Filmes

Em Jogador N.º 1, Spielberg retorna ao estilo fantástico que o consagrou

·8 min de leitura·Ricardo Sabbag Zipperer
Em Jogador N.º 1, Spielberg retorna ao estilo fantástico que o consagrou

Pouca gente presta atenção ao que se passa na tela do cinema entre os trailers e os créditos iniciais do filme. São as pequenas animações que identificam o estúdio e as produtoras e distribuidoras que realizaram a obra. O símbolo da Amblin Entertainment, produtora fundada pelo cineasta Steven Spielberg, entretanto, não passa incólume. Ao se avistar a silhueta do menino voando em uma bicicleta, com uma criatura no cesto, é impossível não se lembrar de E.T. – O Extraterrestre, filme mais importante da carreira de Spielberg.

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E.T. não é somente o mais icônico filme da prolífica carreira do diretor. É, também, o que melhor representa um dos gêneros mais caros ao diretor americano, o cinema de fantasia. Os Caçadores da Arca Perdida, Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, As Aventuras de Tintim são algumas das obras que melhor representam a familiaridade de Spielberg com a temática. Sucessos de bilheteria que agradam públicos de todas as idades.

Depois de concorrer recentemente ao Oscar com o realista The Post: A Guerra Secreta – jocosamente chamado de “o filme com as melhores perucas de Meryl Streep e Tom Hanks” –, Spielberg retoma o gênero fantástico com o lançamento de Jogador N.º 1, adaptação do livro de sucesso de Ernest Cline. É uma história de ficção científica ambientada no ano de 2045, quando o mundo está mergulhado numa crise econômica e energética e boa parte da superpopulação da Terra gasta sua vida no Oásis, um imenso ambiente virtual que funciona como uma espécie de MMORPG (sigla em inglês para Massive Multiplayer Online Role Playing Game), ou, simplificando, um jogo de RPG na internet para múltiplos jogadores.

Second Life

O Oásis de Jogador N.º 1 lembra bastante o Second Life, ambiente virtual criado pela empresa americana Linden Labs em 1999 e que foi febre nos anos 2000. Assim como no Second Life, os usuários do Oásis também encarnam um avatar para circular pelo universo virtual e se chamam por seus apelidos, ou gamer tags na linguagem dos iniciados. Mas, ao contrário do Second Life, que só existia na tela dos computadores, o Oásis é um ambiente experimentado em realidade virtual profunda. Para adentrá-lo, seus usuários vestem, além de óculos de realidade virtual, um traje que simula sensações táteis e caminham sobre uma esteira que permite a simulação de movimento pelo espaço.

A tecnologia em Jogador N.º 1 não é muito distante da disponível hoje. Além dos óculos de realidade virtual, drones circulam livremente pelas cidades e as pessoas vivem mergulhadas em seus Oásis particulares – não muito longe de quem passa o dia com os olhos grudados na tela do smartphone. A diferença é mesmo a dimensão do mundo virtual. Com espaços do tamanho de planetas, o Oásis, como sugere o nome, é a maior válvula de escape da população deprimida da Terra.

As regras de socialização dentro do Oásis também não são diferentes das dos MMORPGs existentes hoje – como League of Legends, por exemplo. Os usuários criam seus avatares com a aparência que desejam, organizam-se em clãs e gastam seu tempo cumprindo missões que oferecem alguma recompensa. Com isso, acumulam moeda virtual para trocar por outros itens dentro do próprio ambiente – os que “morrem” em batalhas ou competições simplesmente perdem tudo que acumularam e voltam do zero.

Assim, familiarizados aos costumes das comunidades de jogos virtuais, os protagonistas de Jogador N.º 1 comportam-se como tais: criam para seus avatares figuras inspiradas em universos de fantasia e chamam-se por seus apelidos – no caso, Parzival (Tye Sheridan), Art3mis (Olivia Cook) e Aech (Lena Waithe). Relacionam-se somente no mundo virtual e lá participam de aventuras que os permitem… juntar mais recursos para continuar vivendo na virtualidade.

Animação

Jogador N.º 1 é um filme em live action, ou seja, tem atores humanos representando papeis. No entanto, como a maior parte da ação da história transcorre dentro do Oásis, o filme é feito mais de animação por computador do que por cenas captadas por câmeras. É uma animação de qualidade, mas, ainda assim, uma animação. Nela é possível reconhecer as feições dos atores e suas vozes em cada um de seus avatares, mas isso não elimina a estética que se assemelha a cutscenes de jogos de videogame – trechos dos jogos em que o jogador não joga, apenas assiste a uma cena, que normalmente faz a transição entre fases ou sequências.

As maiores contribuições de Spielberg, aliás, se dão nas cenas de ação que transcorrem dentro do Oásis. Num mundo com regras e física própria, e que mistura figuras que vão da idade média ao combate espacial, cabe ao diretor criar uma lógica e transpor isso para a tela de maneira divertida – o que faz muito bem. A primeira dessas sequências, uma corrida alucinante que tem como prêmio uma das chaves que dá acesso a um easter egg (falaremos adiante sobre), é especialmente bem feita. Chega a lembrar o Spielberg de Encurralado, um dos primeiros longas do diretor, de 1971.

Referências

O universo dos games, como pode se perceber, é a maior referência de Jogador N.º 1. Mas falar de videogames genericamente é reduzir a importância de como a cultura gamer faz parte da essência do filme. A começar pelo mais importante artefato da narrativa – o easter egg implantado na Oásis pelo seu criador, James Halliday (Mark Rylance). Halliday é uma espécie de amálgama entre Steve Jobs e Steve Wozniak, os criadores da Apple. Ou talvez ele seja a representação do que aconteceria se Wozniak, o cara dos computadores, tivesse se tornado o rosto da Apple, e não Jobs, o cara do marketing.

Enfim. Halliday, um herói do mundo em 2045, implantou na Oásis um easter egg. Um easter egg (ovo de páscoa, na tradução literal) é um segredo escondido em um sistema virtual, seja um jogo, um filme ou mesmo uma canção. Experimente digitar a frase “do a barrel roll” no Google para ver o que acontece. Bingo: aí está um easter egg escondido pelos programadores do buscador.

Easter eggs são comuns nos videogames desde o início de sua história. Inicialmente, foi uma forma encontrada pelos programadores dos jogos para dar crédito a seus nomes, numa época em que esses profissionais não eram reconhecidos pela sua contribuição criativa. Depois, se tornaram quase uma tradição. É difícil uma série importante de videogame não ter escondido alguns desses “ovos” ao longo da brincadeira. O easter egg virou uma instituição da cultura pop (alguém se lembra do escudo do Capitão América escondido no laboratório de Tony Stark no primeiro Homem de Ferro?).

No filme, a identidade secreta de Parzival é Wade Watts (nome com aliteração proposital, como de super-heróis: Peter Parker, Clark Kent), um jovem que vive com a tia numa espécie de favela moderna em Columbus, nos EUA. Wade/Parzival passa a maior parte de seu tempo imerso no Oásis tentando encontrar o easter egg de Halliday, que promete fortuna e o controle do universo virtual. Mas, além dele, outros também perseguem o mesmo objetivo, incluindo o antagonista da história, a megacorporação IOI, que mobiliza verdadeiros exércitos para encontrar o artefato e assumir o controle do Oásis.

O que separa Parzival da concorrência é que ele, além de grande entendedor da cultura pop, é fascinado pela história de Halliday e parece entender como o mentor do Oásis pensava. E isso acabará abrindo portas para ele (e atraindo a atenção dos demais competidores).

Pop, pop, pop

A cultura pop é, em essência, o grande conjunto de referências de Jogador N.º 1. São tantas referências que o filme consegue agradar do maior nerd dos games ao amante da filmografia de John Hughes (como é o nome da escola em que estuda Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado?). Vai de “Jump”, música de Van Halen que aparece no começo do filme, ao Gigante de Ferro, importante animação dos anos 90. Vai de um pequeno bottom com o símbolo de Mortal Kombat usado por um dos personagens à recriação do hotel de O Iluminado, filme de Stanley Kubrick (e que grande homenagem ao diretor que Spielberg . É impossível que alguém que tenha vivido na década de 80 ou 90 não encontrar vários easter eggs escondidos em Jogador N.º 1. Mas certamente não encontrará todos. Como um bom game, Jogador N.º 1 pede para ser assistido uma segunda (ou terceira, quarta) vez, para se encontrar outros ovos de páscoa escondidos nas cenas.

Vantagem, também, que a adaptação do romance de Ernest Cline tenha se dado pela Warner Bros., detentora dos direitos de personagens como Batman, King Kong e Godzilla. Todos aparecem e se relacionam de alguma forma. Para um certo tipo de fã, presenciar um combate entre Godzilla e o Gigante de Ferro provoca um tipo de satisfação poucas vezes encontradas no cinema. Spielberg não é Guillermo del Toro, Kevin Smith, Zack Snyder – nomes da indústria cinematográfica conhecidos por sua enorme paixão e reverência à cultura pop. Mas, ainda assim, parece que ele conseguiu aliar este imenso conjunto de referências à sua inquestionável capacidade técnica de fazer um bom filme.

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