Com força de Chico Buarque, Airto Moreira virou nome forte do jazz mundial

“Ele falava pouco. Quase nunca para elogiar”. Assim o músico Airto Moreira define o trompetista Miles Davis (1926-1991), gênio do jazz, em cuja banda foi percussionista durante muito tempo. Foi com Miles, porém, que o músico catarinense criado em Ponta Grossa e Curitiba, disse que aprendeu o principal para sua carreira de mais de 50 anos.
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“Na primeira vez em que ensaiamos ele disse: ‘não bata, toque’. Então mudei minha maneira de tocar, mas não era bem isso. No dia seguinte ele disse: ‘Só toque’. Ainda não era bom. Ele veio uma terceira vez e falou repetidamente: ‘ouça e toque’. Foi aí que eu percebi”, lembra Airto.
“Você precisa ouvir tudo o que está acontecendo tanto com cada um dos parceiros, quanto com todo mundo junto. Isto é a música. Passei a tocar da maneira mais simples para mim e para todos e aí sim estava dentro da banda”.
Aos 77 anos, o baterista será atração principal da segunda edição do Nhundiaquara Jazz Festival nos dias 20 e 21 de outubro, no centro de Morretes. Há dezenas de outros shows com artistas importantes, sempre com ingresso gratuito.
No festival, Airto vai integrar uma banda que renderá tributo a uma banda histórica da qual fez parte: o Weather Report. Formada em 1971, o grupo revolucionou o jazz ao misturar elementos da tecnologia de então, como sintetizadores e programações eletrônicas, a elementos de musica internacional. Assim, influenciou não só jazz, como o rock e música em geral.
“Era muito a frente de sua época. Ninguém estava tocando isso. A coisa foi para outro patamar. Quem se ligava em música viu que o futuro era pra lá”, observa Airto.
Ele participou da primeira formação do Weather Report, junto com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Miroslav Vitous e outros.
A ideia de fazer a show celebração é do saxofonista Helinho Brandão, fã incondicional da banda que aproveitou a visita de Airto ao Brasil e convidou outros músicos paulistas Cuca Teixeira (baterista) e Bruno Cardoso (teclado) para fazer a releitura deste repertório.
“Para mim é uma coisa incrível pois eu conheço muito bem Morretes. Gosto muito de descer a Graciosa, comprar pinhão, pamonha e aquela coisa toda, mas nunca toquei lá”, disse Airto que mora nos Estados Unidos desde 1968.
As circunstâncias que o levaram para lá – assim como muitos dados de sua biografia – parecem saídos de um roteiro cinematográfico pronto para ser filmado.
No final dos anos 1960, Airto morava em São Paulo e tinha recém se casado com a cantora Flora Purim. Ele era o baterista e percussionista do Quarteto Novo ao lado de Theo de Barros, Heraldo do Monte e Hermeto Paschoal. A banda acompanhava o cantor Geraldo Vandré, inclusive na sua histórica interpretação de Disparada, no festival da canção em que Airto causou furor usando uma queixada de burro como instrumento.
Uma pequena ajuda dos amigos
Porém, no momento em que a repressão da ditadura miliar sufocava a música no país (“Até música instrumental era censurada, acho que eram acordes subvesivos”, brinca), Flora resolveu tentar a sorte nos Estados Unidos.
Airto se viu sozinho, monoglota, sem trabalho e perspectiva e principalmente sem dinheiro para ir encontrá-la. “Fiquei meio pirado. Tinha de ir embora também. Meu plano era ir lá pegá-la e trazê-la de volta a São Paulo”, lembra. Ele vendeu a bateria Gaeta, seu único patrimônio, mas com o dinheiro só conseguiu pagar contas e empréstimos.
Como sempre na vida, contou com a ajuda de amigos. O artista Lennie Dale, dançarino e performer americano, futuro fundador do grupo Dzi Croquettes, lhe deu uma passagem aérea.
Um dia, Airto foi ao ensaio da peça Roda Viva, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ele conhecia Chico dos festivais em SP. “Ele me perguntou: 'Tudo bem?' Eu me abri com ele que não, que não aguentava mais ficar no Brasil e precisava encontrar a Flora, mas não sabia como”, disse.
Chico então o chamou para dar uma volta em seu Fusca e foi até a entrada do prédio onde morava. “Fiquei no carro e só o vi subindo as escadas. A cada andar acedia uma luz. Quando ele desceu tinha um rolo de dinheiro na mão. Não sabia quanto era, mas era coisa séria”, lembra.
Airto disse a Chico que não sabia como poderia pagar o empréstimo. “Ele me respondeu que não precisava pagar. ‘Vai lá encontra a Flora e seja feliz com ela’. Eu chorei, aceitei e fui”. Airto e Flora são casados até hoje, gravaram dezenas de discos. Ambos têm sólidas carreiras no jazz internacional.
Meteoro em Curitiba
A iniciação de Airto Moreira na música, porém se deu inicialmente em Ponta Grossa nos clubes sociais e festas em fazendas e depois, principalmente, em Curitiba no tempo em que as jazz bands espalhavam-se pelas dezenas de boates e clubes do centro da cidade.
“Era um tempo muito bom com muitos espaços para tocar e muitos músicos ótimos como Breno Sauer, Gebran Sabbagg, Geraldo Elias e tantos outros”. Airto passou como um meteoro pela noite curitibana e foi ganhar o mundo. Naquele tempo, ele já sabia ouvir e tocar melhor que ninguém.
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