E pensar que tudo começou com uma vira-latas! 

A coisa assim se deu: em 2013, o dramaturgo Edson Bueno passava as festas de fim de ano no litoral catarinense. Numa caminhada, deparou-se com uma cadelinha órfã que chorava de fome. Bueno, em um segundo, adotou-a. Levada ao veterinário viu-se que “Pretinha” era saudável, mas como boa filhote de guapeca iria crescer e virar uma cachorrona em breve.

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Na época, o diretor morava em um apartamento com outros dois cães, Gluck e Fellini, no centro de Curitiba. Espaço pouco para o quarteto. A puberdade da pretinha virou ampulheta. Era preciso achar uma casa onde coubesse todo mundo. Em outra andança, vislumbrou um casarão assobradado, caindo aos pedaços, mas com charme promissor (a 400 metros da casa de Dalton Trevisan).

Ao lado do sócio e parceiro Robysom Souza uniu o útil ao necessário. Um ano de marretas e pincéis transformou o lúgubre sobrado no Estúdio Delírio, o menor teatro de Curitiba. São 30 poltronas na plateia que ficam onde antes ficou a sala de jantar. Exatos 1,4% da lotaçao máxima do Teatro Guaíra (2.167 lugares).

As elegantes cadeiras de madeira vieram do cinema desativado da pequena Terra Boa, na região noroeste do Paraná.  “No começo achei que daria um espaço para ensaios e oficinas. No fim, ficou um teatro completo. Melhor que a encomenda”, disse Bueno.

Inaugurado em janeiro de 2015, também é o mais acolhedor. O público se sente em casa. É na cozinha que Bueno o recebe para comer um caldo de batata salsa e algumas taças de vinho antes, depois e durante os espetáculos. “Eu digo que é o ‘teatro do vinho’, pois nós incentivamos que o público leve a taça para dentro da sala. Fica melhor para todos”, explica Robysom que divide todas as funções – da bilheteria à direção de arte - do grupo com Bueno há cinco anos.

Kikitos e Gralhas Azuis na Cozinha 
Na estante, há uma revoada de Gralhas Azuis, o maior troféu do teatro paranaense. Bueno ganhou 17 em seus 35 anos de carreira. 15 delas estão lá. Duas se perderam em boemias pós-premiação. Ao lado das aves douradas, os dois kikitos que ganhou no Festival de Cinema de Gramado pelos dois únicos roteiros que escreveu: O Fim do Ciúme, de Luciano Coelho, e Paisagem de Meninos, de Fernando Severo.

O teatro de Bueno, aliás, é cheio de cinema. “Sempre quis ser diretor de cinema. Quando comecei, no século 17, não tinha escola de cinema no Brasil. Fiz artes cênicas para aprender a ser ator e acabei ficando”.

Bueno tem fama de ser um dos maiores cinéfilos da paróquia e tem como comprovar. Há mais de 40 anos, anota todos os filmes que viu e vê no cinema ou, hoje em dia, num projetor em noites solitárias no teatro. “Teve anos em que cheguei a ver 280 filmes só no cinema. Vi quatro sessões seguidas de "Os Pássaros", do Hitchcock.

“Vai lá e mostra teu delírio”
O grupo Delírio foi criado em 1983. Neste mês de julho vai ao ar o novo site do grupo com todo um histórico de espetáculos e um sistema próprio para compra e reserva de ingressos. Também já está no forno um livro contando a como foram estas três décadas e meia de teatro.

Dois espetáculos estão previstos para o segundo semestre. Em agosto, entra em cena Monalisa contra Hitler, baseada na história do general von Choltitz, comandante da Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra que desobedeceu as ordens de Hitler para devastar a Cidade Luz depois que o Reich capitulou. No último trimestre, Quando os Policiais Chegaram, um drama inédito assinado por Bueno que já escreveu mais de 40 (Ao contrário dos filmes, esta contagem não é tão rigorosa).

Delírio com sotaque francês
A história do batismo do grupo merece um parágrafo ou dois. Quando ainda era um aspirante a ator em 1983, Bueno e seus colegas tiveram a petulância de convidar para uma residência de 10 dias em Curitiba o artista Luiz Otávio Burnier. Falecido precocemente em 1995, Burnier era personagem central do teatro brasileiro e tinha estudado mímica na França por anos com mestres como Ètienne Decroux.

Nas aulas em Curitiba, Burnier sentava no canto da sala e no seu carregado sotaque francês dizia para os atores:“ Vai lá prra frrente que eu querro verr o téu delírrio”. 

“Você tinha que se virar para mostrar. A gente deitava, rolava, gritava e nunca estava bom”, lembra Bueno.Aqueles dez dias, contudo, forjaram o espírito do grupo para sempre: energia e disponibilidade cênica para as maiores maluquices e um ar expressionista, antinaturalista.

“Eu acho que uma boa atuação precisa ter no mínimo uns 20% de canastrice”, brinca (e fala sério) Bueno. Nos 35 anos seguintes foi sempre assim. Seja nos maiores teatros do país ou no menor de Curitiba, a cada nova peça, Édson Bueno “vai lá pra frente e mostra seu delírio”.