A Vilã: não espere um típico filme de ação

O cinema sul-coreano tem se consolidado como uma das mais inovadoras escolas de filmes de ação da atualidade. A maior referência dessa onda cinematográfica é o diretor Park Chan-wook, de Oldboy, filme que venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2004. Oldboy foi refilmado por Hollywood e algumas de suas cenas já inspiraram, declaradamente ou não, diversos outros filmes de ação – embora não seja razoável chamar Oldboy de um simples filme de ação.
Essa flexibilidade de gênero, aliás, é uma das características do novo cinema sul-coreano. Por isso quem assistir A Vilã, que está em cartaz nos cinemas, não deve esperar um típico filme de ação alicerçado em cenas de luta e perseguição. Quer dizer: as cenas de luta e perseguição estão lá, mas há mais (muito mais) além daquilo.
O diretor do filme, Jung Byung-gil, estreou no cinema de longa-metragem com Confissão de Assassinato, de 2012, uma intrincada trama envolvendo um assassino que, depois de cumprir sua pena, publica um livro contando em detalhes como cometeu cada um dos seus crimes, o que desperta em pessoas afetadas pelos assassinatos, como o pai de uma vítima e o detetive que o investigou, um desejo de vingança.
E vingança continua sendo a palavra-chave de Jung em A Vilã. A protagonista da história, Sook-hee (Kim Ok-bin), é uma assassina sino-coreana treinada desde criança por uma perigosa gangue chinesa que acaba cooptada para trabalhar como uma hitwoman para uma agência governamental coreana. À medida que executa suas primeiras missões, Sook-hee reencontra personagens que revelam coisas sobre o seu passado, o que a obriga a perseguir suas vendetas particulares, que parecem não ter fim, de tão amarradas umas às outras que estão.
Jung é claramente influenciado pelo cinema de Park Chan-wook, especialmente a trilogia da vingança (da qual Oldboy é o segundo filme). Mas também há em seu cinema traços evidentes dos filmes de John Woo em sua fase de Hong Kong e mesmo do Kill Bill de Quentin Tarantino – que, por sua vez, é uma homenagem descarada aos filmes de outro chinês de Hong Kong, Bruce Lee. Jung parece não se incomodar com as semelhanças. Aos 37 anos, ele não nega que é produto de toda essa linhagem do cinema de ação asiático.
Tradição e modernidade
Mas mesmo que o Kung-Fu de Bruce Lee determine até hoje como são coreografadas as lutas dos filmes de ação tanto no Oriente quanto no Ocidente, Jung também constrói suas cenas claramente influenciado por uma estética moderna, associada a um gênero típico da
linguagem dos videogames, o First Person Shooter.
Os shooters ou, como chamariam os aficionados pelo gênero, FPS, são os jogos em que a visão do protagonista é retratada em primeira pessoa. A câmera são seus olhos e o que aparece na tela é o que o personagem enxergaria naquela posição – como as próprias mãos ou as armas que carrega. São, invariavelmente, jogos de tiro ou de guerra
Cenas à moda dos FPS não são uma novidade no cinema. Mas poucas vezes foram retratadas com a mesma semelhança de um game como em A Vilã. Sem suspense: toda a primeira sequência do filme, que mostra Soo-hee invadindo o covil de uma gangue adversária e acabando com uma centena de inimigos com as próprias mãos, foi filmada e montada como num FPS, incluindo outros elementos comuns aos shooters, como o recarregamento de armas, abertura de portas e saltos por janelas estilhaçadas.
Jung sabe com quem está falando e oferece ao povo o que o povo quer: lutas com armas de fogo, armas brancas, com as próprias mãos, sangue em excesso e violência generalizada. Mas a diferença entre A Vilã e seu filme de ação ocidental preferido é que a essência da história não está na ação desenfreada (considere a criatividade dos produtores da série Velozes e Furiosos em criar novas perseguições a cada capítulo da série). A trama de A Vilã é densa, complexa e trágica, com evidentes toques dos clássicos gregos e de Shakespeare.
Plateias ocidentais podem ter dificuldades por discernir entre os nomes de personagens asiáticos – ainda mais quando alguns deles trocam de identidade ou transitam entre a vida e a morte incerta. Mas isso importa menos. A Vilã é suficientemente agradável para quem vê o valor de uma sangrenta luta de espadas assim como para quem sente prazer por histórias que envolvam tragédias familiares e ruína pessoal.
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