Bar Getúlio: um bar cheio de história de onde se vê Curitiba passar

Quem nunca se sentou na sacada do Bar Getúlio não conhece Curitiba. As quatro mesas de granito no espaço aberto ao público são o melhor posto de observação do epicentro da cidade, a Boca Maldita e arredores.
O Bar Getúlio fica na sobreloja do hotel Slaviero Slim Centro, o antigo Braz Hotel, na avenida Luiz Xavier. Hóspedes ou qualquer um do povo podem beber um bom café (R$ 7), uma cerveja Heineken (R$ 11) ou uma dose de uísque Logan (22) enquanto miram de cima o apuro dos transeuntes no calçadão de pedras portuguesas.
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Desde o final do ano passado, o Bar Getúlio também é um restaurante que funciona de segunda a sexta das 11h30 às 14h30 com um buffet (R$ 55,90, livre e R$ 36,90 o quilo) de comida internacional. Assinantes do Clube + Guia da Gazeta do Povo têm 20% de desconto.
O bar e o hotel foram fundados em 1941 pelo casal português Maria e Francisco Braz. Pela localização, arquitetura e atendimento, o Braz Hotel foi um dos mais importantes da capital entre décadas de 1940 e 1970. Durante a Copa do Mundo em 1950, recebeu a seleção da Espanha, que venceu a seleção dos Estados Unidos por 3 x 1 na Vila Capanema.
Era também destino comum de políticos que visitavam Curitiba. O nome do bar é uma homenagem ao mais ilustre visitante de suas instalações: o presidente Getúlio Vargas (1882-1954).
A galeria de fotos que se vê nas escadarias da entrada do hotel lembra as duas visitas do presidente que por ali passaram: em 1944 (como ditador nos estertores do regime do Estado Novo) e em 1953 (como presidente eleito, o “pai dos pobres”).
Nessa segunda visita, no dia 19 de dezembro, nas comemorações do centenário da emancipação política do Paraná, Getúlio discursou à multidão de um palanque montado usando a sacada do bar apoio.
Segundo o historiador Jair Elias dos Santos Junior, a visita ocorreu durante o auge da “onda verde dos cafeeiros”, o rico ciclo econômico responsável por modernizar a economia do Paraná e que teve seu auge a Festa do Centenário do Paraná e Exposição Internacional do Café, promovida pelo então governador Bento Munhoz da Rocha (1905-1973).
Naquela visita, Getúlio foi à feira do café no Tarumã, inaugurou o obelisco na praça 19 de Março (a do Homem Nú), inaugurou locomotivas elétricas no trajeto Curitiba-Piraquara (que foram desativadas poucos anos depois) e discursou para empresários em um banquete no Clube Curitibano (cuja sede, à época, era nas esquinas das ruas XV de Novembro e Barão do Rio Branco). Lá, anunciou a criação da Eletrobrás, distribuidora estatal de energia atualmente em processo de privatização.
Segundo Elias dos Santos, foi aqui que o “grande homem” deu um de seus “últimos sorrisos públicos”. “As denúncias que atingiram seu governo estavam na rua e a partir dali a crise só aumentava. Alguns jornais do Rio destacaram que Getúlio conseguira rir em Curitiba”, disse o historiador.
Em suas pesquisas sobre a vida de Bento Munhoz da Rocha, o pesquisador entrevistou muitas vezes a então primeira dama do estado, Flora Munhoz da Rocha (1911-2014), que lhe contou sobre um episódio peculiar da visita varguista.
Dona Flora contou-lhe que antes de Getúlio assumir o quarto no Palácio São Francisco (antiga sede do governo estadual e hoje Museu Paranaense) o chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato, fez questão verificar pessoalmente detalhes do aposento. “Ela me contou que a presença e os modos dele assustaram as camareiras do palácio”.
Meses depois, Gregório foi o pivô dos acontecimentos que levaram ao suicídio de seu patrão ao contratar pistoleiros para a malsucedida tentativa de matar o maior desafeto de Getúlio, o jornalista e político Carlos Lacerda.
Da sacada do bar Getúlio, se vê o relógio da praça Osório (instalado em 1914), o monumento que lembra o comício das Diretas Já, as Livrarias Curitiba, a Galeria Tijucas com suas lojas e cafés, a escultura da Boca Maldita (de Elvo Benito Damo, instalada em 1992), as evoluções do Homem Aranha da XV e o Bondinho, hoje em reformas.
A cidade passa por ali. E possível vê-la passar sem ser facilmente visto. Se Getúlio Vargas cometeu o “tresloucado gesto” e saiu da vida para entrar na história, em Curitiba é possível entrar no bar Getúlio para conhecer a história e a vida da cidade.
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