Livro conta a história do rock autoral em Curitiba e investiga a falta de projeção nacional das bandas locais

“Autofagia”: segundo a definição do dicionário Michaelis, trata-se do “ato de devorar-se, consumir-se”. No livro "Uma fina camada de gelo: o rock autoral e a alma arredia de Curitiba”, do advogado Eduardo Mercer, a palavra aparece repetidas vezes para descrever a cena roqueira da cidade. Fruto de quatro anos de pesquisas e entrevistas, a obra resgata a história de alguns dos principais grupos formados na capital paranaense, abrangendo um período que vai desde o final da década de 1970 até o ano de 1996. O resultado é um catatau de mais de 500 páginas em que o autor se debruça sobre uma grande questão: afinal, por que as bandas daquela época tiveram tantas dificuldades para fazer sucesso comercial no resto do Brasil?
“Eu me perguntava: por que nossas bandas não estavam no Rock In Rio? Por que esses caras não estavam tocando na rádio? Por que o Ídolos de Matinée não estava tocando junto com o Kid Abelha no Globo de Ouro? Eu me incomodava com isso e era um assunto do qual eu não queria escapar”, afirma Mercer.
O livro é um verdadeiro “quem é quem” do rock local: lá estão Blindagem, Beijo AA Força, Relespública, Resist Control, Sr. Banana e muitos outros — incluindo aí pioneiros como A Chave e a Contrabanda. No total, são citados mais de mil personagens entre músicos, jornalistas, escritores e agitadores culturais, formando um painel da “Seattle brasileira” — apelido dado a Curitiba nos anos 1990 por jornalistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, em referência à cidade americana que deu ao mundo bandas como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden.
As explicações e conjecturas dadas pelos entrevistados para justificar porque as bandas não conseguiram projeção passam pelo suposto preconceito com os artistas do Paraná, boicotes por parte de gravadoras, falta de comprometimento de alguns músicos a até azar, puro e simples. É o que Mercer chama de “maldição do Petropen”, referência à parada próxima ao município de Registro (SP), no meio do caminho entre Curitiba e São Paulo. “O triângulo das bermudas do rock curitibano”, brinca o autor.
Mercer também arrisca um palpite. “A gente teria que ter um mercado interno de consumo da nossa própria cultura para fazer sucesso em outros locais. Curitiba não dá esse calço para os seus artistas. É como se a gente ficasse em um labirinto sem encontrar a saída.”
O músico Cassiano Fagundes, que nos anos 1990 fez parte da banda Magog, endossa a ideia. “Aqui nunca teve um Paralamas, um Skank, porque basicamente quem manda no Brasil não é Curitiba. Se fosse uma cidade com projeção cultural e econômica maior, talvez tivesse um sucesso comercial desses”, diz ele. Cassiano vai ainda mais longe: “O curitibano acha que não é brasileiro. Começa o problema aí. Como ele vai se projetar pro resto do país se ele não se acha brasileiro?”, questiona.
Para J.R. Ferreira, proprietário da veterana casa de shows 92 Graus e integrante das bandas Jully Et Joe, Magneticoss (ex-Intruders) e Limbonautas, as dificuldades enfrentadas pelas bandas locais têm motivo financeiro. “Sem uma gravadora de grande expressão para bancar fica difícil, não só para bandas daqui mas de qualquer lugar”, diz ele. “Para conseguir circular, gravar, divulgar e se manter fora de casa, só com pais ricos e bastante incentivo.”
Já Fábio Elias, líder da Relespública, banda há quase 30 anos na ativa, relativiza o que é “fazer sucesso”. Em 2000, o trio assinou com a Universal Music e se mudou para o Rio de Janeiro para gravar um CD. Porém, a aventura durou pouco: oito meses depois da mudança, eles romperam o contrato e voltaram para Curitiba. Perguntado por que a experiência não deu certo, Fábio é taxativo.
“Como não deu certo? Deu certo sim!”, afirma. “Gravamos um disco no Rio com tudo que tínhamos direito. O problema foi que descaracterizaram completamente o som e a estética ‘mod’ da banda. Queriam um novo Jota Quest só que mais ‘roqueiro’.” Ele conta que, por isso, a própria banda pediu para sair. “Pra mim, fazer sucesso não é estourar uma música e aparecer na televisão, apenas. É estar com os mesmos amigos desde o início e passar por tudo juntos.”
“Você precisa definir o parâmetro do que é sucesso”, diz Mercer. “O Blindagem, para mim, é uma banda de sucesso. Várias bandas e artistas de Curitiba e do Paraná tiveram sucesso criativo, com um trabalho de primeiríssima linha. Sucesso financeiro já é outra coisa.”
Cassiano concorda. “Muitas bandas dessa época podem não ter conseguido o sucesso de um Raimundos, ou algo assim, mas eu acho que esse nem tinha que ser o objetivo delas. Para que houvesse um Raimundos, antes foi preciso que existissem 300 bandas fazendo um som parecido, com a mesma qualidade e tão preparadas quanto, e que não vingaram simplesmente porque não havia um mercado desenvolvido.”
Polêmicas
Um dos entrevistados de “Uma fina camada de gelo” é o jornalista e produtor musical Carlos Eduardo Miranda, considerado um dos arquitetos do rock brasileiro dos anos 1990. Miranda criou em 1994, em parceria com a banda Titãs, o selo Banguela Records, cuja intenção era revelar novos nomes da música nacional. Para as bandas, parecia uma oportunidade única, uma vez que o selo era subsidiário de uma grande gravadora, a Warner Music. Foi por meio do Banguela, por exemplo, que saiu o primeiro álbum dos Raimundos.
Em 1995, Miranda também colocou suas mãos no rock autoral de Curitiba com o lançamento do CD “Alface”: um álbum conjunto das bandas Boi Mamão, Resist Control, Woyzeck e Magog. Idealizado por Rodrigo Stradiotto, o disco foi viabilizado por meio das então recentes leis de incentivo à cultura e distribuído pelo selo paulista. “Chegou pronto para eles, não só o CD, mas a arte, encarte, tudo”, conta Rodrigo. “A única coisa que tivemos que colocar foram as logos do Banguela e da Warner.”
O disco garantiu certa projeção às bandas. “O ‘Alface’ ajudou, porque naquela época era difícil você gravar seu próprio CD. Foi uma maneira de ter um cartão de visitas. E realmente abria portas”, diz Cassiano, que participou do projeto com o Magog. Para o Woyzeck, a empreitada prometia ainda mais, uma vez que a banda foi a única das quatro participantes a assinar um contrato com o selo para gravar um álbum próprio. Este, no entanto, nunca saiu. “O Banguela chegou ao fim antes que o disco fosse sequer gravado”, conta Rodrigo. Em 1997, a banda resolveu o problema gravando em Curitiba e de forma independente o CD “Quebra-Queixo”, hoje um clássico do rock local.
As declarações dadas por Miranda no livro, porém, provocaram algumas polêmicas: “Curitiba, velho, nunca dá certo porque a galera não faz porra nenhuma”, diz o produtor em um trecho. “Por exemplo, a gente lançou o ‘Alface’ e coincidiu meio com o fim do Banguela, mas as bandas não faziam nada, cara. Lançavam disco e ficavam lá parados”. Rodrigo refuta essa versão. “A gente nunca esteve parado, o Boi Mamão e o Resist Control nunca estiveram parados”, diz ele. “Éramos um bando de piás workaholics. Todo mundo trabalhava pra caramba pra coisa acontecer”.
Outro alvo das críticas de Miranda são os Magneticoss. No livro, o produtor reclama das atitudes da banda, com quem ele trabalhou no Rio de Janeiro. “Eu marcava as coisas e cadê os caras? Tão em Copacabana tomando cerveja!”, diz Miranda. J.R. Ferreira, líder do grupo, se defende dizendo que a declaração é “infeliz”.
“Fizemos uma tour pelo Nordeste e pelo Sul sem nenhum apoio da gravadora: nada de passagens, hospedagem, apoio para as refeições e muito menos dinheiro para cerveja. Tudo era bancado pela própria banda”, afirma.
Mercer coloca panos quentes nas discussões. “Eu não sentia que o livro era polêmico até fazer a entrevista com o Miranda. No depoimento, ele disse o que acha legal e as coisas que não gosta. Entendo as ações e os argumentos de cada um, mas minha ideia é não me meter. Eu apenas conto a história.”
Formação de plateia
O livro reforça a mítica de que uma aura especial parecia rondar a cena roqueira de Curitiba. Em 1989, aconteceu uma das primeiras tentativas de divulgação das bandas locais com o lançamento do LP “Cemitério de Elefantes”, com faixas de Beijo AA Força, Ídolos de Matinée, Tessália, Bons Garotos Vão Para o Inferno e Pós Meridion. Foi a primeira de diversas coletâneas, entre as quais se destacam “Vampiros de Curitiba” (1990), “Guitar” (1997), “Leite Quente” (1998), “Lototol” (1998) e “Ciclojam” (2001). Em comum, todos esses álbuns traziam grupos dos mais variados estilos, indo do punk à MPB. “A gente nunca achou que havia uma cena”, conta Rodrigo, do Woyzeck. “Realmente, nos anos 1990 havia muita banda aparecendo em Curitiba, e todas muito diferentes umas das outras. Não era como o Mangue Beat, que tinha uma unidade estética, um discurso homogêneo”, diz ele sobre o movimento fundado em Recife que revelou Chico Science & Nação Zumbi e o Mundo Livre S/A.
Mesmo assim, a efervescência na capital paranaense era tamanha que rendeu vitrines como matérias na Bizz, principal revista sobre música da época, e a exibição de clipes na MTV. Também provocou a proliferação de bares e casas noturnas abrigando shows de bandas autorais. “Acabou aparecendo muito espaço pra tocar porque tinha muita banda, e os próprios donos de bar viam como uma coisa rentável” conta Rodrigo. ”Começou a se formar uma coisa que sempre foi muito complicada aqui em Curitiba, que era um público para as bandas.”
Mercer relembra que essa formação de público foi possível por casas como o Aeroanta, o Circus e o 92 Graus, pela multiplicação dos estúdios de gravação, a ação de agitadores culturais, e finalmente pelo surgimento da rádio Estação Primeira. “Mas aí fecharam o Aeroanta, depois a Pedreira, a Estação Primeira acabou. Foram fatores não necessariamente relacionados, mas que de certo modo acabaram com esse trabalho de formação de plateia”, afirma.
Rodrigo levanta outra questão, referente ao comportamento do público curitibano. “Em Curitiba, a gente podia encher show, mas não conseguia vender nossas fitas demos ou camisetas da banda. Em outras cidades, a gente vendia.” Ele cita outros exemplos para efeitos de comparação. “A primeira demo do Skank vendeu 50 mil cópias só em Belo Horizonte. Se você perguntar pra qualquer porto alegrense sobre o rock da cidade, ele vai te falar sobre a genealogia do rock gaúcho, dos Replicantes até hoje. Qualquer lugar tinha isso. Em Curitiba, não”, lamenta. “Ninguém lembra que Curitiba tem toda uma história musical. A galera esquece rapidinho ou nem sabe o que aconteceu.”
Sob esse aspecto, “Uma fina camada de gelo” pode ser considerado uma forma de preservação da memória da música local. Resta saber se o próprio livro não será vítima da “maldição do Petropen”. “É possível que venha a ser, sim”, diz Mercer. “O Carlos Eduardo Miranda me disse: ‘ninguém em São Paulo vai ler o seu livro, porque aqui ninguém ouve as bandas de que você fala’. Mas, de qualquer maneira, acho que é uma obra útil para Curitiba, principalmente se fizer as pessoas se mexerem”, conclui.
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