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Com bailarinos sujos de lama, “Cão Sem Plumas” de Deborah Colker volta ao Guaíra

·2 min de leitura·Bruna Covacci
Com bailarinos sujos de lama, “Cão Sem Plumas” de Deborah Colker volta ao Guaíra

Numa conversa por telefone, Deborah Colker repetiu insistentes vezes a palavra “espesso”. Diz ela que foi João Cabral de Melo Neto quem teria a ensinado o seu significado, justamente com o poema “Cão Sem Plumas”, publicado nos anos 1950, que leva nome do espetáculo que chega ao teatro Guaíra pela segunda vez, no sábado (20). Os ingressos custam R$ 75 (inteira) e R$ 37,50 (meia Clube Gazeta do Povo). Só restam entradas para o segundo balcão.

“É um poema atemporal, parece que foi escrito “amanhã”. É universal, não fala só sobre o Capibaribe, fala de todos os rios e de pessoas que vivem à margem”, diz. A viscosidade dos mangues aparece em todos os detalhes: nos bailarinos enlameados, nas projeções cinematográficas, na coreografia e na música.

É a segunda vez que a montagem de 2017 vem para a capital paranaense, agora, segundo Deborah, muito mais madura depois da temporada internacional. “É um espetáculo sobre aquilo que é inadmissível. É um grito silencioso e delicado”, diz.

Depois de uma pesquisa árdua, esse trabalho foi o primeiro que levou Deborah e toda companhia a uma residência. “A gente passou dois anos estudando o poema, lendo, falando com professores catedráticos em João Cabral… Mas conhecer aquelas pessoas, sentir a terra craquelada e seca fez tudo mudar”, falou. Eles estavam com o espetáculo quase todo pronto, mas a viagem fez mudar cerca de 70% da produção.

Segundo ela, foi possível sentir tudo na pele junto à chuva que não vem. “É orgânico e espesso”. Foi lá que o ciclo criativo foi finalizado e que se construiu o “homem-caranguejo” e o “caranguejo-homem”.

Foram três semanas em cinco cidades que margeiam o rio pernambucano, dando oficina de danças às comunidades e conhecendo os elementos da cultura local. 

No palco

Os bailarinos lembram caranguejos: tronco curvado, braços tortos e se movimentam formando um corpo só. A coreografia tem influências regionalistas, com fortes batidas dos pés e também estrangeiras, com o africano kuduro. Tem manguebeat, com a trilha sonora de Jorge du Peixe, vocalista do Nação Zumbi, com participação do Lirinha.

"O poema é triste, cru, árido, cruel e o espetáculo mantém este tom segundo Deborah. “Não tinha como fugir disso, esse espetáculo é um soco no estômago e eu sei disso. Mas também mostra a força e a exuberância desta aridez, desta crueldade e dessa crueza. Esse espetáculo constrói um guerreiro: que luta, teimoso, e que segue a vida”. As projeções mostram o guerreiro, os bailarinos pequenos no palco são gigantes na tela.

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