“A Wood's não poderia fechar. Wood's é vida”, diz a moça, na longa fila para cadastrar o cartão de consumação antes da última festa da casa sertaneja. O local encerrou suas atividades na madrugada desta quinta-feira (7).  

Batizada de Wood's Forever, a festa foi a forma que a direção da “casa do sertanejo brasileiro” escolheu para encerrar seu ciclo em Curitiba. Para a noite, estavam programados shows com duplas famosas (Munhoz e Mariano, Henrique e Diego e outros). Durante a semana que a antecedeu, os maiores astros do gênero, como Sorocada e Michel Teló gravaram vídeos contando sobre suas experiências na Wood's e convidando o povo para a festa.

Com este cenário, a última noite da Wood's foi um sucesso total. Com público perto da lotação máxima, cerca de 1,3 mil pessoas tiveram pela última vez o pacote completo de uma balada sertaneja durante toda a madrugada: música, bebida e pegação pesada.

Na entrada formou-se uma longa fila desde às 21h (as bandas só começaram a tocar depois da 1h da madrugada). Para estes, os vendedores ambulantes vendem especialmente balas e chicletes. “As pessoas precisam das balas para poder conversar mais de perto”, explica o ambulante Fábio Simplício.

Na entrada da Wood's, um grande globo espelhado lança fagulhas de luz sobre uma araucária. A casa é toda de madeira, obviamente, e a logo do violeiro chapeludo está por todos os lados. Dentro da casa, três enormes lustres de cristal dão a sensação de opulência.

Em boa parte do público, há um sentimento de saudade, vazio e inconformismo.

“Estou bem triste na real. A música, o espaço, o ambiente são ou eram muito massa. Era fácil de decidir vir para cá. Fica um vazio, mas fazer o que? Agora é curtir esta última noite”, disse Luana Bakaus. Há também quem aproveitasse a deixa para conhecer a casa no seu último dia. “E a primeira vez que a gente vem. Nós éramos casadas e nunca viemos. Quando a gente viu que era a última noite e a gente nunca tinha ido, pensamos: não dá pra perder”, disseram as amigas Jéssica Santos e Edilaine Oliveira, que vieram da cidade vizinha de Campo Magro.

Alguns clientes, porém, identificam certo desgaste. Algumas noites com “show nacional” não chegaram perto da lotação máxima. Muitos dos clientes antigos que frequentaram a casa desde os tempos em que funcionou na rua México, no Bacacheri (de 2005 a 2011) reclamam da mudança do perfil do público e da presença dos “jovens”. Reclamação clássica de boêmios que logo trocarão a balada por programas caseiros.

A Wood's parece o Brasil

A Wood's, como a maioria da casas noturnas brasileiras, é uma metáfora do pais. As divisões sociais são fundas e intransponíveis. No térreo, ficam os pagantes, os que enfrentam filas, aqueles que vêm das cidades da região metropolitana e são, muita vezes, atraídos prelo nome dos artistas pop que ouvem no rádio e seguem na rede social. Claro que o propósito de todos é um só: festar e se dar bem.

No segundo andar, protegidos por seguranças carrancudos e identificados por pulseiras, ficam aqueles que pagam mais em camarotes com garçons. E mesmo entre eles há divisões por renda. No andar de cima, rolam os combos de vodka e energético e de vinhos espumantes cujos preços podem passar da casa dos R$ 1 mil reais.

A história

A Wood's Cuitiba nasceu em 2005, durante o auge da euforia econômica no pais, a ascensão da classe C , o gigante acordando. Serviu como uma catedral para abrigar um movimento do pop que estava em todos os lugares: nas rádios, nos programas de TV, no coração das pessoas e tinha ver com a força inquebrável do agro no Brasil.

Nestes últimos quinze anos, os artistas do sertanejo universitário foram os mais bem pagos e badalados do país e a Wood's tem muito a ver com isso. Após o sucesso da casa curitibana, filiais abriram em outras cidades, o grupo virou uma marca com outros produtos, como rádios, por exemplo. Em Curitiba, os mesmos empresários controlam a maior concorrente, a WS que tem um perfil mais eclético que a Wood's, com shows de funk e pop.

A pergunta que fica é: será que o fechamento da casa pioneira deste movimento do sertanejo significa o esgotamento do gênero em si?

O tempo irá dizer. Procurados pela reportagem, ninguém da direção da casa quis se pronunciar. Entre as pessoas do público e funcionários com quem o Guia conversou, as opiniões são divididas. Muitos acreditam que a casa renasça em breve com uma proposta um pouco diferente. Por enquanto, foi o fim de uma era.