Estreia da semana: por que assistir a O Estranho Que Nós Amamos?

Impossível assistir a O Estranho Que Nós Amamos, o mais recente filme de Sofia Coppola, que estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas de Curitiba, sem compará-lo com a primeira versão da história, filmada em 1971 pelo cineasta Don Siegel.
O primeiro filme fez mais sucesso no circuito de festivais europeus do que no cinema comercial norte-americano. Hoje, porém, tem status de filme cult. Ambos partem do mesmo argumento, o romance homônimo (The Beguiled, no original em inglês) de Thomas P. Cullinan, publicado em 1966.
A história se passa durante o avanço ianque sobre o sul escravocrata na Guerra Civil americana. Um soldado do exército do norte (Colin Farrell) é encontrado ferido em um bosque e resgatado por um grupo de mulheres que vivem isoladas em um internato, em um casarão na Virginia. No primeiro filme, o papel é de Clint Eastwood, o que deixa esta regravação em desvantagem.
No filme que deu a Sofia Coppola o premio de melhor direção no 70º Festival de Cannes, a escola é comandada por Martha (Nicole Kidman) e lá vivem outra professora, Edwina (Kristen Dunst), e mais cinco alunas adolescentes.
O tédio e a desolação com a derrota iminente do Sul que tomam conta das personagens são perturbados com a presença do forasteiro até a explosão da tensão sexual latente entre os lados opostos.
O remake reabre, com novos poderosos argumentos, uma velha discussão sobre como o gênero do artista pode influir na produção de uma obra de arte. Siegel e Eastwood foram parceiros de longa data e ajudaram a forjar a estética máscula e dura do cinema americano da década de 1970. Basta dizer que a dupla fez o primeiro filme da série Dirty Harry (Perseguidor Implacável) no mesmo ano.
A narrativa de Siegel é forjada do ponto de vista do soldado. Há sangue, brutalidade, racismo, pedofilia e um clima politicamente incorreto entre os personagens de Clint e as mulheres frágeis ou histéricas que habitam o internato.
Ponto de vista feminino
Sofia inverte o foco da narrativa. A diretora dispensa os outros personagens masculinos (e as mulheres negras), junto com muitos dos conflitos que existem no filme anterior.
Com seu filtro de cores pastel, uma direção de arte notável com figurinos espetaculares e fotografia suave do sol vazando o bosque que circunda o casarão, ela muda o ponto de vista para o das mulheres, que ao fim se unem contra a presença opressiva do homem.
“Siegel fez seu filme do ponto de vista masculino de um cara cercado por mulheres loucas. Eu fiz sob a perspectiva dos desejos frustrados das mulheres”, disse Sofia em entrevista ao The New York Times.
Afinal, os dois filmes são sobre o horror da guerra que atinge da mesma forma ainda que o campo de batalha esteja longe. Mas ao transpor uma grande história de época ao paladar do nosso tempo, o filme de Sofia faz pensar sobre o quanto o mundo mudou nos últimos cinquenta anos.
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