MON encanta com exposição de documentos cartográficos históricos

Mapa: “representação da Terra ou parte dela”, decreta a maioria dos dicionários. Para Agnaldo Farias, curador do Museu Oscar Niemeyer (MON), essa definição é pobre. E a exposição “A vastidão dos mapas”, em exibição no MON até o dia 6 de agosto, é uma tentativa de ampliar esse conceito, a partir de documentos históricos do acervo da Coleção Santander Brasil e suas “paródias”.
No centro dos corredores da chamada “sala 4” do MON pulsam, no coração da amostra, obras dos séculos XVI ao XVIII, com sua visão distorcida do mundo de então, o medo estampado do finis terrae e dos povos “bárbaros” das Américas, retratados entre os rios e pequenas montanhas em atos de antropofagia ou afiando seus instrumentos de caça. Ao redor desse espaço central começam as ironias contemporâneas: uma espécie de troça do homem de hoje da visão dos séculos passados, com a nostalgia da inocência do que viria depois.
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Ao chegar, ainda longe desse “coração” da Idade Moderna, o visitante é provocado com um mapa múndi vermelho, de três metros de altura e de ponta-cabeça. Ao seu lado, os continentes estão tombados sob o peso de uma série de dados, símbolo dos jogos de azar. A artista paranaense Carla Vendrami (1962-2009) parece mostrar o quanto esses territórios são reféns de forças não controladas por eles.
A antessala continua com o reconfortante mapa redondo de quase três metros de diâmetro de Cristina Barroso, que sobrepõe mapas celestes sobre a cidade de Berlim, um alívio após a experiência reflexiva da obra de Vendrami. Mas o consolo para aí – e só volta ao chegar à parte central da amostra.
Uma série de obras que mapeiam não só territórios, mas as dores, os paraísos fiscais, a nostalgia, a corrupção e os afetos humanos, vem em seguida. As reproduções de mapas deformadas por Nelson Leirner com adesivos das “meninas poderosas” sobre a Rússia, figuras de Mickey Mouse nos Estados Unidos, “papais noéis” nos polos e caveiras “mexicanas” são uma crítica ferrenha às políticas mundiais das últimas décadas. E, talvez, as imagens mais chocantes pelo significado são a de corpos “sarados” etiquetados com conflitos mundiais em cores psicodélicas, de Alex Flemming. “Eles lembram os personagens da poesia ‘inocentes do Leblon’, de Carlos Drummond de Andrade, jovens na praia que não sabem que o mundo está acabando”, exemplifica Farias. E ainda mais chocante é o mapa feito na pele pelo artista Rafael Assef, entre 16 e 27 anos, dos seus percursos no período – retratado em uma imagem de 1,5 de altura.
A parte dos “portulanos”, das antigas e estratégicas gravuras topográficas em metal ou aquareladas, é a que demanda mais atenção aos detalhes de cada obra. Um desavisado pode passar sem perceber os desenhos esmiuçados de esquadras de navios, das planícies e regiões montanhosas, dos personagens entre índios, negros, anjos, desbravadores e animais. E também desprezar as explicações em latim, frases de um homem que reproduz para entender e reter não apenas uma extensão de terra, mas a si mesmo.
“Mapear lida com a imaginação. Existe o dado tangível, que vem misturado com aquilo que achamos que tem lá. Tudo isso alimenta a alma e corresponde à nossa tentativa constante de entender o mundo”, resume Farias.
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