Cinema

Melhor filme do Brasil, paranaense Ferrugem chega aos cinemas

·5 min de leitura·Anderson Gonçalves, especial para a Gazeta do Povo
Melhor filme do Brasil, paranaense Ferrugem chega aos cinemas

Era tarde da última terça-feira, dia 21, quando Aly Muritiba atendeu por telefone a reportagem da Gazeta do Povo. O cineasta falava de Gramado, no Rio Grande do Sul, onde dali a algumas horas protagonizaria mais um dos importantes episódios vividos em dez anos de carreira cinematográfica. Seu terceiro longa-metragem, Ferrugem, faria a estreia em solo brasileiro naquele que é o mais tradicional festival do cinema nacional. O filme acabou levando o prêmio de melhor filme no festival – além de ter faturado outros dois prêmios. Antes disso, o filme já havia sido lançado em palco nobre, o Festival de Sundance, nos Estados Unidos, maior evento do cinema independente do planeta.

Minutos antes de conversar com a reportagem, Muritiba postou em seu Instagram fotos dos jovens atores de Ferrugem promovendo o filme nas ruas de Gramado. Uma atitude que tem tudo a ver com a temática do longa, a relação dos adolescentes com a tecnologia. Na trama, Tati (Tiffanny Dopke) é uma adolescente que tem um vídeo íntimo divulgado no grupo de whatsapp da escola. Adiantar as consequências desse episódio é estragar as surpresas que estão reservadas ao espectador.

Muritiba conta que a ideia do filme nasceu da experiência como pai e professor de adolescentes. “A relação que eles têm com a tecnologia, o tempo todo com o celular, começou a me preocupar. Pensei então que seria interessante discutir o assunto através de um filme que abordasse a implicância do mau uso da internet”, conta o cineasta, que fez um trabalho amplo de pesquisa antes de elaborar o roteiro, em parceria com Jessica Candal. “É impressionante a quantidade de casos envolvendo meninas e mulheres, que têm vídeos íntimos expostos e arcam com consequências desastrosas.”

Após a estreia em Sundance, Ferrugem ganhou elogios não apenas relacionados ao aspecto artístico, mas também pela abordagem. “Causou um impacto, claro, até porque é um assunto bastante delicado. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas elogiaram por ter tratado o tema com muito respeito e sem sensacionalismo”, destaca Muritiba. Em Gramado, as primeiras reações também foram positivas, com alguns críticos colocando o filme como um forte candidato aos prêmios principais.

Do metrô ao Oscar

O ano de 2018 marca uma década desde que foram lançados os primeiros trabalhos de Muritiba, os curtas-metragens Convergências e Com as Próprias Mãos. Dez anos nem é tanto tempo na trajetória de um cineasta profissional, mas quando se observa tudo o que aconteceu nesse período, parece que estamos diante de um veterano. Semifinalista do Oscar (sim, o maior prêmio do cinema), melhor diretor do Festival de Brasília, participação em um punhado de festivais mundo afora e trabalhos nas três principais plataformas de televisão e streaming do país: Globo, HBO e Netflix. Além de ser um dos criadores do Festival Olhar de Cinema, principal evento do gênero no Paraná, que chegou à sétima edição este ano.

O roteiro da vida de Muritiba antes de entrar para o cinema também tem algumas reviravoltas. Começou em Mairi, cidade no interior da Bahia com menos de 20 mil habitantes, de onde saiu aos 17 anos rumo a São Paulo. Lá, trabalhou como bilheteiro do Metrô até se mudar com a esposa para Curitiba, onde a carreira profissional deu outra guinada: tornou-se agente penitenciário. Àquela época, nem passava pela cabeça que dali sairia a matéria-prima para uma nova e promissora carreira.

Com o trabalho no extinto presídio do Ahú conciliou aulas de História, até que começou a estudar cinema. Os primeiros curtas saíram em 2008, mas a consolidação veio em 2011, quando lançou A Fábrica, curta de ficção ambientado num presídio. A produção ficou entre os 11 pré-indicados ao Oscar de melhor curta-metragem de 2013. A indicação não veio, mas abriu algumas portas. Foi o primeiro volume da Trilogia do Cárcere, completada com outro curta, Pátio, que esteve no Festival de Cannes de 2013, e um documentário em longa-metragem, A Gente, lançado nos cinemas no ano passado.

A estreia em longas aconteceu com Circular (2011), filme coletivo dirigido por ele e outros quatro cineastas. Seu primeiro trabalho solo foi Para Minha Amada Morta (2015), lançado com o pé direito no Festival de Brasília, onde arrematou sete prêmios. Entre eles, os de melhor filme da crítica e diretor. Entre esse trabalho e Ferrugem, Muritiba consolidou seu nome em outras plataformas.

TV e streaming

Entre o final de 2016 e o início de 2017, o diretor passou uma temporada no Uruguai, onde dirigiu três episódios da segunda temporada de O Hipnotizador, série da HBO. Depois disso, foi escalado para dirigir alguns episódios da nova temporada de Carcereiros, série da Globo cuja trama é bem familiar ao diretor: o dia a dia de um agente penitenciário, vivido por Rodrigo Lombardi. O próximo projeto é para a gigante Netflix. Muritiba participará da série brasileira A Facção, um thriller policial ambientado na década de 1990, com estreia marcada para 2019.

Circulando entre cinema, televisão e streaming, Muritiba se diz bastante à vontade ao conciliar diferentes linguagens audiovisuais. “São meios que estão cada vez mais parecidos. As séries têm procurado ser mais cinematográficas, então o métiers é o mesmo. O que muda é a liberdade criativa. No filme ela é maior, enquanto na série há um universo que é preciso respeitar. Mas tem sido bem tranquilo”, garante.

Engana-se quem pensa que o sucesso com as séries pode fazer o diretor deixar o cinema em segundo plano. No ano que vem ele começa a rodar um novo longa, Deserto Particular, que irá abordar um outro assunto que parece ter conquistado o cineasta: as relações no meio digital. Segundo a sinopse do filme, a história apresenta dois personagens, um policial militar que mantém um relacionamento virtual e um jovem que extravasa nas redes sociais o desejo secreto de ser mulher.

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