Bom momento do cinema nacional atrai recorde de público para salas

Quem costuma frequentar as salas de cinema deve ter observado um movimento diferente na programação há algumas semanas. Desde agosto, em meio às costumeiras produções de Hollywood, há uma quantidade significativa de filmes brasileiros em cartaz. E o melhor: as opções estão longe de se resumir a comédias estreladas por astros de novelas e humorísticos, o grande filão do cinema nacional. Há alternativas para todos os gostos, desde documentário até ficção científica, entre grandes produções e obras alternativas.
Nesta semana, estão em exibição nos cinemas de Curitiba nada menos que 11 filmes brasileiros. Entre as produções que passaram ou continuam em cartaz aparecem comédias de apelo popular como Uma Quase Dupla, com Cauã Reymond e Tatá Werneck; Abrindo o Armário, de Dario Menezes e Luis Abramo, sobre o movimento gay, o suspense O Banquete, de Daniela Thomas, a ficção científica O Homem que Parou o Tempo, de Hilnando SM, e o drama curitibano Ferrugem, de Aly Muritiba.
Produtores ouvidos pela Gazeta do Povo concordam que o momento é peculiar, não apenas pela quantidade de filmes nacionais lançados nas salas de cinema, mas, principalmente, pela qualidade e diversidade das produções. Para entender esse fenômeno, é necessário considerar um conjunto de fatores, que incluem o calendário de lançamentos internacionais, a cota de tela (mecanismo que obriga os cinemas a exibir filmes nacionais) e as políticas de financiamento do audiovisual brasileiro.
Antônio Júnior é produtor da Grafo Audiovisual, empresa curitibana responsável por Ferrugem, de Aly Muritiba, que ganhou o prêmio de melhor filme no último Festival de Gramado. Para ele, a grande oferta de títulos nacionais é resultado de um trabalho que começou em 2011, quando foi instituído o Fundo Setorial do Audiovisual, destinado a financiar exclusivamente produtos culturais audiovisuais. “Graças ao Fundo Setorial, diretores estreantes ou em início de carreira puderam viabilizar seus filmes. Os resultados práticos começam a ser vistos agora”, diz.
Os números da Agência Nacional de Cinema (Ancine) comprovam: desde 2014, a quantidade de filmes lançados no Brasil só vem crescendo. Naquele ano, foram 114 produções nacionais, chegando a 160 no ano passado. A tendência é que a estatística seja novamente superada em 2018. Até 31 de agosto foram contabilizados 115 lançamentos nacionais, contra 102 no mesmo período do ano passado.
O problema é que, até alguns anos atrás, uma parcela expressiva dessa produção ficava restrita ao circuito de festivais e espaços alternativos, sem oportunidade de chegar ao grande público. Isso começou a mudar a partir de uma alteração nos editais do Fundo Setorial, disponibilizando recursos não apenas para a produção, mas também para a distribuição dos filmes. “Antes o pessoal fazia os filmes e, muitas vezes, não conseguia achar distribuidora. Com a mudança, tudo é planejado desde o início, o que resulta em filmes mais maduros e preparados. As distribuidoras passaram a se aliar com os produtores, fazendo com que os filmes cheguem com mais força ao mercado”, explica Antônio.
Brecha no calendário
Outro aspecto importante a considerar nesse boom do cinema nacional é o calendário. De janeiro até meados de abril, as salas de cinema são ocupadas pelos lançamentos internacionais de fim de ano, o que inclui vários blockbusters e os filmes que concorrem ao Oscar. Após um curto período de entressafra, em junho começam a chegar as novidades do verão norte-americano, que predominam até o fim de julho e começo de agosto. A partir daí, é hora dos brasileiros atacarem.
“Nossos filmes não têm oportunidade e condições financeiras para brigar com títulos que vão ocupar 800 salas e atrair um público grande. Essa época é quando a gente consegue mais janelas de exibição, ganhando atenção maior do público e da imprensa”, afirma Diana Moro, da produtora e distribuidora curitibana Moro Filmes. No mês passado, a companhia distribuiu o terror Virgens Acorrentadas, coprodução independente Brasil-Estados Unidos, dirigida pelo curitibano Paulo Biscaia Filho.
Acrescente-se a isso a cota de tela, mecanismo que assegura reserva de mercado à produção nacional. Conforme o número de salas, os complexos de cinema são obrigados a exibir uma quantidade mínima de filmes brasileiros ao longo do ano, sob pena de multa. “Quando chega o segundo semestre, a obrigatoriedade da cota começa a bater. Aí o exibidor precisa desesperadamente de filme brasileiro, o que abre o leque de oportunidades para a gente”, ressalta Diana. “É bom para todo mundo: para o exibidor, que faz sua parte, para o realizador, que exibe seu filme, e para o público, que tem mais opções.”
Reação do público
Como se percebe, no que diz respeito a chegar ao público o cinema nacional vem conseguindo cumprir sua função. Mas quanto aos espectadores, será que têm prestigiado as produções brasileiras? Mais uma vez, os números dão a resposta positiva. De acordo com a Ancine, até agosto os filmes nacionais alcançaram 19,1 milhões de espectadores, já superando o total de 2017, de 17,3 milhões. Além disso, a produção nacional apresenta um público 55,1% maior em relação ao ano passado, na contramão do mercado geral (filmes brasileiros e estrangeiros somados), que até o momento registra queda de 16% no comparativo com 2017.
O Paraná vai bem nesse cenário. Até agosto, foram exibidos no estado 80 produções nacionais, que levaram aos cinemas um público de 759 mil espectadores. É o sexto estado com mais público para o cinema brasileiro, perdendo apenas para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Curitiba, por sua vez, é a nona colocada no ranking de espectadores, somando um total de 332 mil.
Para Antônio Júnior, a análise positiva vai além das estatísticas de bilheteria. “O que nós temos hoje é uma pluralidade muito grande. Tem uma dezena de filmes em cartaz, mas são filmes completamente diferentes. O que diferencia o atual momento é exatamente essa diversidade. Isso é o que vai produzir um cinema pujante, em que cada filme se comunica com seu respectivo público”, acredita.
Essa diversidade de gêneros também é destacada por Diana Moro, que, com Virgens Acorrentadas, levou a diferentes partes do país um gênero ainda pouco popular na cinematografia nacional, o terror. “Até pouco tempo atrás a maioria dos filmes era de comédia, alguma coisa de policial, e os demais gêneros ficavam no cinema periférico”, avalia. Agora, até mesmo documentários estão ganhando força nas telas. “Acredito que os brasileiros estão voltando a se reencontrar na tela grande. No momento em que o mundo está voltado para a tela pequena, a gente está fazendo o caminho inverso.”
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