Culto da ignorância venceu na política brasileira, diz escritora que vem a Curitiba

Márcia Tiburi fala de arte, livro, política e filosofia sem o menor pedantismo. Seu discurso limpo é uma ponte aberta que leva qualquer ouvinte a reflexões precisas sobre várias esferas do cotidiano. A boa notícia é que a escritora gaúcha, que é também professora, artista plástica e filósofa, vem a Curitiba no dia 16 participar do Litercultura, festival literário anual que, nesta edição, terá como temática a literatura hispano-americana.
Márcia é uma das cinco selecionadas para evento e debate a obra de Juan Rulfo. Conforme explica a convidada, o mexicano foi seu escolhido por ser o pai da literatura fantástica. "Não haveria Gabriel Garcia Marquez sem ele", argumenta. A escritora, que no ano passado lançou pela editora Record “Uma Fuga Perfeita é Sem Volta”, romance no qual aborda questões sociais, como o macmas hismo e a xenofobia, falará também sobre mulheres, fazendo uma abordagem de Juan Rulfo que perpasse questões de gênero.
Em entrevista à Gazeta do Povo, ela opina sobre as relações humanas, política e literatura.
A literatura latino-americana ocupa uma posição marginal na cena literária internacional?
Sim, se colocarmos essas categorias para análise: centro e marginalidade. Eu acho que estamos saindo do eurocentrismo com força. As teorias e práticas descoloniais estão em alta. A América de língua espanhola e portuguesa, vamos falar assim do Brasil, se liberta cada vez mais dos eurocentrismos e torna-se centro de si mesma.
Essa é uma tendência mundial, a de nos voltarmos para nós mesmos sem precisar de um “reconhecimento” da “mãe Europa”, ou coisa parecida e em contato com a África e outros territórios do vasto mundo. Um mundo que é muito maior do que o nosso padrão neoliberal globalizado de pensar permite ver. Em termos culturais, pelo menos eu tenho essa esperança de que estamos nos modificando para melhor no que concerne às nossas leituras. Em um futuro não tão distante, talvez possamos dizer o mesmo da economia e da política.
Seu livro "Como Conversar Com Um Fascista", aborda os danos do discurso de ódio nas redes sociais. Qual a melhor forma de identificar um embate raso camuflado em uma postura autoritária?
Isso é complicado, pois estamos em épocas de camuflagem mesmo. Somos otários e cínicos ao mesmo tempo em um jogo bastante pérfido no qual a inteligência e a sensibilidade estão em baixa. Em “Como Conversar…” eu percebi que o discurso de ódio tinha se tornado um capital nas redes, mas não só.
Políticos se valem dele há muito tempo e conquistam votos. O livro “Ridículo Político” vai na sequência, demonstrando os efeitos do autoritarismo na produção de uma estética e de uma forma bizarra de fazer política a partir de inversões, tais como essa nova forma de se capitalizar politicamente por meio de um recurso estético que é o ridículo.
O descrédito ao qual chegou a política brasileira também está entre os temas centrais de "Ridículo Político". Como é possível vencer a despolitização generalizada no Brasil para que o governo volte a ser levado a sério?
Não é possível em um sentido imediato. Nesse estágio atual em que o culto da ignorância venceu, perdeu-se o discernimento, a capacidade compreender, de sentir e de bem julgar. Há todo um caminho que precisa ser trilhado entre a cultura e a educação. Se antes tudo já era péssimo em termos de Brasil, agora se tornou insuportável.
E nos encaminhamos para o pior. As instituições, como a escola e a arte estão em baixa no contexto da economia política e ideológica neoliberal. Então, não é possível “vencer”. É possível, no entanto, resistir. Arte, cultura, literatura, diálogos, debates, midialivrismo, movimentos sociais e um pouco de otimismo prático para quem é de luta, são essenciais.
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