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Novo filme de Polanski é tão perturbador quanto a biografia do diretor

·4 min de leitura·Bruna Covacci
Novo filme de Polanski é tão perturbador quanto a biografia do diretor

Conhecido por filmes como “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Pianista” (2002), o diretor polonês Roman Polanksi, 84 anos, tem histórias tão polêmicas e mal contadas como seus próprios filmes. É o caso de “Baseado em Fatos Reais”, longa que estreou no Brasil nesta quinta-feira (12). Ele foi a aposta do Festival de Cannes para ser o filme de encerramento da seleção oficial, extracompetição.

A trama aborda a relação obsessiva entre uma mulher e sua escritora favorita. A dinâmica que desenvolve entre Elle (Eva Green, de "O Lar das Crianças Peculiares") e a renomada autora Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner, "O Escafandro e a Borboleta") envolve sentimentos dúbios de fúria e amor, enquanto elas mesmas não sabem distinguir o que estão experimentando.

Inspirado no livro homônimo de Delphine De Vigan e com roteiro assinado por Olivier Assayas (Acima das Nuvens), o suspense leva o espectador a caminhar por uma linha tênue entre o delírio da personagem de Seigner e a realidade.

Delphine escreveu sobre memórias pessoais relacionadas à sua mãe e foi alçada ao seu único sucesso literário. As memórias, o abandono dos filhos e todas as consequências daquilo que escreveu estão deixando a autora exausta. Agora, ela vive uma crise criativa.

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A primeira e a última cena (sem spoilers!) são o retrato completo da relação: duas mulheres parecidas, com gostos semelhantes e até a mesma cor do fio do cabelo. Uma, com energia para dominar o mundo, a outra, sem saber onde está a sua razão de viver.

As diferenças são ressaltadas tanto pelo comportamento, quanto pela forma de agir e se vestir – Elle está sempre impecável, com batom vermelho e vestida de forma sedutora. Seu comportamento é um grande mistério. As duas, vez ou outra, parecem a mesma pessoa.

Há um momento em que a possível inversão de papéis sugere uma provável mudança na dinâmica de domínio da situação. No entanto, a fragilidade na condução da história destrói esse fôlego em dois tempos. Aqui, o roteiro é fraco e o filme se torna enfadonho.

A crise de Delphine é relacionada à sua estagnação e falta de vontade. Uma vida acomodada: sem Facebook, sem e-mails e uma relação com o jornalista literário que entrevista escritores que são referência para todos, como Ian McEwan, que deixa tudo confortável na sua rotina.

O marasmo da vida da autora é o mesmo do roteiro: a falta de ação deixa boa parte do filme previsível.



Aos fãs de Bowie

No filme, Delphine usa uma camiseta que é a capa do disco “Blackstar”, último lançado pelo cantor britânico David Bowie (1947 – 2016), dias antes da sua morte. No single do disco “Lazarus”, o cantor cantava: “I've got scars that can't be seen/I've got drama, can't be stolen/Everybody knows me now” (tenho cicatrizes que não podem ser vistas/ tenho o drama, não pode ser roubado, agora todo mundo me conhece; em tradução livre). A camiseta também é dividida pelas personagens e usada sempre em momentos em que ambas perdem o controle das emoções.

Polanski, um fugitivo

Polanski foi preso nos Estados Unidos em março de 1977, aos 43 anos, por ter drogado e estuprado a adolescente Samantha Geimer, então com 13 anos, após uma sessão de fotos na casa do ator Jack Nicholson em Los Angeles, para a revista Vogue.

Preso, foi acusado por cinco crimes diferentes, incluindo estupro, uso de drogas e ato lascivo sobre uma menor de 14 anos. Declarando-se inocente dos crimes, acabou fazendo um acordo judicial para ser processado apenas por um crime – o equivalente a estupro de vulnerável, quando o ato sexual é praticado contra uma vítima incapaz de consentir.

Na época Polanski ficou preso em uma penitenciária americana por 42 dias, quando foi liberado. A expectativa era que o cineasta obtivesse liberdade condicional, mas, antes de ouvir sua sentença, Polanski fugiu do país, fixando residência em Paris, na França. Desde então, tornou-se foragido dos Estados Unidos, nunca mais retornando àquele país e evitando visitar países que têm acordos de extradição com os EUA.

O processo envolvendo o crime cometido por Polanski tornou-se uma história controversa. Condenado à revelia, o cineasta buscou, ao longo dos anos, provar que houve ilegalidades cometidas por promotores e pelo juiz do caso.

Vida sanguinolenta

O diretor foi perseguido por nazistas na infância e perdeu a mãe em Auschwitz. Uma de suas esposas foi assassinada em um massacre amplamente noticiado na televisão. Numa noite, enviados pelo serial killer Charles Manson, Charles Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel tinham a missão de destruir a casa do músico Terry Melcher e matar todo mundo que estivesse lá. Mas a casa estava alugada por Polanski.

Polanski estava em Londres trabalhando em um filme, mas a casa não estava vazia. Sharon Tate, esposa de Polanski, Wojciech Frykowski, amigo do cineasta, Jay Sebring, amiga da atriz, e a cabeleireira Abigail Folger, estavam na residência. Todos foram levados para uma sala, amarrados e esfaqueados brutalmente.

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