Oto Frederico Knieps é um palhaço que sai do circo porque quer experimentar coisas novas. Ele vai a um cabaré e se apaixona por uma dançarina, Lily Braun, momento que o permite ver um mundo diferente, ao qual não estava acostumado, mas que é tão maravilhoso quanto o mundo do circo. “E é isso que eu quero pra mim”, conta Wanderley Lopes, primeiro-bailarino do Balé Teatro Guaíra.

Ele interpreta Oto Frederico na remontagem de O Grande Circo Místico, que está em cartaz como parte da mostra de repertório que celebra os 50 anos da companhia. Este é também o último espetáculo de Wanderley como bailarino do BTG. “Estou pendurando as sapatilhas”, ele diz. “Eu quero ver o mundo. Tenho certeza que há um mundo maravilhoso me esperando, além do teatro. E se não tiver nada disso lá fora, valeu muito a pena ter sido bailarino. Ter usado a sapatilha, interpretado, dançado, chorado, sorrido. Valeu a pena”.

Wanderley conta que decidiu se aposentar para ter a oportunidade de viver algo diferente. Tomou a decisão de uma hora para outra, mas ele não sofre, não chora. Está feliz. “Eu nasci com a dança e a aflorei mais tarde, mas mesmo assim consegui viver e respirar dança por toda minha vida”, diz. “Eu estou apenas saindo do Teatro, mas a dança vai existir na minha vida sempre. Eu vou estar em outro lugar. Quem sabe dançando em outro palco, em casa, no chuveiro, na rua. Mas eu quero me dar essa chance”. Para Wanderley, o mundo é muito grande e ainda há muita coisa para viver. Pensar pequeno é proibido.

Com uma jovialidade de dar inveja, ele se orgulha de se aposentar num bom momento da carreira. “Eu quero aproveitar esse momento para sair e dar a oportunidade para a garotada que está chegando, acho que isso é honesto da minha parte. E ainda me dar a chance de ver coisas além da dança”, diz. Wanderley brinca que não queria se aposentar “caquético”. E não está nem perto disso. Como Oto Frederico, dá piruetas e faz saltos de um bailarino que já tem anos de história no palco, encantando até o mais leigo dos públicos.

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“Eu não conheço nenhum artista que quer ser rico. Só conheço artista que quer ter a oportunidade de fazer seu trabalho e tocar corações com a arte”, e é isso que Wanderley faz ao dançar O Grande Circo Místico nesta temporada.  

Fora do Balé Teatro Guaíra, Wanderley vai continuar no “mundo criativo”, seja como intérprete, coreógrafo, ou em outra arte cênica. Ele pensa em colaborar com remontagens de peças antigas e coreografar outras novas, dar uma olhada no teatro, trabalhar a voz.

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“É claro que se o Balé Guaíra precisar de mim, eu vou estar sempre disposto. E não só o BTG, mas outras escolas de dança. Eu estou aqui”, ele diz. Especialista em projetos culturais por já ter trabalhado até no Conselho de Cultura do Estado, Wanderley visa ajudar quem está dançando, mas agora do lado de fora. “A gente precisa de políticas públicas para a arte. De gente que é dessa área e pode falar o que é importante e necessário para os artistas e para o público”, diz. 

O bailarino não se arrepende de nada. Diz que um artista precisa ser arrojado e sugere que o BTG invista também em outros estilos de dança, não só no balé. Mas o apelo principal é político: que os gestores não fechem os olhos para a arte. “Eu posso contar nos dedos quantos governadores vieram assistir o Balé Teatro Guaíra”, reclama. Wanderley explica que a dança tem uma função importante na sociedade, “não só como atividade física, mas como cultura e inserção social”. E ele sabe bem do que está falando.

Trajetória

Wanderley Lopes tem 55 anos. Completa 56 em outubro. Quando era pequeno, passou por dois orfanatos antes de chegar à Casa do Pequeno Jornaleiro, onde vendia jornal no centro. Em uma dessas andanças, aos 15 anos, enxergou o russo Mikhail Baryshnikov dançando O Quebra Nozes pelas televisões de uma loja. Passou rápido por ali, mas ficou na cabeça. Mais tarde, viu balé pela tevê e pelo cinema outras vezes, mas não tinha onde começar. Quase nenhuma companhia aceitava rapazes bailarinos, nem mesmo o Guaíra.

Dois anos depois, com a chegada de Carlos Trincheiras à direção do BTG, um curso de formação acelerada para rapazes foi montado no Teatro. Wanderley começou a carreira de bailarino na companhia, que se tornou seu lar e por onde esteve nos últimos quarenta anos, desde 1981. “A dança me ensinou muita coisa e me tornou quem eu sou, me mostrou o melhor da vida e me deu o melhor de mim”, conta. “Se eu pudesse escolher nascer de novo, eu escolheria ser bailarino”.  

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Na Casa do Pequeno Jornaleiro, morando com mais de cem rapazes, tinha vergonha de dizer que era bailarino. Dizia trabalhar no Guaíra na área administrativa. Foi pego no flagra, quando por acaso os meninos da casa o viram numa foto dentro de uma revista, dançando O Quebra Nozes. Aí assumiu o papel e mergulhou de cabeça. Nunca mais parou de dançar, em Curitiba, no Brasil e no mundo.

Entre os melhores momentos da carreira, destaca a participação no II Festival Internacional de Dança Clássica e Contemporânea de Paris, em que ficou em 8º colocado entre 64 países. “Foi maravilhoso, mas quase ninguém ficou sabendo”, conta. Voltou ao mesmo festival dois anos depois onde sua coreografia, ao lado de Eleonora Greca, ganhou o título hours concours, porque estava além da avaliação do festival.

Ele relembra do dia-a-dia com a “família BTG”. Chegava no Teatro Guaíra às 8h, todos os dias, para 6h de aulas e ensaios. Era, e é, viver dançando. Entre as montagens que já encenou, fala de A Sagração da Primavera, também encenada em 2019 nas comemorações do BTG, e, claro, de O Grande Circo Místico.

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“Poder dançar O Grande Circo Místico é um resgate de um trabalho que praticamente iniciou minha carreira, é maravilhoso para mim, uma alegria, é o resgate de uma época muito bela”, ele relembra o lançamento da peça, musicada por Edu Lobo e Chico Buarque especialmente para o Balé Teatro Guaíra, cuja estreia foi em 1983. Foi um sucesso estrondoso. A projeção que O Circo deu ao BTG foi gigantesca, elevando-o a outro padrão, uma vez que a montagem foi assistida por mais de 200 mil pessoas.

Wanderley vê esse resgate da história como uma forma de homenagear não só os 50 anos do Balé, mas as pessoas que passaram por ali. Se lembra de nomes como dos bailarinos Francisco Duarte, Jair Moraes e Eleonora Greca e de mentores como Carlos Trincheiras. 

“Estão todos comigo no palco”, ele se emociona. “É uma honra poder resgatar esse trabalho e é um privilégio ter saúde e técnica para ousar mostrar novamente a peça ao nosso público”.

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Wanderley dança pela última vez como primeiro-bailarino do BTG neste domingo, 12, dançando A História de Lily Braun, um trecho de O Grande Circo Místico. Depois, a companhia finaliza as comemorações de 50 anos do BTG com a apresentação de O Segundo Sopro. Os ingressos estão esgotados.