Homem-Aranha: De Volta ao Lar deixa de lado o blábláblá sobre a origem do herói

Homem-Aranha: De Volta ao Lar não perde tempo contando mais uma vez a origem do herói aracnídeo — jovem picado por aranha radioativa etc. Ele prefere apresentar uma espécie de rito de passagem de Peter Parker, o alter ego adolescente do super-herói conhecido como o "melhor amigo da vizinhança". O resultado é uma história ágil, cheia de surpresas bem legais e divertidas.
O título do novo filme, em cartaz nos cinemas, não poderia ser mais simbólico e apropriado. Trata-se de uma dupla “volta ao lar”. Primeiro, pela trama em si, que o coloca como um garoto de 15 anos cursando o ensino médio de uma típica escola americana. Segundo, pela integração aos filmes da Marvel, sua casa de origem (Tony Stark, o Homem de Ferro, faz uma aparição).
O roteiro, escrito a dez mãos (são cinco roteiristas creditados), tem como inspiração as comédias adolescentes dirigidas por John Hughes. Mas não pense em Homem-Aranha: De Volta ao Lar como uma versão super-herói de Ferris Bueller e seu Curtindo a Vida Adoidado. O estilo Hughes se faz presente na maneira como o diretor Jon Watts retrata a rotina escolar e social dos jovens, um dos pontos altos do filme. Além disso, há outro fator importantíssimo: as cenas de ação. E Watts não decepciona.
A escolha de Tom Holland para o papel principal foi mais do que acertada. Ele reúne o melhor dos dois Aranhas anteriores. Ficou perfeito como Peter Parker, a exemplo de Tobey Maguire. E da mesma forma que Andrew Garfield, funcionou muito bem vestindo o uniforme vermelho e azul.
O vilão não poderia ser melhor dentro da proposta do filme. No caso, o Abutre, um dos inimigos clássicos dos gibis, aqui interpretado por Michael Keaton, mais lembrado hoje pelo papel em Birdman e por ter vivido o Batman, de Tim Burton.
Uma das surpresas da nova adaptação é a atriz Marisa Tomei no papel de tia May. Caracterizada nas histórias em quadrinhos como uma senhora de coque e cabelo branco, ela agora é uma mulher bonitona de meia idade.
Contexto
Agosto de 1962. Número 15 da revista Amazing Fantasy, editada pela Marvel Comics. Esta foi a primeira aparição do Homem-Aranha, herói criado por Stan Lee e Steve Ditko. O sucesso foi instantâneo, tanto que, sete meses depois, em março de 1963, ele ganhou sua própria revista, Amazing Spider-Man, e se transformou no maior sucesso de vendas da editora e, por consequência, em um dos mais populares heróis de quadrinhos de todos os tempos.
A primeira adaptação do "escalador de paredes" aconteceu em um seriado de televisão estrelada pelo ator Nicholas Hammond (o filho mais velho da Família Von Trapp, de A Noviça Rebelde), exibida entre os anos de 1977 e 1979 e que teve apenas duas temporadas e 14 episódios. O piloto da série, inclusive, foi lançado nos cinemas fora dos Estados Unidos. Cheguei a vê-lo no antigo Cine Vitória, na Rua Barão do Rio Branco, onde hoje fica o Centro de Convenções — na época, era a maior sala de Curitiba e a segunda maior do Brasil.
O sucesso comercial de Superman, feito em 1978 por Richard Donner, e de Batman, de 1989, dirigido por Tim Burton, despertaram nos fãs o desejo de ver uma adaptação do "aracnídeo" na telona. Mas ela demorou muito a sair. A má administração da Marvel fez com que muitos heróis do chamado "primeiro time" da editora, entre eles, o Homem-Aranha, tivessem seus direitos de adaptação cinematográfica vendidos no início dos anos 1990 a muitos donos. Esse nó burocrático sempre dificultou as negociações.
Muitos diretores se envolveram com o projeto de fazer um filme do Aranha. Até James Cameron (Titanic) chegou a escrever um roteiro. Enfim, no ano 2000, a Sony conseguiu negociar com todos os detentores dos direitos do "atirador de teias" e deu início à produção do primeiro filme, Homem-Aranha, lançado em 2002, dirigido por Sam Raimi. O sucesso foi enorme e uma continuação foi encomendada.
Dois anos depois foi a vez de Homem-Aranha 2, considerado por muitos como uma das dez melhores adaptações de quadrinhos para o cinema de todos os tempos. Esta mesma dupla se uniria outra vez para Homem-Aranha 3, de 2007. A trilogia de Raimi faturou 2,5 bilhões de dólares nas bilheterias.
A Sony não desistiu da valiosa franquia e, contrariando o bom senso, segundo alguns especialistas do mercado, lançou um reboot do herói cinco anos após o fim da trilogia de Raimi. Desta vez, um novo diretor e um novo ator: Marc Webb e Andrew Garfield. Foram feitos então dois filmes: O Espetacular Homem-Aranha, de 2012, e O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, de 2014. Nenhum deles agradou integralmente os fãs, o que se refletiu na bilheteria abaixo da expectativa criada pelo estúdio. Cada um deles custou mais de 200 milhões para ser produzido e a bilheteria total de ambos ficou em 1,46 bilhão de dólares.
Entre o fim da trilogia de Raimi e o primeiro filme de Webb, a Marvel montou um estúdio próprio e terminou sendo comprada pela Disney. A fórmula vitoriosa dos quadrinhos, de criar uma cronologia comum para as histórias, foi repetida com sucesso nas produções cinematográficas. Nesse mesmo período, a Sony amargou alguns fracassos e o rendimento decepcionante com os novos filmes do “cabeça-de-teia” fez com que os estúdios se aproximassem. Afinal, a Sony precisava acertar e a Marvel precisava do Aranha para suas aventuras.
O acordo, firmado em 2015, previa que a produção e o controle criativo dos novos filmes do herói ficariam sob responsabilidade da Marvel, com a devida aprovação da Sony, que se encarregaria da distribuição. A estreia do aracnídeo dentro do universo cinematográfico da Marvel se deu já no ano seguinte, no filme Capitão América: Guerra Civil. E é justamente nesse ponto que tem início Homem-Aranha: De Volta ao Lar.
E, antes que eu me esqueça, sendo um filme da Marvel, fique na sala até o último minuto. Há duas cenas depois dos créditos finais.
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