Cinema

Após 38 anos, primeira locadora de Curitiba fecha as portas e encerra era do cinema em casa

·4 min de leitura·Sandro Moser
Após 38 anos, primeira locadora de Curitiba fecha as portas e encerra era do cinema em casa

O pôster de Marlon Brando, no papel de Kowalski, no filme Uma Rua Chamada Pecado (1951) ficava logo na entrada como se fosse um leão de chácara da locadora Video 1, a mais longeva locadora de vídeo da América Latina que fechou suas portas nesta quinta (31), em Curitiba.  

Houve um tempo em que se conseguia encontrar praticamente toda a filmografia de Brando nas prateleiras brancas da loja do número 456, da Rua Padre Anchieta.

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Na última tarde de funcionamento da locadora aberta em maio de 1980, a maior parte das prateleiras estava vazia. Poucos clientes escolhiam filmes para comprar como souvenir da loja entre a parte que sobrou do acervo que chegou a ter 34 mil filmes.

Quando o empresário Luiz Fernando Ribas anunciou no início deste mês que fecharia as portas no dia 31, o acervo foi todo posto à venda em preços que vão de R$ 4 a 50.  A maior parte do acervo foi vendida para clientes fiéis, colecionadores que compraram grandes lotes e para a videoteca do Clube Curitibano. As vendas vão servir para “dar um respiro” nas despesas de enceramento da empresa, disse Ribas.

Depois do fechamento da loja, ainda será possível comprar filmes, pelo telefone da loja enquanto os funcionários desmontam a estrutura no belo casarão das Mercês.

O fim da primeira e mais importante locadora da cidade significa simbolicamente o fim da era do cinema em casa. Com a ressalva que ainda existem dezenas de locadoras na cidade e que a maior concorrente da Video 1, a Cartoon, siga firme e forte no Cabral.

A tendência, porém é inescapável e reflete uma mudança de comportamento na vida das famílias brasileiras. “Não foi apenas a facilidade tecnológica do streaming. Percebemos que não existe mais aquela coisa ritualística de consumir um filme como uma obra de arte. Aquela coisa de parar para ver um filme”, reflete Ribas.

Aos 55 anos, ele trabalha desde os 17 no ramo e viu todas as transformações deste mercado até seu exaurimento. “Houve um tempo em que o cinema em casa incomodou o cinema que teve que se render”.  

Foi seu pai, o jornalista Luiz Renato Ribas um dos primeiros empresários a perceber o potencial. Turfista “puro-sangue” ele apostou neste cavalo vencedor em 1980 quando reuniu duas dezenas de amigos cinéfilos – entre eles o jornalista Aramis Millarch, o dentista e cineasta Harry Luhm entre outros notáveis da politica e da economia local e montou um vídeo clube.

Era um clube mesmo. Cada associado pagava uma joia, uma mensalidade e doava um número de filmes.  O clube logo se transformou numa empresa comercial num tempo em que a indústria nacional não fabricava videocassetes e era quase impossível importá-los (os que havia na praça vinham descaminhados em malas do exterior).

O setor passou por várias fases. A primeira foi a da pirataria. Os filmes copiados chegavam as prateleiras seis meses antes de passarem nos cinemas. Luiz Fernando tinha uma coleção de 700 filmes e shows raros que eram a joia da coroa da filias que a família montou no Alto da Gloria.

Foi nesta época, que a Video 1, na figura de seu fundador Luiz Renato Ribas, liderou um movimento nacional pela legalização do setor que levou aos selos da Embrafilme para as poucas fitas originais que havia no mercado.

Ribas correu o país tentando conscientizar os empresários do setor a operar na legalidade, o que lhe rendeu algumas inimizades. “Meu pai foi talvez o principal responsável pelo fim da pirataria e por criar uma regulamentação para o mercado”.

A partir deste momento com entrada das chamadas major – as distribuidoras de filmes dos grandes estúdios americanos no Brasil – o negócio das locadoras “bombou” e foi muito rentável ate o início do século XXI quando entrou em viés de baixa

Ver filmes em casa foi um hábito cultural obrigatório entre as décadas de 1980 e 2010 e hoje substituída pelo vasto catálogo de downloads na internet (legais ou não), DVDs piratas, serviços de streaming como o Netflix e o acesso cada vez mais facilitado da TV por assinatura que além de agilidade e conforto, oferecem vantagens financeiras.

Mas quem viveu no tempo em que ia-se de madrugada na Video 1 local um filme noir ou a cópia restaurada de Apocalipse Now sabe que a locadora era mais que uma loja, era um centro de troca cultural e inteligência.

Veja como foi o último dia da Vídeo 1

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