Com visual incrementado, 'PéPequeno' fisga públicos de todas as idades

"A ignorância é uma benção." Difícil imaginar como uma frase desse tipo cabe dentro de uma animação infantil. Mas PéPequeno, a nova produção dos estúdios Warner Bros, resolve a equação com uma trama, de fato, voltada para a família inteira.
Em tempos de computação gráfica, uma equipe competente e endinheirada consegue dar conta do visual incrementado. Está cheio de desenho bonitinho por aí. O grande desafio é conciliar a tecnologia com uma história elaborada, cheia de camadas e nuances.
Ambientado entre a neve e o gelo do Himalaia, o filme de Karey Kirkpatrick — diretor de Os Sem-Floresta (2006) e roteirista do cativante A Fuga das Galinhas (2000) — traz quadros de encher os olhos, personagens extremamente carismáticos e uma narrativa capaz de fisgar públicos de todas as idades.
Um show de cores, luzes e músicas, somado a sequências de ação no melhor estilo Looney Tunes, se encarrega de entreter a criançada. Por trás desse monte de estímulos, porém, camuflam-se referências bastante pertinentes e atuais sobre nossa sociedade.
A começar por uma inversão de perspectiva que sugere reflexões interessantes relacionadas à percepção do outro, aceitação, respeito, tolerância, medo e poder da informação.
No alto das montanhas, acima das nuvens, uma comunidade de Yetis vive sem temer grandes ameaças. Peludas, enormes e donas de pés gigantescos, essas criaturas "abomináveis das neves" têm suas próprias leis e crenças, devidamente registradas nas pedras fundamentais.
Mas, quando Migo retorna ao vilarejo afirmando que o temido Pé Pequeno (mais conhecidos como homem) existe mesmo —não é apenas uma lenda—, o furdunço se instala, para a indignação do líder Guardião das Pedras.
A chegada do apresentador decadente Percy Patterson ao topo do Himalaia provoca um choque divertido de civilizações, entretanto, coloca em xeque todo o sistema de crenças — e a própria segurança — dos Yetis.
Então, Migo (uma versão esbranquiçada do Sulley, de Monstros S.A.) descobre que saber a verdade nem sempre é fácil e que implica na tomada de decisões complicadas. Afundado em tal cenário, o grandalhão dispara a frase que abre o presente texto: "A ignorância é uma benção".
Com essas e outras boas sacadas, PéPequeno usa a fartura de recursos oferecidos pela computação gráfica para contar uma história sofisticada e atraente, numa pegada muito parecida à das badaladas animações da Pixar.
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