Cinema

Extraordinário obriga público a ir às lágrimas

·5 min de leitura·Ricardo Sabbag Zipperer
Extraordinário obriga público a ir às lágrimas

Foi no fim na década de 1920 que os jornais, mais especificamente o “New York Daily News”, criaram o sistema de classificação crítica do cinema por estrelas: três estrelas para filmes excelentes, duas para os filmes bons, uma estrela para os medíocres. Zero estrela? Passe longe. Mais tarde aumentaram a tabela para cinco estrelas, permitindo um pouco mais de nuance na avaliação. Até hoje o método é usado por vários veículos como forma de medição dos méritos dos filmes.

Mas há uma categoria menos conhecida (ou talvez inexistente) que classifica os filmes não por estrelas, mas por lenços. E aí o que está em análise não é a qualidade geral da película, mas sua capacidade de emocionar o público, levando-o às lágrimas. Um lenço? Imagine aquela comédia desgarrada que nem um par romântico tem. Cinco lenços? Prepare-se para o dilúvio.

Extraordinário, filme do diretor Stephen Chbosky que está em cartaz nos cinemas é um desses casos. Nem os maiores corações de pedra resistirão à história do menino Auggie Pullman, nascido com a face desfigurada graças a uma condição genética rara (síndrome de Treacher Collins, que afeta, em média, uma a cada 50 mil pessoas). Educado em casa, Auggie precisa ir para a escola quando chega ao 5.º ano do ensino fundamental. Protegido por sua família até então, ele deve enfrentar a crueldade de outras crianças – e mesmo de adultos – que não conseguem esconder o estranhamento e o rejeitam por sua condição.

É simplesmente impossível assistir a Extraordinário sem se debulhar em lágrimas. Está passando por um momento difícil? Acredite, a vida de Auggie é pior. Ele não tem escapatória. Não há cirurgia que mude a sua condição. Ele está obrigado a encarar a dureza da vida de frente, aos 11 anos de idade, contra um bando de crianças que não compreende sua condição e que faz bullying da pior espécie.

Auggie acha que tem amigos, mas não é bem assim. Sua família é amorosa, mas a atenção excessiva dispensada a ele causa fraturas emocionais em outros membros, que precisam negligenciar suas próprias vidas devido à condição especial do menino. Sonia Braga interpreta a avó descolada de Auggie e de sua irmã mais velha, Via. Mas, adivinhe: é uma aparição post-mortem. A avó nada mais é do que um flashback de Via de quando ainda estava viva. Uma memória de quando ela se sentia feliz (porque hoje…)! Até o cachorro de Auggie está velho (isso ainda não é um spoiler, mas, por favor, nem o cãozinho escapa do drama).

Extraordinário é, definitivamente, um filme a ser classificado com cinco lenços. Mas e quanto às estrelas, quanto vale o show?

Havia uma certa expectativa quanto ao novo filme de Chbosky após As Vantagens de Ser Invisível, de 2012, que retrata com grande sensibilidade uma história tipicamente adolescente, sobre a descoberta do amor, do corpo, das grandes decisões a serem tomadas e dilemas afins. O filme é uma pequena joia para quem gosta do cinema do gênero. Suficientemente emocionante, mas sem sufocar o espectador.

A expectativa sobre Extraordinário era naturalmente maior devido não só ao orçamento que permitiu a contratação de um elenco de peso, com Julia Roberts e Owen Wilson interpretando os pais de Auggie, mas também por se tratar da versão cinematográfica do best seller homônimo escrito por R. J. Palacio (pseudônimo de Rachel Jaramillo).

Quando do lançamento do livro, a autora contou que decidiu escrevê-lo depois de um dia em que, junto do filho de três anos, encontrou uma menina com deformidades faciais na fila da sorveteria. Seu filho começou a chorar e, sem saber o que fazer, Rachel preferiu se afastar da menina, o que só piorou a situação.

O mote do filme é o mesmo do livro. Mas enquanto Extraodinário em livro foi pensado como literatura infanto-juvenil, carregada de um moralismo inerente que atende ao universo de leitores a que se destina, sua versão em filme é voltada a outro público. E aí emergem as fragilidades do trabalho de Chbosky e do corroteirista Steve Conrad.

A principal falha de Extraodinário são seus personagens unidimensionais. A mãe preocupada vivida por Julia Roberts, o pai amoroso de Owen Wilson, o diretor compreensivo da escola (cujo nome foi mantido da tradução literária, Sr. Buzanfa, outro elemento que contrasta as duas versões da obra), interpretado por Mandy Patinkin: todos cumprem uma única função na história. Não se espera nada diferente deles, e nada de diferente eles farão.

Cabe ao elenco infanto-juvenil dar a profundidade necessária à narrativa. A estrela é Jacob Tremblay, que vive o papel de Auggie. O menino é um verdadeiro fenômeno. Surgiu com grande destaque em O Quarto de Jack e atende a todas as expectativas ao interpretar o protagonista de Extraordinário. Auggie é um personagem comovente, e não somente pelos previsíveis momentos de raiva e desespero que passa. Izabela Vidovic, que interpreta Via, também mostra muito talento na pele da irmã mais velha que cresce contida pela atenção que a família precisa dar ao irmão mais novo.

Mas a história é alicerçada em outros personagens juvenis importantes que não correspondem da mesma forma que o casal de irmãos. E, nessa oscilação, o público se perde entre o melodrama intenso da vida de Auggie e sua família e uma história tipicamente infantil temperada com pouco sal. A unidimensionalidade se revela até na cinematografia de Chbosky, que “achata” seus planos com uma iluminação excessiva sobre personagens e cenário, o que não ajuda o espectador a encontrar alguma interpretação que não seja exclusivamente a da historinha vivida pelo menino especial.

Em resumo, Extraordinário é garantia de comoção, apesar de suas falhas notáveis. E essa parece ser mesmo a razão de existir do filme, embora custe um pedaço do prestígio amealhado por seu diretor. Pelo menos a quem esteja julgando seu trabalho pelo número de estrelas e não de lenços.

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