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Charles Duhigg: “Há uma diferença entre ser ocupado e ser produtivo”

·5 min de leitura·Yuri Al’Hanati, especial para a Gazeta do Povo
Charles Duhigg: “Há uma diferença entre ser ocupado e ser produtivo”

Desvendar o comportamento humano parece ser o fascínio do jornalista Charles Duhigg. Colaborador do New York Times, vencedor do Prêmio Pulitzer – o mais importante do jornalismo – e autor de dois livros sobre o assunto, “O Poder do Hábito” (2012) e “Mais Rápido e Melhor” (2016), ambos lançados no Brasil pela editora Objetiva, o norte-americano diz que quer agora estudar as mudanças na economia mundial. Algo que, segundo ele, tem uma relação direta com a produtividade dos países. “A Coreia do Sul tem um alto padrão de produtividade porque há um esforço por parte do país em promover uma sociedade produtiva. Isso tem um impacto na economia”, disse o escritor em entrevista exclusiva para a Gazeta do Povo.

Duhigg, que é convidado da Bienal do Livro do Rio de Janeiro desse ano e vem a Curitiba para encontro com os leitores na Livrarias Curitiba na próxima terça-feira (12), explora seus temas a partir da observação de “cases de sucesso”, como o do capitão Chelsey “Sully” Sullenberger que, graças a um planejamento antecipado de cenários desastrosos, pôde tomar as decisões corretas para salvar todos a bordo do voo 1549 que pousou no rio Hudson, em Nova York em 2010. Métodos para gerenciar crises, estabelecer prioridades e pensar mais produtivamente são alguns dos temas que ele aborda em seus artigos. Tanto para ser mais produtivo quanto para mudar, hábitos, porém, ele defende acima de tudo a observação. “Se você cria hábitos, você pensa mais profundamente sobre as escolhas que você faz. E você se torna mais produtivo, porque há uma diferença entre ser ocupado e ser produtivo”, afirma.

Em “O Poder do Hábito”, você explorou a mudança de comportamento das pessoas. Em “Mais Rápido e Melhor”, estudou a eficácia de se estabelecer um método de produtividade em diferentes situações. No que está pensando em trabalhar agora?
Estou pensando nisso nesse exato momento. Quero tentar explicar as mudanças que aconteceram no mundo todo nos últimos 20 anos. É inegável que houve mudanças significativas na economia de diversos países. Sei que a economia do Brasil oscilou drasticamente nesse período. Mas ainda não sei como vou fazer isso e nem por qual viés vou buscar explicar essas mudanças. É apenas algo que tem ocupado minha mente.

Você acredita que existe uma ligação direta entre a economia e a questão da produtividade abordada em seu último livro?
Sim. A Coreia do Sul tem um alto padrão de produtividade porque há um esforço por parte do país em promover uma sociedade produtiva, por meio de investimentos em educação e infraestrutura. Isso tem uma consequência direta na economia do país.

Com relação à produtividade, qual é a importância do tempo livre e como diferenciar o ócio criativo da preguiça pura e simples?
A questão com a produtividade é que se você trabalha demais, você pode acabar esgotado mentalmente, então é necessário tirar um tempo para você mesmo, para recuperar essa capacidade mental. É uma ideia simples e, muitas vezes, esquecida. Mas acredito que todo mundo, no fundo, sabe diferenciar o ócio desse descanso indispensável.

Quando escreveu “O Poder do Hábito”, você contou que aplicou algumas mudanças na sua vida, como perder peso e começar a correr regularmente. O que escrever “Mais Rápido e Melhor” lhe ensinou?
Ensinou-me a pensar mais profundamente. Se você cria hábitos, você pensa mais profundamente sobre as escolhas que você faz. E você se torna mais produtivo, porque há uma diferença entre ser ocupado e ser produtivo. E para ser produtivo é preciso focar em fazer as coisas que têm significado, que são importantes.

Por exemplo.
Agora eu faço as minhas listas de tarefas de modo diferente. Eu costumava fazer uma lista longa de tudo o que eu queria fazer. Mas quando você tem uma lista com tudo, sem prioridades, você tende a fazer o que é mais fácil primeiro. O cérebro tem essa necessidade de começar pelo que é mais fácil, mas o mais fácil pode não ser o mais importante. Então agora eu reduzo a minha lista. Todo dia eu faço uma lista com apenas três itens, e para isso eu elenco o que é mais importante para mim completar naquele dia. Dessa maneira eu abordo minhas metas com mais objetividade.

Em “O Poder do Hábito”, você explica o ciclo que envolve um comportamento – a deixa, que leva ao hábito, que leva à recompensa, que leva a uma repetição da deixa. Como identificar um vício nesse processo?
Uma coisa que nós sabemos hoje em dia é que o vício é uma disfunção do hábito. O vício ativa a mesma parte do cérebro que o hábito. Portanto é muito comum que um hábito ruim funcione como um vício. De forma que uma maneira conhecida de se combater um vício é observar os hábitos que o desencadeia e substitui-los por outros hábitos mais saudáveis.

Recentemente, um vídeo viralizou ao retomar as conclusões do Rat Park, um experimento da década de 1970 com camundongos que sugeriu que a recompensa ao uso abusivo de drogas estava mais relacionada com a substituição das conexões interpessoais do que com a química cerebral das substâncias propriamente ditas. É difícil identificar os elementos desse ciclo?
É preciso prestar atenção para identificar corretamente. Se uma pessoa come um biscoito toda tarde, é porque está com fome, porque quer algo doce ou porque quer dar um tempo no trabalho? O que é sugerido é fazer pequenos experimentos com comportamentos similares para identificar qual é a recompensa buscada por esse desejo, e, a partir desse diagnóstico, empreender as mudanças necessárias.

O hábito ou a recompensa, nesse sentido, podem ter um prazo de validade e não serem tão recompensadores assim?
Bom, hábitos não envelhecem, esse é o conceito de hábito – eles são feitos de maneira semiautomática. Mas recompensas sim. Então é algo a se observar: as recompensas que eu obtenho com tal hábito ainda são recompensadoras? O que geralmente acontece com o tempo é que as recompensas passam de algo externo, como algo que você come, para algo interno, como neurotransmissores no cérebro ou uma sensação de orgulho que você possa sentir com o seu hábito. Então é importante buscar sempre se sentir motivado a buscar aquele hábito. É isso que procuro explicar no livro.

Serviço
Bate-papo e sessão de autógrafos com Charles Duhigg
Dia 12, às 19h30
Entrada franca

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Yuri Al’Hanati, especial para a Gazeta do Povo
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