Cinema

Gary Oldman personifica Churchill em O Destino de Uma Nação

·4 min de leitura·Ricardo Sabbag Zipperer
Gary Oldman personifica Churchill em O Destino de Uma Nação

O currículo do ator britânico Gary Oldman registra mais de 90 atuações em filmes, programas de tevê e jogos eletrônicos. Isso sem falar nos anos de teatro, inclusive como membro da Royal Shakespeare Company. Já foi considerado por críticos como “o melhor ator britânico de sua geração”. No cinema, teve papeis de destaque em filmes como JFK: A Pergunta que não Quer Calar, Drácula de Bram Stocker e, mais recentemente, O Espião que Sabia Demais, que o resgatou ao protagonismo.

Sim, porque no extenso currículo de Oldman, o que mais aparece são papéis médios em filmes de grande orçamento, como na série Harry Potter e na trilogia de Batman dirigida por Christopher Nolan, em que encarnou o comissário Gordon. São escolhas que garantem tranquilidade financeira mas não necessariamente são o melhor palco para que ele possa demonstrar todo seu talento.

O Destino de uma Nação (Darkest Hour), que estreia essa semana nos cinemas brasileiros, é o filme que pode consolidar o nome de Gary Oldman não apenas como o de um grande ator britânico, mas como um dos maiores de sua geração, ponto. A produção anglo-chinesa, dirigida por outro britânico, Joe Wright (de Desejo e Reparação e Anna Karenina), retrata um dos mais fascinantes personagens do mundo ocidental moderno, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill (Oldman), que liderou a resistência aliada na Europa ao domínio nazista durante a 2ª Guerra Mundial.

A história, escrita por Anthony McCarten (de A Teoria de Tudo), tem como foco um episódio central no desfecho da guerra, a chamada Crise do Gabinete de Guerra de Maio de 1940, quando Churchill, longe de ser uma unanimidade entre os políticos, assumiu a chefia de governo do Reino Unido substituindo Neville Chamberlain (Ronald Pickup), que perdera apoio do parlamento mas não a liderança do Partido Conservador.

Churchill, que à época já havia passado por diversos cargos no governo e nas forças armadas, é indicado a primeiro-ministro por Chamberlain e nomeado pelo Rei George VI (Ben Mendelsohn) por ser o único conservador capaz de formar um governo de coalizão. A indicação, no entanto, não refletia a preferência de nenhum deles, que preferiam o nome do Visconde Halifax (Stephen Dillane), que propunha manter uma política de negociação com os alemães, buscando uma saída diplomática para a iminente invasão das forças nazistas à Grã-Bretanha.

A crise se dá no momento em que a França está prestes a ser dominada pelos nazistas e as forças britânicas se encontram encurraladas em Dunquerque – aliás, O Destino de uma Nação dialoga bastante com Dunkirk, filme de Christopher Nolan de 2017. Membros do gabinete de Guerra do governo, Chamberlain e Halifax são contrários à resposta armada preferida por Churchill, que se vê sem apoio da coroa ou de aliados como Estados Unidos e Canadá e pressionado pelos membros do seu governo a negociar com os alemães.

Confira o trailer

Discursos famosos

O ponto alto do filme e da atuação de Oldman se dá na reprodução de dois dos mais famosos discursos de Churchill: “Sangue, Trabalho, Lágrimas e Suor”, o primeiro apresentado à Câmara dos Comuns; e “Lutaremos nas Praias”, quando o primeiro-ministro informa ao parlamento e ao público a possibilidade da invasão pelo inimigo e prega a resistência até o fim.

Por terem inspirado a resistência até a vitória aliada, trechos desses discursos de Churchill se tornaram epígrafes em todo o Reino Unido e mesmo fora dele. Foi nessa mesma época que Churchill também se notabilizou pelas fotografias fazendo o gesto do “V” de vitória. A corajosa aposta política do premiê colaborou para transformá-lo em uma das mais emblemáticas figuras do século 20. Mas também fazem parte da imagem mítica de Churchill os trejeitos físicos, como os balbucios, e os inseparáveis charutos que fumava e chapéus que vestia.

São símbolos que não escapam a qualquer um que vá interpretá-lo – e que também podem facilmente transformar a interpretação numa imitação fajuta, como tantos Elvis Presley que se valem dos trajes espalhafatosos, costeletas e óculos escuros do rei do rock para aparecer nas calçadas de qualquer cidade.

E aí está o brilho na atuação de Oldman, já premiado com o Globo de Ouro na categoria melhor ator de filme de drama. Ele constrói um Churchill reconhecível, sim, mas que passa longe de mera imitação. É um personagem único, dramático e exagerado, como os de uma boa peça de teatro. Sua versão dos discursos pode ser mais emocionante do que as originais – mesmo porque o ator está em cena apenas para cativar o público, não para tomar decisões que signifiquem a vida ou a morte de milhões de pessoas.

Vale destacar também o trabalho do artista de maquiagem Kazuhiro Tsuji, que precisou criar com próteses e perucas um amálgama entre os rostos de Churchill e Oldman (longe da physique du rôle ideal) sem que isso interferisse na experiência do espectador. E ainda o talentoso elenco de apoio formado por atores da alta estirpe britânica – além dos já citados nos papeis políticos, o filme permite o brilho de Kristin Scott Thomas como Clemmie, a mulher de Churchill, e de Lily James como Elizabeth Layton, uma das secretárias pessoais do primeiro-ministro.

Veja onde assistir o filme em Curitiba e região:

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Ricardo Sabbag Zipperer
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