“Precisamos dar voz ao incômodo das pessoas”, diz baixista da francisco, el hombre

Atração do Festival Estopim, que começa nesta sexta-feira (15), Rafael Gomes, baixista e backing vocal da francisco, el hombre (em caixa baixa mesmo) falou exclusivamente ao Guia Gazeta do Povo + Clube sobre a ideia do Estopim, o papel do artistas nos tempos de hoje, além da importância da indústria independente – tema que será discutido no festival. “Curitiba está num momento muito tenso, socialmente falando. Nem preciso morar aí pra saber disso, porque as notícias andam rápidas hoje em dia. É nessa hora que a gente “poeticamente” taca a pedra na janela e abre buraco no teto.”, disse Rafael. Leia a entrevista completa:
G+C: A ideia de Festival Estopim tem bastante consonância com o espírito da banda, não? Como vocês encaram um festival como este? Por que é interessante esses grandes encontros de ideias e criações?
Para arte acontecer, alguém precisa quebrar uma janela, botar fogo em um carro… alguma coisa catártica assim tem que acontecer, sabe? Não existe arte sem incômodo, até a Nina Simone falou disso. Quando a necessidade pela arte fica latente, a gente simplesmente vai lá e faz. Eu vejo assim essa iniciativa do Estopim. Curitiba está num momento muito tenso, socialmente falando. Nem preciso morar aí pra saber disso, porque as notícias andam rápidas hoje em dia. É nessa hora que a gente “poeticamente” taca a pedra na janela e abre buraco no teto.
G+C: Entreter não é o único papel do artista nestes tempos bicudos, vocês concordam? O que um artista de música popular pode fazer pra dar a contribuição em um momento em que os artistas parecem ser a bruxa da vez?
Eu gosto que a gente seja visto como bruxo e bruxa! Sermos vistos como aqueles que reúnem e disseminam conhecimento de uma maneira que a sociedade não consegue entender muito bem e, por isso, podem acabar na cruz. É importante entreter as pessoas, porque assim a gente tira a mente de um lugar de racionalidade que pode doer muito. Ninguém é obrigado a suportar tranquilamente o tédio de trabalhar com algo que não gosta, ninguém é obrigado a suportar a realidade de ver pessoas morrendo de fome nas ruas todos os dias sem se importar com isso, ninguém é obrigado a suportar a dor de saber que mulheres morrem por simplesmente serem mulheres… ninguém deveria ser, né? Mas é difícil escapar disso. Tem gente que vai fazer a função de “meramente” entreter as pessoas e as pessoas querem e muitas vezes precisam disso mesmo. Mas, quando eu percebo que esses meus incômodos são compartilhados com tantas outras pessoas, eu entendo que o papel da arte se faz mais necessário ainda! Alguém precisa dar voz para o incômodo das pessoas.
G+C: Vocês conseguem colocar um pé nos países hispano hablantes, algo que em música no Brasil dificilmente se faz – lembro de Roberto Carlos e algumas bandas do rock brasileiro. Como quebrar esta barreira?
É preciso ir até lá. Parece simplista, mas é real. Muita gente pergunta isso pra gente com ar certeiro de que é a coisa mais complicada do mundo, porque fica pensando no avião que cruza mares pra se chegar a um outro mundo e esse aí é realmente bem caro, né? O Robertão tinha apoio dos militares, né? Quase um projeto de governo. Mas, se você não junta meia dúzia de moedas, compra uma passagem de ônibus, pede carona na estrada ou bota aquelas moedas no tanque de gasolina daquele carro que você conseguiu emprestado, não vai mesmo sair do Brasil com seu trabalho. Mesmo que a gente negue, nosso mercado de música é muito amplo e frutífero. O Brasil é um continente de possibilidades e muita gente não percebe que, por isso também, acaba se acomodando aqui e nem tentando saber o que é que tem do outro lado daquela linha vermelha que desenharam no mapa. Ninguém conhecia a gente nas primeiras vezes que saímos do país. Até hoje vamos em um monte de lugar que ninguém nunca ouviu falar da gente, mas se a gente nem for, quando é que vão saber?
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