Ana Vilela conta que Trem Bala ajuda a superar os traumas da vida

Ela acabava de chegar ao local combinado para a entrevista quando se lembrou da pomada que ficou no carro. Pede ao pai que busque e, minutos depois, enquanto aplica o cicatrizante sobre a área interna do antebraço direito, onde se lê “até porque está escrito, era pra acontecer”, Ana Vilela explica sua nova tatuagem. “É uma frase de uma música minha, chamada Entrelinhas. Escolhi ela porque é uma das minhas composições favoritas e tem a ver com maktub, que em árabe significa ‘está escrito’, e eu acredito muito nisso. Era para ser”.
Essa é a explicação que a jovem londrinense encontrou para todo o inesperado que aconteceu em sua vida nos últimos onze meses. A garota que até outubro passado trabalhava duas vezes na semana em um projeto social e prestava vestibular mais por pressão da família do que por saber o que faria da vida, hoje faz uma média de 13 shows por mês e tem outra boa parte de sua agenda preenchida por programas de TV, lançamento de livro, entrevistas à imprensa. “Eu tinha uma rotina muito tranquila, ficava bastante em casa, com meus avós, com minha família. Não sabia o que fazer com a minha vida, em que eu iria trabalhar. Decidi estudar Letras porque sempre gostei muito de ler e de escrever, mas não sabia o que eu ia fazer com aquilo. Eu fui porque eu precisava ir, porque minha família estava fazendo pressão para eu fazer vestibular, mas eu estava perdida”, conta.
Na verdade, Ana sabia muito bem o que queria, mas não acreditava que seu desejo maior fosse uma alternativa possível. Assumir que queria viver de música, com a condição financeira que tinha, não era uma opção. “Sempre soube que música era o que eu queria fazer. Desde muito pequena eu já falava que queria cantar. Até hoje, cantar é uma das minhas manias, canto o dia inteiro, não consigo controlar. Aprendi a tocar violão com 12 anos e, a partir daí, também comecei a compor. Mas é muito complicado viver de música no Brasil, eu achava que não ganharia dinheiro”, argumenta.
A viagem do Trem Bala
Foi exatamente no dia em que ela tentava dar um rumo mais seguro à própria vida que tudo começou a acontecer. “O dia em que Trem Bala estourou no Youtube, depois de ter viralizado no Whatsapp, foi o dia da primeira fase do vestibular. Eu fiz a prova com a cabeça em outro lugar”, lembra. Era 23 de outubro. Ana acordou e foi checar o vídeo que postara na noite anterior, antes de ir dormir. Já eram 80 mil visualizações. “Eu fiz o vídeo porque alguém me mandou um link perguntando se aquela música era minha. O link não abria, então fiz uma pesquisa e apareceram uns três vídeos já com 90 mil views e todo mundo querendo saber de quem era a música. Me bateu um desespero. Pensei: roubaram minha música”. Imediatamente, ela, que diz ter como maior defeito a procrastinação, gravou e postou o primeiro vídeo em que aparece cantando Trem Bala. Assim, ela mostrou ao mundo que aquele filho, como ela diz, era seu.
Ana conseguiu passar pela primeira fase do vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mas no dia da segunda fase, realizada apenas 40 dias depois, ela já estava fazendo show e não pôde fazer a prova. Foi aquela música, válvula de escape de um período tão difícil, tradução de um momento de tantos conflitos e dores, que se tornou o agente transformador de sua história. “Hoje, Trem Bala representa toda minha vida. É muito louco ver que uma música de dois minutos e meio foi capaz de mudar uma vida de um jeito tão absurdo”, avalia.
Estava escrito. Uma música tão simples, de arranjo simples, melodia simples e uma letra quase óbvia, foi enviada para alguns poucos amigos, se espalhou e em dois meses se tornou um fenômeno. “Nesse tempo que passei vivendo Trem Bala, percebi o quanto as pessoas não olham para o que é mais simples. Trem Bala não fala nada demais. Eu me sinto o Augusto Cury da música porque escrevo coisas tão evidentes e as pessoas ficam admiradas”, brinca.
Quem já se atentou bem à letra de Trem Bala pode pensar que essa poderia ser a obra de alguém já muito vivido, calejado pelas lições da vida. Ana ressalta que não é adepta do “coitadismo”, mas acredita ter uma bagagem emocional mais velha que ela própria. “Acho que passei por coisas na vida, lidei com muitas situações que me fizeram assim. Foram seis anos da minha infância morando longe dos meus pais e só vendo eles nas férias, o que era muito difícil para mim, uma vida ouvindo gracinhas na escola porque sempre fui gordinha”, exemplifica.
Fama
Apesar do jeito ainda moleca, do hábito quase infantil de roer as unhas, Ana novamente mostra toda sua maturidade ao se amedrontar diante da fama repentina. Quando Trem Bala estourou, o sono lhe fugiu por uma semana. “Foi o momento mais apavorante da minha vida. O que eu mais sentia era medo porque a internet é um terreno muito instável: hoje você está no ‘top um’ do Youtube, amanhã você pode não ser mais ninguém”, argumenta.
Mas Trem Bala continuou, foi sendo abastecido por acontecimentos cada vez mais inesperados: o emocionante dueto com Luan Santana no Caldeirão do Huck, o vídeo de Gisele Bündchen cantando a música, o interesse da indústria do entretenimento. “Hoje eu tenho a segurança de que, de fato, aconteceu, mas sei que vou ter um trabalho muito mais árduo para fazer outra música minha acontecer”.
O lançamento do primeiro CD, previsto para outubro, deve ser um importante passo. Serão onze faixas de sua autoria e uma regravação: Leãozinho, de Caetano Veloso. “Minha madrinha cantava Leãozinho para mim, quando eu era criança. Eu achava que a música nem existia, que era zoeira dela”, diverte-se. É esse também o motivo de sua primeira tatuagem: no antebraço esquerdo, com a caligrafia da madrinha, se lê “Leãozinho”.
Ana também já descobriu o ônus da fama. Conciliar o cansaço de tantos compromissos e a distância de casa com o assédio dos fãs nem sempre é tarefa fácil. “Às vezes, eu estou com muito sono, cansada, chateada e alguém vem até mim, eu preciso atender. Outro dia, eu tinha um compromisso superimportante, mas perdi o voo. Fiquei mal no aeroporto, queria chorar e se alguém viesse falar comigo, eu ia acabar sendo grossa. Então, pedi para minha assessora achar um canto onde eu pudesse me reservar e chorar”, conta.
Por outro lado, além de todo o carinho e reconhecimento que tem recebido, a fama tem permitido a realização de muito sonhos, como a proximidade com seus ídolos. “Não é um sonho ou outro se realizando, são todos ao mesmo tempo. Eu estou conhecendo todo mundo de quem sempre fui fã. O dia em que eu vi o Luan Santana na minha frente, olhando pra mim e dizendo ‘oi, eu queria cantar a sua música’ foi o momento mais louco porque, quando ele morava aqui em Londrina, eu ia lá na porta do condomínio dele esperar ele passar de carro”, revela. "Quando a assessoria da Gisele [Bündchen] me disse que ela queria minha autorização para fazer um vídeo cantando Trem Bala, também foi uma coisa absurda pra mim”.
Conquistas
E ainda tem as conquistas materiais. A jovem que, no dia em que descobriu ter uma música viralizada no país inteiro, só conseguiu lanchar no shopping graças a uma “vaquinha” com os amigos, que, apesar das várias cotas, só rendeu R$ 30, hoje quase não acredita ter carro, casa e uma empresa com funcionários. “Eu tenho só 19 anos e eu pago para as pessoas trabalharem para mim. Isso é muito bizarro. Nunca passei necessidade de nada na vida, mas as coisas eram apertadas. Nunca pude, por exemplo, ir ao Outback e gastar R$ 200 com comida. E foi lá que eu gastei meu primeiro cachê”, lembra.
Isso tudo, garante Ana, não mudou o que ela sempre foi. Ou quase. “Eu costumava dizer que tudo na minha vida mudou, menos eu. Mas hoje eu acho que não tem como não mudar depois de tudo isso. Não fiquei chata, nem babaca, com o sucesso subindo à cabeça. Acho que depois de escrever uma letra como Trem Bala, eu nem poderia. Mas acho que acabei amadurecendo por causa dessa coisa de ficar na estrada, longe de casa e ter que lidar com todas essas novidades”, afirma.
A distância de casa, inclusive, tem sido um ponto crítico nessa sua nova vida. Nascida e criada em Londrina, Ana tem na cidade todas as suas referências: os amigos, os avós que a criaram, os pais, que apesar de terem delegado sua criação por serem muito jovens à época do seu nascimento, sempre estiveram presentes. “Eu amo Londrina, mas está ficando muito complicado continuar morando aqui. Eu acabo passando mais tempo vindo para casa do que ficando em casa. De qualquer lugar que não seja São Paulo é preciso fazer conexão para chegar a Londrina. Isso é muito desgastante e me deixa exausta, mas ainda não sei o que vou fazer porque penso muito na minha família e nos amigos”, explica.
Futuro
Ana não gosta de responder perguntas sobre sonhos e planos para o futuro. Prefere não correr o risco de parecer prepotente. Mas confessa que sonha alto. “Eu acredito muito em Deus e aprendi a nunca duvidar dele. Depois de tudo o que aconteceu na minha vida, não sei mais qual é o limite para sonhar. Morro de vontade de sair do país, de ganhar um Grammy, são muitas coisas que eu tenho trabalhado para conquistar. Algumas delas são insanas, eu sei. Mas, se for para acontecer, vai ser”.
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