Caetano Veloso não quer que suas canções se tornem panfletos

Caetano Veloso volta ao palco do Teatro Guaíra ao lado de Teresa Cristina, na próxima sexta-feira (09). Juntos, os dois apresentam um projeto em que cantam sambas clássicos do Cartola (1980) e sucessos do baiano. A turnê, batizada de “Caetano Apresenta Teresa”, marca o primeiro projeto internacional dos artistas reunidos e ainda tem ingressos à venda.
Os dois ficaram amigos quando o baiano estava fazendo o disco “Zii e Zie”. Ela tinha gravado o samba “Gema” no seu álbum daquela época. Caetano tinha adorado e chamou a cantora para cantar com ele. “No ensaio, fiquei maravilhado com o conhecimento que ela tinha da minha obra. E da de outros colegas meus. E da tradição brasileira. E da música internacional. Ficamos amigos”. Agora, quando ela ia fazer o show com músicas de Cartola, os dois tiveram uma conversa sobre ela se entregar mais emocionalmente às canções. “Era só um papo. Quando fui ver o show, fiquei impressionado ao ver que ela tinha entendido tudo o que eu disse e tinha posto em prática de forma além do que eu poderia esperar. Eu quis contribuir para divulgar isso internacionalmente”.
Para Caetano, que reconhece que a música desempenha um papel nos gestos políticos da sociedade, Cartola é o Brasil e está no âmago da verdade do povo brasileiro. “Seu ressurgimento nos anos 1960 e a aparição do seu primeiro disco nos anos 1970 foram acontecimentos de grande significado político, na esteira da resistência cultural à ditadura”, disse.
Setlist
A primeira decisão de Caetano foi a de cantar canções que não estivessem no show com Gilberto Gil, em “Dois Amigos, Um Século de Música”. “Pensei que todas as músicas relevantes estavam naquele show. Mas, em casa, peguei o violão e fui achando outras, também historicamente fortes (e não apenas por serem conhecidas do público), e organizei o repertório. O curioso é que algumas das canções me agradaram muito mais do que eu imaginava”, diz.
O cantor diz que o show precisa fazer sentido para ele. Tem que ter estrutura, ritmo e dinâmica. Ser quase uma dramaturgia. “Esse não foge à regra. É um show simples, eu e meu violão, mas é este show, não é qualquer show. O grau de popularidade das canções entra como elemento da composição do espetáculo. Mas não de modo convencional. Há ironias, teimosias, surpresas e novidades. Eu provoco e me imponho”.
Música e política
O baiano não deseja que suas canções se tornem panfletos. “Quando tenho oportunidade, declaro minhas preferências políticas. O que aparece nas letras das canções tem papel político ainda mais indireto”, fala. Atualmente, ele enxerga uma politização exacerbada, ainda que quase só expressa na polarização entre anti-petistas e aqueles que são contra eles. Para ele, os cantores estão, como sempre, frequentemente em comícios, passeatas, palanques e carros de som. Ou falando de política nos jornais e na TV. “Desde 2013, Lobão subiu em trios elétricos contra Dilma. Eu subi agora, a favor de Freixo e contra Temer. Muitos colegas meus cantaram e pediram eleições diretas diante de grandes multidões”, fala.
Como pretexto de entretenimento a música também tem um papel importante a ser desempenhado. Vários sambas e marchas feitos só para se dançar no carnaval trazem mensagens sobre questões sociais, políticas, comportamentais e existenciais. “Para que eram feitos os concertos sérios dos séculos 18 e 19? O que diz uma peça orquestral? O violão de Baden Powell era de esquerda ou de direita? Contra ou a favor de Juscelino ou Jango? O papel da música não pode ser entendido por supostas opiniões explicitadas nas letras das canções. É algo mais complexo, mais sutil e mais profundo”, diz.
Música brasileira e o exterior
Segundo Caetano, o público internacional só consumiu música brasileira com voracidade em episódios isolados. Quando Carmen Miranda estourou na Broadway, depois, em Hollywood; quando a "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso se tornou um tema globalmente conhecido, traduzido, cantado e admirado; quando a "Garota de Ipanema" virou a música mais tocada do mundo, mesmo com os Beatles já estourados; quando Sergio Mendes explodiu com o Brazill 66 tocando o "Mas que nada" de Jorge Ben; quando a lambada virou mania mundial com o grupo "Kaoma" cantando "Chorando se foi". Sem falar em sucessos restritos à América Latina, como o de Roberto Carlos, o de Nelson Ned ou o de Alexandre Pires. Ou setoriais, como o caso do Sepultura no mundo do heavy metal.
“O que se mostrou duradouro e estável foi o interesse despertado pela música brasileira de qualidade que começou com a descoberta, por músicos americanos, da bossa nova e João Gilberto e Tom Jobim, para além do sucesso popular de "Garota de Ipanema"”, explica. Para ele, a partir dessas entradas a música popular feita no Brasil nunca mais saiu do cartaz nos festivais de verão europeus, passou a encantar os japoneses e a estar presente nos palcos e estúdios norte-americanos. Mais recentemente, e com o devido retardo, cresceu o interesse de pessoas assim pelo tropicalismo.
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