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"Quem é preto só pode ser otimista desde que nasce", diz Emicida que canta em Curitiba

·3 min de leitura·Sandro Moser
"Quem é preto só pode ser otimista desde que nasce", diz Emicida que canta em Curitiba

“Eu sou preto. E quem é preto só pode ser otimista desde que nasce. Não tem alternativa. Quando eu parar de acreditar, tenho que pular dentro da vala também.” A frase foi dita pelo rapper em entrevista exclusiva ao Guia Gazeta do Povo. O músico se apresenta em Curitiba nesta sexta-feira (26). Ainda há ingressos disponíveis por R$ 60 (estudantes pagam meia).

Antes de falar do show que fará na Ópera de Arame, às 21h, Emicida falou sobre o caos na política do país. “Não é nada que a gente já não soubesse. O problema é mais profundo do que escolher um entre os caras que nunca ficaram longe do poder”.

Além de falar sobre política, o músico contou sobre a turnê que passa pela primeira vez no palco de um teatro em Curitiba. Emicida estará acompanhado de sua banda completa e terá participação especial da rapper portuguesa Capicua. O show é resultado do álbum “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, o segundo lançado, em 2015, pelo rapper, após uma viagem à Angola e Cabo Verde.

Para ele, o show sofreu uma “série de mutações” desde que foi para a estrada. “No começo, a gente tinha uma necessidade de expor o repertório. Com o tempo, o show foi evoluindo. Já tem música nova no meio da parada e virou outra coisa. E claro que também tem a música que nasce na hora, junto com quem está ali comigo e isto sempre é o mais especial pra mim”.

O álbum foi eleito um dos melhores do ano de 2015 por unir qualidade musical a um discurso pesado sobre as semelhanças, para o bem e para o mal, do Brasil com a África.

“Este disco é diferente. Não é sobre o estereótipo da pessoa preta no Brasil. E sobre possibilidades, tá ligado? A palavra mais importante do disco é o diálogo. A capacidade de conectar de refletir de uma maneira gigante com toda a humanidade”, diz.

A viagem à África foi muito marcante para o rapper. Serviu para confirmar impressões que ele já tinha e ampliar outras. “Quando você viaja, você entende que o mundo é só várias quebradas, encostadas umas nas outras”. Emicida observa que a maior parte das pessoas vive em condições longe das ideais e este é um dos maiores fatores de união dos povos, mas não o único.

Mainstream

Aos 31 anos e com status de maior referência do rap para a sua geração, Emicida tem uma ideia própria sobre a ascensão do rap do underground mais profundo ao mainstream. Um movimento que ele reconhece estar acontecendo no país, mas de um jeito diferente do que ocorreu nos Estados Unidos (berço do gênero) na virada do século.

“A indústria dos EUA é diferente. Aqui me parece que o caldeirão cultural é mais rico, mais denso. No Brasil é difícil que o hip hop seja gueto. É inevitável que ele se conecte com toda a cultura e redefina a MPB como está acontecendo”.

Para ele, mais importante do que se tornar conhecido, fazer shows para cada vez mais pessoas ou gravar e se apresentar com equipamentos em melhores condições, é a mudança de patamar do rap para um valor social maior.

“O melhor disso tudo é que a gente está surgindo com um grupo de valores não só artísticos, mas mercadológicos e políticos para que um dia chegue à cabeça de muitas pessoas uma música e uma arte que tenham o que dizer”.  

“Karol Conka é a felicidade sem culpa”

Emicida conta que tem uma relação muito próxima com a cena do rap curitibano. “Alguns dos maiores beatmakers do país vieram daí. A cidade participou ativamente desta ascensão do rap”. E manda só elogios quando menciona a rapper curitibana Karol Conka. “A Karol é um orgulho brasileiro. Ela é a felicidade sem culpa. Imagina o quão grande ela teve que ser pra se assumir mulher preta, bonita e com o talento que ela tem. O hip hop precisa disso, precisa dela”.

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