Livro sobre o lado B de Curitiba é lançado no Gato Preto no sábado (15)

“Já aconteceu de tudo aqui, mas lançamento de livro é a primeira vez…”, afirma Natal Santos, dono do restaurante dançante Pantera Negra, carinhosamente chamado pela clientela pelo seu antigo nome, Gato Preto, no centro de Curitiba.
O mais tradicional e cultuado reduto da boemia local recebe neste sábado (15) o lançamento de Cruz Machado, os Mistérios da Vida Noturna de Curitiba, livro do jornalista André Wuicik com fotos de Rogério Rocha. A sessão de lançamento vai das 19 h às 22h e cada livro custa R$ 35.
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O autor tem se ocupado de investigar o Lado B de sua cidade natal. Estreou com Túneis de Curitiba, sobre os subterrâneos invisíveis da cidade. Desta vez, o objeto é o submundo visível, feérico, iluminado com o neon dos letreiros das boates da região da Cruz Machado.
Área da região central que é a “dama da noite do complexo lascivo da noite” segundo o autor. Perímetro que compreende as contíguas ruas Saldanha Marinho, Visconde de Nácar e Alameda Cabral
“Toda grande cidade tem alguma região conhecida como o submundo da noite boates de strip-tease e bares da baixa boemia. Sempre fui atraído por essa atmosfera e achei que era a hora de contar essa história para que ela não se perca”, disse Wuicik.
Com apenas 24 anos, o autor diz que frequenta a região há pelo menos seis anos, com amigos mais velhos. “Este negócio de ficar na calçada bebendo em copo de plástico não é pra mim. Prefiro terminar a noite no Gato Preto”.
Ele reconhece que até em razão de sua experiência noturna recente haveria outros escritores que viveram mais de perto as noites descritas no livro e poderiam dar seus próprios testemunhos.
“Meu mérito, porém, foi ter a iniciativa de ir atrás dos personagens centrais das histórias e, por sorte, fui muito bem recebido pela turma da noite que ficou envaidecida de ver suas histórias contadas em livro”, disse.
O livro investiga o movimento que se formou com a ascensão das boates na região no final dos anos da discoteca, o apogeu nas décadas de 1980 e 1990 e um relativo declínio na última década com algumas mudanças de comportamento e estilo de vida no setor do entretenimento adulto com o advento da internet. E, claro, a questão da segurança nas grandes cidades.
Donos da Noite
O personagem central da narrativa é Aldo Cardoso, o desbravador da região que chegou a montar um pequeno império no bas-fond local até meados dos anos 1990. “Um homem simples, talvez um dos primeiros empresário de origem humilde que conseguiu ser dominante em um ramo dominado até então pelos dândis bem nascidos”, escreveu Wuicik.
Há também a história de Valdir Tavares, o "Dika", que com sua numerosa prole, de filhos e afilhados, comandou boa parte da boemia nos últimos 30 anos. Ou Nilson Santana, que foi de tudo na noite curitibana e sabe explicá-la melhor do que ninguém.
O livro fala dos lugares como Baila Comigo, o Flicks, o Ponto Zero, o Viva a Noite, o Restaurante Tangará, La Ronda, Vegas, o Lido, Café da Madrugada e tantos outros. Fala principalmente da história da cidade, da afirmação dos abres LGBTI, das mudanças urbanas que mudaram a cara do centro, da influência cultural da música sertaneja, da repressão sexual da família tradicional entre outros temas importantes.
Gato Preto ainda reina na madrugada
Dois locais lendários da nossa noite merecem menção em capítulos especiais. Um é o Saul Trumpet Bar um dos bares de jazz mais famosos de toda a história de Curitiba liderado pelo genial instrumentista falecido em 2017.
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O outro é o Gato Preto, o restaurante lendário do centro cuja a história merece um livro exclusivo. A canja e a costela assada do cardápio que salvam a vida dos boêmios locais e viajantes há décadas. A música, as bebidas servidas no ponto certo, a ambientação e a luz são propícias para o romance e ao debate de ideias.
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“No momento em que se entra no Pantera Negra (a.k.a Gato Preto) há uma transferência para outro mundo, chega a ser algo psicodélico. Se do lado de fora existe o frio da madrugada e pessoas caminhando furtivamente pelas adjacências da Rua Cruz Machado, dentro o ambiente é bem acolhedor e, ao mesmo tempo, intenso. Há película nos vidros da porta. Por isso, uma vez lá dentro, a sensação é de estar sempre escuro, o que torna praticamente impossível de notar o amanhecer”, escreve Wuicik em trecho do livro.

À frente do Gato Preto nos últimos 21 anos, Natal Santos (foto acima) diz que sua casa sobrevive a mudanças na noite, pois sabe se adaptar a elas. “Boa parte dos clientes hoje são artistas, gente do teatro ou do cinema. A nossa casa é a mais democrática da cidade frequentada pelo pessoal trabalhador e por políticos e desembargadores. Nós somos parte da história de Curitiba e temos muito orgulho disso”.
No dia 15 de dezembro, portanto, todos os caminhos levam ao Gato Preto. Quem é cliente antigo deve comparecer ao lançamento, Cruz Machado, os Mistérios da Vida Noturna de Curitiba para celebrar sua contribuição na história. Quem nunca foi tem o pretexto ideal: o lançamento de um livro.
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