mocelin. Ali, o espírito não é de liberdade. É de festa.
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