Cinema

Atômica: Charlize Theron chega aos cinemas como espiã explosiva

·4 min de leitura·Carlos Coelho
Atômica: Charlize Theron chega aos cinemas como espiã explosiva

Se desse para empilhar todos os filmes sobre espiões ocidentais combatendo a ameaça soviética, nem precisaríamos dos dólares de Elon Musk ou qualquer outro bilionário para chegar a Marte. Apesar da obviedade do enredo, Atômica, que chegou aos cinemas na quinta-feira (30), se sai bem como um filme de ação frenético e sensual, que usa como pano de fundo a tensão dos últimos dias de Guerra Fria, encerrada pela queda do Muro de Berlim, em 1989.

A direção do longa é de David Leitch, uma boa escolha para o gênero. Leitch foi dublê por mais de uma década e atuou em filmes como O Ultimato Bourne e Sr. & Sra. Smith, primos de primeiro grau de seu trabalho mais recente. Mais que isso, ele foi codiretor, ainda que não creditado, do ótimo John Wick: De Volta ao Jogo, filme de ação no qual Keanu Reeves faz um assassino aposentado que volta a atuar após matarem seu cachorro. Atômica é seu primeiro voo solo.

No filme, a vencedora do Oscar por Desejo Assassino, Charlize Theron, é Lorraine Broughton, uma espiã britânica enviada à Berlim para recuperar uma lista com dados de espiões ocidentais. As informações foram coletadas por Spyglass (Eddie Marsan), um agente da Stasi, o serviço de inteligência da Alemanha Oriental. Ao chegar à cidade divida entre soviéticos (no lado oriental do muro) e ingleses, americanos e franceses (no lado ocidental), Lorraine descobre que sua missão não será fácil. Já na saída do aeroporto ela é perseguida por agentes da KGB, o serviço de espionagem soviético. E tome tiros e carros capotados.

Para sobreviver e recuperar a lista, Lorraine precisa se unir ao chefe da espionagem em Berlim, o vida louca David Percival (interpretado pelo excelente ator britânico James McAvoy). Mas esta união não é tão cooperativa quanto ela esperava. Ao mesmo tempo em que tenta descobrir a localização da lista, Lorraine se envolve com uma espiã francesa, Delphine Lasalle (Sofia Boutella). A partir daí, a película vira um jogo de sobrevivência e traição, regada a muito sangue e sensualidade (e mais tiros e carros capotados).

Se o roteiro, uma adaptação de uma história em quadrinhos, não é lá uma ilha de inovação, a direção esperta de Leitch garante uma boa diversão nos 115 minutos. O filme se equilibra no ritmo frenético à la Guy Ritchie (diretor de Snatch e Rock 'n Rolla), um peculiar gosto por sangue na linha de Quentin Tarantino (Pulp Fiction) e um toquezinho de cinema noir, com Charlize Theron no papel competente de uma femme fatale.

E as cenas de ação são onde o diretor dublê se sai melhor. O destaque é uma sequência continua de luta de oito minutos. Lorraine briga com uma porção de agentes da KGB em um prédio abandonado no lado oriental, quase como um balé de UFC, sem trilha e sem fala. Tudo bem amarradinho e difícil de acreditar (condição sine qua non para um bom filme de ação desde o primeiro “007”).

A equipe de produção, composta por vários profissionais que haviam trabalhado com Leitch em Jon Wick, merece crédito por recriar com maestria a atmosfera da bela e estranha Berlim. Curiosamente, quase pisar em Berlim – boa parte da produção foi feita em Budapeste, na Hungria, que segundo os produtores é a capital europeia que melhor conserva a aura do fim dos anos 1980.

O astral berlinense também é captado na ótima trilha sonora, que vai dos tiros certeiros New Order e David Bowie a Falco e Peter Schilling. As músicas contribuem e muito para o ritmo não cair – um casamento de ação e trilha que tem se tornado uma tônica no cinema hollywoodiano e recentemente pode ser visto no filme Em Ritmo de Fuga. É um compilado de hits new wave norte-americanos e alemães. Funciona de maneira despretensiosa, quase como todo o filme: nada ali vai mudar sua vida; mas que diverte, diverte.

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