Shows

Caetano Veloso não quer que suas canções se tornem panfletos

·4 min de leitura·Bruna Covacci
Caetano Veloso não quer que suas canções se tornem panfletos

Caetano Veloso volta ao palco do Teatro Guaíra ao lado de Teresa Cristina, na próxima sexta-feira (09). Juntos, os dois apresentam um projeto em que cantam sambas clássicos do Cartola (1980) e sucessos do baiano. A turnê, batizada de “Caetano Apresenta Teresa”, marca o primeiro projeto internacional dos artistas reunidos e ainda tem ingressos à venda.

Os dois ficaram amigos quando o baiano estava fazendo o disco “Zii e Zie”. Ela tinha gravado o samba “Gema” no seu álbum daquela época. Caetano tinha adorado e chamou a cantora para cantar com ele. “No ensaio, fiquei maravilhado com o conhecimento que ela tinha da minha obra. E da de outros colegas meus. E da tradição brasileira. E da música internacional. Ficamos amigos”. Agora, quando ela ia fazer o show com músicas de Cartola, os dois tiveram uma conversa sobre ela se entregar mais emocionalmente às canções. “Era só um papo. Quando fui ver o show, fiquei impressionado ao ver que ela tinha entendido tudo o que eu disse e tinha posto em prática de forma além do que eu poderia esperar. Eu quis contribuir para divulgar isso internacionalmente”.

Para Caetano, que reconhece que a música desempenha um papel nos gestos políticos da sociedade, Cartola é o Brasil e está no âmago da verdade do povo brasileiro. “Seu ressurgimento nos anos 1960 e a aparição do seu primeiro disco nos anos 1970 foram acontecimentos de grande significado político, na esteira da resistência cultural à ditadura”, disse.

Setlist

A primeira decisão de Caetano foi a de cantar canções que não estivessem no show com Gilberto Gil, em “Dois Amigos, Um Século de Música”. “Pensei que todas as músicas relevantes estavam naquele show. Mas, em casa, peguei o violão e fui achando outras, também historicamente fortes (e não apenas por serem conhecidas do público), e organizei o repertório. O curioso é que algumas das canções me agradaram muito mais do que eu imaginava”, diz.

O cantor diz que o show precisa fazer sentido para ele. Tem que ter estrutura, ritmo e dinâmica. Ser quase uma dramaturgia. “Esse não foge à regra. É um show simples, eu e meu violão, mas é este show, não é qualquer show. O grau de popularidade das canções entra como elemento da composição do espetáculo. Mas não de modo convencional. Há ironias, teimosias, surpresas e novidades. Eu provoco e me imponho”.

Música e política

O baiano não deseja que suas canções se tornem panfletos. “Quando tenho oportunidade, declaro minhas preferências políticas. O que aparece nas letras das canções tem papel político ainda mais indireto”, fala. Atualmente, ele enxerga uma politização exacerbada, ainda que quase só expressa na polarização entre anti-petistas e aqueles que são contra eles. Para ele, os cantores estão, como sempre, frequentemente em comícios, passeatas, palanques e carros de som. Ou falando de política nos jornais e na TV. “Desde 2013, Lobão subiu em trios elétricos contra Dilma. Eu subi agora, a favor de Freixo e contra Temer. Muitos colegas meus cantaram e pediram eleições diretas diante de grandes multidões”, fala.

Como pretexto de entretenimento a música também tem um papel importante a ser desempenhado. Vários sambas e marchas feitos só para se dançar no carnaval trazem mensagens sobre questões sociais, políticas, comportamentais e existenciais. “Para que eram feitos os concertos sérios dos séculos 18 e 19? O que diz uma peça orquestral? O violão de Baden Powell era de esquerda ou de direita? Contra ou a favor de Juscelino ou Jango? O papel da música não pode ser entendido por supostas opiniões explicitadas nas letras das canções. É algo mais complexo, mais sutil e mais profundo”, diz.

Música brasileira e o exterior

Segundo Caetano, o público internacional só consumiu música brasileira com voracidade em episódios isolados. Quando Carmen Miranda estourou na Broadway, depois, em Hollywood; quando a "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso se tornou um tema globalmente conhecido, traduzido, cantado e admirado; quando a "Garota de Ipanema" virou a música mais tocada do mundo, mesmo com os Beatles já estourados; quando Sergio Mendes explodiu com o Brazill 66 tocando o "Mas que nada" de Jorge Ben; quando a lambada virou mania mundial com o grupo "Kaoma" cantando "Chorando se foi". Sem falar em sucessos restritos à América Latina, como o de Roberto Carlos, o de Nelson Ned ou o de Alexandre Pires. Ou setoriais, como o caso do Sepultura no mundo do heavy metal.

“O que se mostrou duradouro e estável foi o interesse despertado pela música brasileira de qualidade que começou com a descoberta, por músicos americanos, da bossa nova e João Gilberto e Tom Jobim, para além do sucesso popular de "Garota de Ipanema"”, explica. Para ele, a partir dessas entradas a música popular feita no Brasil nunca mais saiu do cartaz nos festivais de verão europeus, passou a encantar os japoneses e a estar presente nos palcos e estúdios norte-americanos. Mais recentemente, e com o devido retardo, cresceu o interesse de pessoas assim pelo tropicalismo.

Curitiba sai mais barata com o Clube

Centenas de parceiros na cidade, do restaurante ao cinema. O desconto é usado direto pelo app.

Assinar o Clube Gazeta
B
Bruna Covacci
O amigo que sempre sabe o lugar bom em Curitiba.
Assine o Clube Gazeta
descontos na cidade inteira
Assinar