Feijoada: o que é fato e o que é fake? Descubra aqui!

Tanto quanto samba e carnaval, a tradicional feijoada remete automaticamente ao Brasil. Prato típico e agregador, muitos atribuem sua origem aos escravos africanos, justificando a miscelânia de carnes ao aproveitamento de despojos vindos da Casa Grande. Entretanto, de acordo com o historiador e folclorista Câmara Cascudo (Natal, 1898 — Natal, 1986) , essa versão “romanceada” é incorreta.
Carlos Alberto Dória, diretor do Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas), diz que a ideia da feijoada como prato nacional seria consequência dos esforços dos modernistas para construir uma identidade nacional brasileira. A feijoada seria um dos signos da brasilidade, caracterizada pelo tema da antropofagia e da deglutição cultural que permeou a formação da nação brasileira.
Calma, ninguém disse que é tudo mentira, porém…
Historiadores e especialistas em culinária indicam que esse tipo de prato — que mistura carnes, legumes e verduras – é milenar. Segundo Câmara Cascudo, essas combinações remontam, possivelmente, à época do Império Romano.
A feijoada nos outros países
Pratos similares na cozinha latina seriam o cozido, em Portugal; o cassoulet, na França; paella, à base de arroz, na Espanha; e a casouela e o bollito misto, na Itália.

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Fato ou fake?
Evidências que tornam a feijoada um prato brasileiro:
O feijão preto é brasileiro? Fato!
Originário da América do Sul, sendo chamado pelos guaranis de comanda, comaná ou cumaná. Os cronistas dos primeiros anos de colonização já mencionam a iguaria na dieta indígena (indígena!) O viajante francês Jean de Léry e o cronista português Pero de Magalhães, no séc XVI, descrevem o feijão preto, assim como o seu uso pelos nativos.

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Mandioca na feijoada? Fato!
Os indígenas, aliás, tinham uma dieta variada e o feijão, como se sabe, nem era o seu alimento preferido. A mandioca sempre ocupou a dianteira em sua culinária, sendo adotada como componente básico da alimentação pelos africanos e europeus que vieram para o Brasil. Roças de feijão e mandioca eram plantadas em diversos locais, inclusive nos espaços domésticos, em torno das residências, principalmente das classes populares.
Carne de porco na feijoada? Fake!

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Os escravos também comiam mandioca e frutas, apesar da base do feijão. Mas há o problema da combinação de alimentos, também levantado por Câmara Cascudo na sua belíssima História da Alimentação no Brasil. Entre os africanos, aliás, havia muitos de origem muçulmana ou influenciados por esta cultura e, como se sabe, a carne de porco é proibida para os muçulmanos.
Curiosamente (e sem entrar em mais detalhes), as comidas ritualísticas do Candomblé, prática religiosa de matriz africana, também excluem a carne de porco em suas oferendas – o que comprova a versão romanceada do aproveitamento dos despojos de porco feita pelos escravos.
Feijoada ou Feijão Gordo?
Segundo Carlos Alberto Dória, a origem da feijoada estaria no “feijão gordo”, o ensopado de leguminosa acrescido de toucinho e carne seca. A feijoada seria esse “feijão gordo” enriquecido ao extremo, com linguiças, legumes, verduras e carnes de porco.

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Vale lembrar que as partes salgadas do porco, como orelha, pés, e rabo, nunca foram restos. Eram apreciados na Europa enquanto o alimento básico nas senzalas era uma mistura de feijão com farinha de mandioca.
E como surgiu esse mito?
Para Câmara Cascudo, a feijoada não é um simples prato, mas sim um cardápio inteiro
O famoso folclorista brasileiro indica que a feijoada, como a conhecemos, composta de feijão, carnes, hortaliças e legumes, seria uma combinação criada apenas no século XIX em restaurantes frequentados pela elite escravocrata do Brasil. Sua difusão teria se dado em hotéis e pensões, principalmente a partir do Rio de Janeiro.
A primeira feijoada
Mário de Andrade, em seu conhecido livro “Macunaíma”, de 1924, relata a cena da feijoada durante um festim na casa do fazendeiro Venceslau Pietro Pietra, no qual participou o anti-herói. De acordo com Dória, a cena seria uma alegoria da cozinha nacional e das diversas etnias que entraram em contato no Brasil.
A primeira menção à feijoada no Diário de Pernambuco data de 2 de março de 1827. Trata-se de um anúncio da Locanda da Águia D’Ouro, localizada na Rua das Cruzes. Uma “excelente feijoada à brasileira” seria servida às quintas-feiras por um preço cômodo.

Vinicius de Moraes também versou sobre a feijoada, em seu poema “Feijoada à Minha Moda”, retratando, ao final, a cena de difícil digestão do prato: Que prazer mais um corpo pede/ Após comido um tal feijão?/ — Evidentemente uma rede/ E um gato para passar a mão…
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Fontes:
Site Brasil escola por Tales Pinto, Mestre em História
Bibliografia: CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 2a edição. Belo Horizonte; São Paulo: Ed. Itatiaia; Ed. da USP, 1983 (2 vols.); DITADI, Carlos Augusto da Silva. “Feijoada completa”. in: Revista Gula. São Paulo, nº. 67, outubro de 1998; DÓRIA, Carlos Alberto. “Culinária e alta cultura no Brasil”. in: Novos Rumos. Ano 16, nº 3.
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