Relembre as 9 melhores letras de Chitãozinho & Xororó

Em quase 50 anos de carreira, Chitãozinho & Xororó colecionaram hits e atravessaram momentos fundamentais da história da indústria fonográfica. Abaixo, uma compilação íntima das melhores nove músicas da dupla de Astorga que se apresenta em Curitiba no próximo dia 01 de julho.
Debaixo do cobertor (Crisóstomo & José Russo): “A saudade é companheira das noites de solidão / desperta a cidade inteira batidas no coração / somente uma pessoa que finge não me escutar / é justamente quem amo e desejo sem parar”
A temática do amor que não retorna é um topos literário que alimentará toda uma indústria cultural de bem-sofrer antes mesmo de Adorno acordar com sinusite. Desde as cantigas de amigo à mensagem não visualizada no WhatsApp, o amor em modo de espera na língua portuguesa é um tema importante, aqui explorado com delicada empatia, já que a saudade até é invocada como uma companhia para suportar a dor de ser quem é.
Obras de poeta (Chico Lau & Vitau): “O construtor da floresta, faz seu prédio na paineira/ E o maestro sabiá faz seu show na laranjeira / Na copada de um pinheiro, canta alegre o bem-te-vi / À tarde na capoeira, canta triste a juriti”
O texto-poema de Chico Lau & Vitau enumera, a princípio, o campo como um espaço idílico, distante da cidade ruidosa. Com cunho religioso, como a boa tradição de transcender a natureza, os animais são desenhados para a liberdade, como é o espírito do poeta. Entretanto, a realidade é menos onírica e alguns animais se dão mal, numa interessante prova de eu-poético ao mesmo tempo tradicional e transgressor.
O dinheiro compra tudo (Benedito Seviero & Luiz de Castro): “Eu não culpo a moça coitada / pois foi obrigada com outro se casar / eu condeno um homem de estudo / que põe o dinheiro acima de tudo / e cria uma filha pra negociar / Nossas divergências / nesse vai e vem que a vida oferece / somos duas cartas num jogo de azar / um tem um receio de ser o que perde / o outro tem a certeza que pode ganhar”
Tema clássico. É a mulher que não casa com o amor de sua vida “desde os tempos de Cristo” por culpa de seu pai, a figura que interdita a felicidade, uma espécie de vendilhão do templo a profanar a pureza do amor verdadeiro. A metáfora do baralho surge num rompante como personificação da fatalidade, a nos explicar como a vida é uma tragédia grega, uma moira que nos impede de realizar nossos grandes intentos.
Nuvem de lágrimas (Paulo Debétio e Paulinho Rezende) “Ah… Jeito triste de ter você /Longe dos olhos e dentro do meu coração / Me ensina a te esquecer / Ou venha logo e me tira desta solidão”
As metáforas entre os sentimentos humanos e as coisas do céu estão na origem da maior parte das religiões, já que o céu é o local escolhido pelos deuses para morar. E como o músico é esse interlocutor moderno a fingir que é dor a dor que deveras sente, nada mais aceitável do que expandir os sentimentos mundanos ao olimpo e santificá-los. E, em uma prova de humildade, o eu-poético desta canção pede ao próprio objeto de sofrimento um auxílio em sua recuperação.
É Disso Que o Velho Gosta (Berenice Azambuja & Gildo Campos): “E quando alguém perguntava / O que ele mais gostava / O velho dizia assim: / Churrasco e bom chimarrão / Fandango, trago e mulher / É disso que o velho gosta / É isso que o velho quer”
Trindade do gaúcho tradicional (churrasco, mate e música), a canção é muito conhecida nos CTGs do mundo afora na voz de Berenice Azambuja, espécie de cruzamento de Messi com Cristiano Ronaldo da música nativista gauchesca, ainda voltando pra marcar. Berenice se candidatou a vereadora nas eleições de 2016, no município de Cidreira, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, pelo PSD. Obteve 23 votos.
Loira Gelada (Maria da Paz & Nino): “Hoje eu vou cair no mundo, / Vou fazer uma farra / Nem que eu me machuque, / Esqueço na marra / Quem pintou o sete com o meu coração/ […] Traz uma loira gelada / Que a minha morena me abandonou”
Antecipação do sertanejo universitário, com suas canções que medem as mulheres com o consumo de etílicos, aqui vemos as dificuldades do brasileiro simples para enfrentar a desilusão de não TER mais a mulher amada. Também é curioso o uso metonímico da loira gelada (a popular cerveja pilsen), que, fora desse contexto, poderia ser interpretada como uma mulher frígida, mas aqui é a figura que interrompe o sofrimento, logo amorosamente quente. Não podemos esquecer também das dificuldades do governo em conscientizar o cidadão comum, que falha ao preveni-lo de desenvolver doenças relacionadas à cirrose quando triste.
Ciumento demais (César Augusto & Xororó): “Como é que eu posso imaginar / Em dividir o seu olhar / Com outro alguém / Tenho ciúme de você / Sou louco por você”
Enquanto poetas menos capacitados não reconhecerão o ciúme diretamente e dirão coisas como lançador de flechas pretas ou monstro de olhos verdes, o eu-poético aqui não busca a entrelinha. Ele reconhecerá, de prima, a própria patologia, se reconhecerá como louco, transferirá a culpa e até mesmo mandará o interlocutor se danar, configurando-se como uma espécie de alienista machadiano, onde o hospital é uma balada sertaneja e passam a mão no cabelo das moças sem permissão.
Alô (Sergio Carrer & Fátima Leão): “Alô… Tô ligando pra saber como você está / Eu tava à toa e por isso resolvi ligar / Pra contar que sonhei com você / Alô… É tão bom ouvir de novo a sua voz / Apesar da distância que há entre nós”
Canção-símbolo do avanço das telecomunicações no Brasil, “Alô” também antecipou o frisson ao redor de Os Treze Porquês, o livro, ao apresentar um protagonista que está morrendo de saudades, uma situação-limite muito comum a quem sofre – e você sabe bem disso. De todos os clássicos da discografia de Chitãozinho & Xororó é, infelizmente, a música que deixa os ouvintes mais incomodados em virtude do alto custo da conta telefônica atual, que sequer entrega um produto de qualidade, e pelo baixo índice de ligações efetuadas por quem usa frequentemente aplicativos gratuitos de comunicação.
Evidências (José Augusto & Paulo Sérgio Valle): “Eu me afasto e me defendo de você / Mas depois me entrego / Faço tipo, falo coisas que eu não sou / Mas depois eu nego / Mas a verdade / É que eu sou louco por você”
Veja a comoção. Os olhos fechados para disfarçar as lágrimas. Os braços levantados. A catarse. Poucos celulares. A imperfeição dos nossos afetos. “Evidências” é o nosso soneto camoniano moderno, o momento de leveza em que reconhecemos que não entendemos a genialidade das Variações Goldberg, nem o motivo da existência do Quarteto de Cordas para Helicópteros de Stockhausen, quando podemos dizer que nunca leremos Ulysses com fluência ou, quem sabe, a fração de segundo em que nos invade uma vontade de não problematizar e apenas deixar fluir, deixar fluir, até sentirmos a estranha felicidade de não poder enganar o coração.
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