Lobão não quer falar de política. O músico foi militante ativo na oposição e derrubada do governo do PT até 2015, mas hoje confessa estar de “saco cheio”. “Já dei minha contribuição. Meu ato político mais contundente agora é produzir a minha arte”, disse.

Assim, não espere manifestações a favor ou contra ninguém no show que o Lobão fará neste sábado (18) na Ópera de Arame, às 21h30. Acompanhado por sua banda, Os Eremitas da Montanha, Lobão quer mesmo apresentar seu novo show com o repertório do disco duplo “Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock”, lançado neste ano.

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No disco, o músico reinterpretou hits do rock e do pop nacional que vão de Ôrra Meu, de Rita Lee, a Toda Forma de Poder, dos Engenheiros do Hawaii; passando por bandas como Inocentes, Paralamas, Legião Urbana, Ira e Capital Inicial.

Lobão disse que teria matéria prima para “outros três discos”. “Me senti na obrigação de vivenciar isto em estúdio com um material que eu entendo como de primeira linha para poder interpretar e produzir o som que não só me deixaria contente, mas deixaria também aos autores das canções contentes”.   

Segundo Lobão, o show é um “complemento que reitera o aspecto sônico" do que tentou "escrever intelectualmente”, no livro “O Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock”, lançado pela editora Leya.

O livro, nas palavras do autor, é uma “tese do que eu acho, penso, vivi e estudei e ouvi sobre os anos 1980”. “Os discos eram produzidos como uma sub jovem guarda. Não era só o som que era ruim e mal gravado. O material do disco era todo adulterado para pior por produtores inescrupulosos”, disse.

Lobão, em seu quarto livro, reconhece que quando decidiu que revisitar os anos 1980 estava disposto a eviscerar a década de forma crítica e pouco elogiosa. Porém, mudou de ideia quando mergulhou de cabeça no período.

Segundo sua tese, aquela geração precisou enfrentar a mídia atrasada, produtores incompetentes e mal-intencionados e a resistência cínica dos medalhões da MPB para criar a melhor coleção de músicas da história.

“No final das contas, heroicamente e sem a ingerência dos caciques da cultura, foi o período em que mais se produziu músicas de excelência em toda a história da canção brasileira. Nem na Bossa Nova, nem na Tropicália nem na Jovem Guarda ou no pós-tudo-isso se fez música tão boa quanto no malfado rock brasileiro”.

Sobre o estigma de drogado e maluco que adquiriu após uma série de prisões por posse de drogas nos anos 1980, Lobão disse que é muito parecido com a pecha de reacionário que recebe hoje por sua posição política nos dias atuais.

“Proporcionalmente é tão irreal e delirante quanto. Me chamavam de porra-louca, mas eu era muito chique. Eu na prisão ficava estudando Deleuze, Oscar Wilde. Já consumia o que consumo hoje. O que mudou é que eu não consumo mais drogas”, disse.

Um "cara enorme" contra a cafonice 

“Eu sou hoje aquilo que sempre fui. Minha posição existencial nos anos 1980 ficou grande como a minha postura política recentemente pois, na real, eu sou grande. As consequência são enormes por que eu sou um cara enorme, me perdoem a imodéstia”, conclui.

Lobão anda impaciente com a política pois "ficou sem turma". Para ele, o “Brasil tem poucas chances de dar certo” com a queda de braço política que "opõe duas tolices".

“Há de um lado uma esquerda idiota e totalmente clichê que fica repetindo palavras de ordem e ideologias desgastadas, que até podem ter sido vanguarda nos anos 1920, mas hoje são só cafonas”, disse. “A contraproposta é um pseudo-conservadorismo autoritário que reedita o que há de pior na política como o falso moralismo e o nacionalismo exacerbado. É tão cafona quanto”, disse.