Wood's, Vox e Cats fecharam. Será o fim das baladas em Curitiba?

"Se um evento acontece uma vez é casualidade. Duas vezes, pode ser coincidência. Três vezes, é ação do inimigo”. A frase original é do Ian Fleming, escritor inglês criador do personagem James Bond.
A ideia serve bem para olhar sobre o fechamento de três casas noturnas icônicas, cada qual a líder do seu segmento em Curitiba, em menos de dois meses. Primeiro foi a balada sertaneja Wood’s que fechou no começo de junho. Pouco tempo depois foi a Cat’s, reduto histórico das festas LGBTQI+ em Curitiba que anunciou fechamento para o próximo dia 28 de julho.
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No último fim de semana foi a vez do Vox Bar, a mais importante balada de música pop que liderou seu segmento por 20 anos
Se o fechamento triplo quase simultâneo não é coisa de algum inimigo, pelo menos é sintoma de que alguma coisa está acontecendo na noite de Curitiba. Reflexo óbvio de um fenômeno muito maior.
Em Londres e Nova York, antigas capitais mundiais da balada, os clubes e casas noturnas mais célebres vem fechando suas portas adoidado. Este movimento seria o prenúncio do fim da era das baladas?
Antes de fechar o seu Vox Bar, o empresário Paulo Gitroletti disse que esta é uma conclusão apressada. Veterano da vida noturna, Paulo sabe que projetos neste ramo “têm ciclos desde sempre”.
Ele lembra que casas noturnas ou discotecas existem com este nome desde 1971 e como ideia desta a década de 1920. “Eu tenho certeza que logo isto volta, nem que seja com uma outra cara”.
O próprio Vox promete renascer com outro nome e proposta que visem atingir um público mais jovem. Este, aliás, é o maior desafio do setor: cativar um público que parece não ter o interesse da geração de seus pais em passar a noite na balada.
Jovens não curtem mais as baladas?
Tudo o que um clube noturno podia oferecer como diferencial no passado como um DJ que antecipasse as novidades na pista, um espaço para curtir a noite livre sem ser vigiado e, claro, a paquera noturna, não emocionam mais na era do Spotify e dos aplicativos de relacionamento.
Para o psicólogo Akim Rohula Neto, há uma mudança de comportamento e cultura geral da geração millennial que se reflete no mercado boêmio. “As grandes casas noturnas deram lugar aos encontros de rua”, avalia.
Rohula também percebe uma irreverência às "grandes entidades" pelos jovens. ”Eles não querem mais ‘se comprometer’ com aquela casa em especial. Algo que era típico da boêmia de gerações passadas que tratavam com carinho e fidelidade as casas noturnas que frequentavam”, disse.
Para a DJ Karla Wundsch, o formato balada pode não fazer mais tanto sentido para a geração sub30, mas não “significa o seu fim”. “Em coexistência com essa baixa, vem a força os megafestivais como Lollapalloza, Coachella e mais. O importante é saber que não é porque as coisas são diferentes é que são piores”, disse.
E para onde foram os velhos baladeiros?
Mas se isto explica o esvaziamento das baladas jovens, o que dizer da geração entre 30 e 50 que hoje parece ter trocado os drinques e doses caras, as filas e a ideia das baladas de noite inteira, por festas diurnas, idas ao bar ou outros passatempos?
“A gente sai direto do trabalho ou fim de semana durante o dia. Minha balada agora é em feira livre sábado e feirinha domingo”, disse a produtora e cozinheira Elaine Lemos. A passagem do tempo seria outro fator fundamental.
“Admitamos que estamos mais para melhor idade né? Estou com 49 anos, meu namorado tem 60. Saímos para um queijo provolone à milanesa na cantina Açores e vamos para casa ver tevê a cabo e séries”, ri.
A advogada e professora Alessandra Back costumava frequentar clubes noturnos e festas semanalmente há 15 anos, mas hoje troca tudo por idas a bares e restaurantes. “Hoje só vou a bares. Acho que o lance de amanhecer na festa e ir para o after hour passou. Cobra um preço alto demais para a saúde e o espírito”, disse
Crise econômica e poder público
Qualquer análise das dificuldades do setor não pode desprezar o efeito prolongado da crise econômica no país, aponta o presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar, seção Paraná) Fábio Aguayo. Ele chama a atenção para uma espécie de “cerco” que percebe sobre seu setor de atuação que envolvem poder legislativo e executivo.
“Desde a lei antifumo, passando pelas mudanças legislativas que vieram na esteira do episódio da boate Kiss (incêndio que matou centenas de pessoas em 2013), até as dificuldades burocráticas e a falta de urbanidade dos órgãos de fiscalização, a administração pública parece empenhada em criar dificuldades para o setor”, observa Aguayo.
Na contramão desta tendência, no entanto, o DJ e empresário Júlio Reis marcou a reabertura no dia 10 de agosto da histórica casa noturna 1250, sinônimo de balada popular que fez furor nos anos 1990 e reaparecerá remodelada e apostando em um público nostálgico. “Acho que neste setor tem um espaço para o retrô, para reviver um jeito de curtir que foi se perdendo com o tempo”, confia Reis.
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