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O Green Day é punk raiz ou se rendeu ao sistema?

·4 min de leitura·Luigi Poniwass, especial para a Gazeta do Povo
O Green Day é punk raiz ou se rendeu ao sistema?

No próximo dia 5, a Pedreira Paulo Leminski será palco da maior e mais bem-sucedida banda de punk rock em atividade. Ou dos maiores “traidores do movimento”, dependendo da sua impressão sobre o Green Day ou do seu grau de fundamentalismo em relação ao movimento estético-artístico-cultural. O trio californiano passa por Curitiba na turnê de seu mais recente álbum, Revolution Radio, despejando essa eterna dicotomia entre o ser e não ser punk que acompanha desde que  chegou ao estrelato. 

Para quem se considera punk “raiz”, o movimento e seus adeptos têm ojeriza ao “sistema” (qualquer que seja), e por isso devem ser eternamente marginais. É inadmissível, portanto, fazer sucesso comercial, ganhar dinheiro ou participar das badalações do establishment, como receber prêmios de instituições como a indústria fonográfica, a MTV ou Hollywood – como faz o Green Day. Punk que é punk tem que morar em squats (imóveis abandonados ou em construção invadidos) e sobreviver de esmolas ou da venda de fanzines, adesivos e roupas customizadas.

Já para quem gosta do Green Day, a banda democratizou o estilo e o levou a outro patamar de visibilidade, poder e influência. Para estes, o grupo formado em 1987, na cidade de Berkeley, pelos amigos de infância Billie Joe Armstrong (guitarra e voz) e Mike Dirnt (baixo e voz) – três anos depois entrou o baterista Tré Cool – ganhou fama e fortuna graças ao talento, dedicação e trabalho duro. Mantiveram-se fiéis ao punk rock sem deixar de arriscar, de explorar novos caminhos artísticos, de amadurecer e evoluir.

Ao longo dos últimos 30 anos, o Green Day deixou de ser uma bandinha irresponsável, com letras juvenis e um nome que faz referência ao ato de passar o dia inteiro fumando maconha, para se tornar um grupo respeitável, com cinco Grammy, outros tantos VMAs, o nome inscrito no Rock and Roll Hall of Fame e a coragem de lançar uma grandiosa “punk ópera rock” conceitual com críticas duras ao governo do seu país – American Idiot, de 2004. Seis anos depois o disco virou musical na Broadway, faturando dois Tony Awards.

Sobre essa polêmica shakespeariana entre ser ou não ser punk, Billie Joe Armstrong já tinha a resposta na ponta da língua em 1998, época em que eles vieram ao Brasil pela primeira vez e que o vocalista conversou com a repórter Célia Almudena, da Folha de S. Paulo: “Representamos a nós mesmos. Não tentamos representar alguém ou toda uma vertente musical, punk ou não. Acho que fazemos música Green Day e só. Não gosto de rotular o que fazemos”.

Na mesma entrevista, Billie Joe fez um paralelo entre o seu grupo e outras bandas do gênero: “Somos bem maiores que a maioria das bandas punks. Acho que há mais profundidade em nossa música, não tocamos rápido apenas para sermos rápidos. Somos realmente bons, temos mais elementos cênicos, mais sensitividade e mais sensibilidade”, comparou. E também respondeu a quem os acusava de fazerem um som “comercial”: “Obviamente, as outras bandas punks tocam para conseguir dinheiro. Acontece que eu toco música por prazer e para me divertir e ganho dinheiro ao mesmo tempo. Não é errado ganhar dinheiro. O punk nunca estabeleceu regras”.

O “estouro”

No Brasil, assim como na maior parte do mundo, o interesse pelo trio californiano começou com o álbum Dookie, lançado em 1994 e até hoje o mais bem-sucedido da banda, com 28 milhões de cópias vendidas no planeta. Emplacou megahits como Welcome to Paradise, Basket Case e She. E se renovou com o aclamado American Idiot, com mais um punhado de sucessos, como a música-título, as baladas Boulevard of Broken Dreams e Wake me Up When September Ends.

A turnê atual promove o álbum Revolution Radio, lançado há um ano, que emplacou as músicas Bang Bang e Still Breathing. Se seguir o padrão das apresentações dessa excursão, o show do Green Day na Pedreira Paulo Leminski deve ter quase três horas de duração. Billie Joe deve convidar ainda alguns fãs para cantar, tocar guitarra e dar um “mosh” (também conhecido como stage diving, o mergulho do palco na plateia). A julgar pelos shows mais recentes da turnê, o setlist vai percorrer os principais álbuns da banda e trazer surpresas, como um medley contendo Careless Whisper, do George Michael; Shout, do Tears for Fears; (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones; e Hey Jude, dos Beatles. Considere ou não o Green Day uma banda de punk rock, será diversão garantida.

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