outros

Oswaldo Montenegro no Teatro Guaíra sábado, 13/08

·6 min de leitura·Patricia Mannarino
Oswaldo Montenegro

“Lembrei de Nós“, turnê de 2022, traz histórias e bate-papo com o músico Oswaldo Montenegro

Oswaldo Montenegro é um show à parte. O músico que surgiu no menino de sete anos permanece ávido e inquieto aos 66 anos. Do apartamento pintado do piso ao teto – incluindo eletrodomésticos – como uma grande tela setentista, Oswaldo desperta curiosidade.

Em Lembrei de Nós, além de canções de sucesso como“Lua e Flor”, “Bandolins”, “A Lista”, “Estrelas”, “Estrada Nova” e tantas outras, novas músicas serão apresentadas, como “Não há Segredo Nenhum” e “Vento Futuro” . Mas, mais do que isso, o que desperta a vontade de comparecer ao espetáculo é conhecer as histórias que Oswaldo conta sobre sua vida – tão criativa e peculiar.

Um bate-papo musical

Batendo papo com o público, atendendo a seus pedidos e contando casos sobre sua longa trajetória, Oswaldo transforma o momento num encontro especial entre artista e plateia.

O show conta, como é constante nos trabalhos de Montenegro, com um time de virtuoses no palco: Madalena Salles na flauta e teclado, Sergio Chiavazzoli nos violões, guitarras e bandolins e Alexandre Meu Rei no baixo e nas guitarras. Músicos que acrescentam intimidade e emoção a esse projeto em que o menestrel conta histórias sem pretender conclusões sobre elas, preferindo, isso sim, perguntas, como em “A Lista” (“Faça uma lista de grandes amigos / Quem você mais via há dez anos atrás / Quantos você ainda vê todo dia? / Quantos você já não encontra mais?”).

Oswaldo nasceu na zona norte do Rio de Janeiro, no Grajaú, em 1956. Aos 7 anos sua família partiu para Minas Gerais – em São João Del Rey – onde o artista passou boa parte da infância e foi influenciado pela vocação seresteira da cidade.

Aos 13 volta ao Rio onde venceu seu primeiro festival, com a “Canção Pra Ninar Irmã Pequena”, música que mais tarde gravaria na trilha do vídeo “O Vale Encantado”, com o título “Canção Pra Ninar Gente Pequena”. Em 1971, mudou-se com a família para Brasília, cidade que viria a adotar e que é tema constante em sua obra. Foi nessa cidade que Oswaldo conheceu e manteve estreito contato com a família Prista Tavares, da qual fazia parte o Maestro Otávio Maul. Essa foi uma influência decisiva. 

Um artista que se declara Incapaz e superdotado

Ao saber da apresentação de Oswaldo Montenegro, imediatamente lembrei da história de seu apartamento na Zona Sul do RJ – simplesmente porque (ao menos nas fotografias) – é um local extremamente inquietante e, eu poderia mesmo dizer, irritantemente pintado com cores saturadas que parece testar a sanidade mental de qualquer um.

oswaldo montenegro
Apartamento do artista no Leblon | Crédito: Daniela Decorso/ag istoé

Para isso, recorri a uma entrevista de Oswaldo Montenegro à Revista Isto É em 2009. Além das incômodas paredes, o artista revela-se “retardado mental”:

“Na verdade, eu sou retardado mental. Esse veredicto foi dado por uma junta de oito psicólogos. Sou considerado incapaz para algumas coisas e superdotado para outras, mas não tenho a camada intermediária. Não conheço o aprendizado.”

Retardado mental – Superdotado e Camada Intermediária

Um curto parágrafo da entrevista de 2009 que estancou qualquer possibilidade de raciocínio sobre Oswaldo. Retardo Mental. Superdotado. Camada intermediária. Que mix é esse? Por Pascoal Zani (@psicologopascoalzani)

Em primeiro lugar, o retardo mental

De acordo com Pascoal, a expressão retardado mental é muito antiga. Atualmente se diz pessoa com deficiência ou pessoa com alguma síndrome.

Expressão antiga, sim. De acordo com a Associação Americana de Deficiência Mental, a nomenclatura foi atualizada em 1992. Ou seja, em 2009, o músico ou pelo menos a revista deveria ter aberto “aspas” para lembrar ao leitor que não é assim que se fala.

Um dos muitos documentos sobre TERMINOLOGIA SOBRE DEFICIÊNCIA NA ERA DA INCLUSÃO, de Romeu Sassaki da Universidade Federal de Goiânia, descreve que tal definição (entre outras) foi atualizada em 1992 pela Associação Americana de Deficiência Mental, que “considera pejorativo os termos retardado mental, pessoa com retardo mental e portador de retardamento mental“. Por isso, conversei com o psicólogo Pascoal Zani.

Em segundo e não menos importante, a questão do hiper foco

“O Superdotado ou a pessoa com Altas Habilidades pode entrar muitas vezes em hiperfoco e desenvolver uma tarefa ou estudar durante longo tempo, quando está espontaneamente motivado a respeito.”

No caso do Oswaldo Montenegro, digamos que ele tenha um hiper foco para desenvolver uma música de extrema qualidade, o que pode não acontecer em outras áreas em que o artista possa vir a se sentir disperso. Pascoal citou o caso de pessoas com QI’s altíssimos e que conseguem desenvolver habilidade social e familiar harmoniosa. Porém, antes de atingir este equilíbrio, quase sempre há muito desgaste e sofrimento no círculo próximo.

Entretanto, o hiper foco geralmente tem um preço, e é justamente a dissociação da habilidade social – algo que Oswaldo Montenegro parece passar bem ao largo”.

E, por último, a Camada intermediária

Para Pascoal, “camada intermediária” é algo nebuloso em se falar, já que remete à estrutura anatômica cerebral, tal como córtex e sistema límbico. Mesmo porque atualmente não se diz que uma pessoa é mais inteligente em uma área que em outra. Hoje em dia, portanto, não há mais o que poderíamos chamar de competitividade interna (e isso me fez lembrar quando os pais diziam: meu filho é bom em matemática e péssimo em português).

Como desenvolver sua inteligência emocional? Confira aqui outras matérias de Pascoal Zani

Caos ordenado

Na mesma entrevista, Oswaldo define seu habitat como “caótico” e conta que levou aproximadamente seis anos para pintar tudo – inclusive eletrodomésticos e o cabo de conexão da TV por assinatura.

Pinto cantando, dançando, gritando, pulando…Porque gosto do caos... isso significa o desquite da realidade, da qual tenho pânico. Porque a vida fora da arte fica  insuportável. E é minha única chance de não ir para o hospício.” 

Para o artista Luiz Gustavo Vidal (@lgvidal) há música na arte de Oswaldo. “Impregnada do estilo setentista, Vidal define a sala de Oswaldo como uma chuva de cores com composição, lirismo e tem até som. Na verdade são gestos com som“.

Embora tenha se passado algum tempo desde essa entrevista, Oswaldo ainda mora no mesmo lugar. Muito mais que um desvario passageiro, isso prova que Oswaldo, ao contrário do “maluco beleza” que se auto intitula, é dono de uma sanidade ímpar. Caso contrário, que tipo de mente sobreviveria a estas paredes sem enlouquecer de fato?

Assinante Clube tem desconto na compra de ingresso para o show de Oswaldo Montenegro. Acesse aqui e confira.

Curitiba sai mais barata com o Clube

Centenas de parceiros na cidade, do restaurante ao cinema. O desconto é usado direto pelo app.

Assinar o Clube Gazeta
P
Patricia Mannarino
O amigo que sempre sabe o lugar bom em Curitiba.
Assine o Clube Gazeta
descontos na cidade inteira
Assinar