Era maio de 1991, os empresários Sérgio Apter e Henrique Braga estavam tão empolgados quanto receosos pelos passos que estavam dando. 

A dupla tinha acabado de inaugurar o Aeroanta, em Curitiba, e decidiu trazer Tim Maia – na época, o maior cantor do país - para mudar o patamar das atrações do lendário barracão avermelhado localizado na Rua Piquiri, no  bairro Rebouças. Em seus seis anos e cinco meses de funcionamento, o estabelecimento mudou a vida noturna da cidade.

O medo dos empresários era que Tim não aparecesse. Eles tinham motivo para isso. Reza a lenda que, alguns meses antes, o cantor chegou a aterrisar no aeroporto Afonso Pena, a convite do Clube Curitibano, para um show que nunca aconteceu. 

O motivo? Tim Maia não gostou da vibe da cidade naquele tarde e decidiu voltar para o Rio de Janeiro no mesmo avião que o trouxera. O episódio só reforçava a fama nacional que Tim Maia era um grande furão de shows.

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Para não ter erro, a casa destacou o produtor Haroldo Tziuraki, amigo de Tim, para ir até o Rio e escoltá-lo pessoalmente até o palco do Aeroanta. Enquanto  isso, a numerosa banda Vitória Régia viria de ônibus pela BR-116. A estratégia funcionou perfeitamente até às 17h daquela quinta-feira, quando seria feita a passagem de som.

Apter lembra que ao chegar no pátio do estacionamento do Aeroanta, Tim Maia foi reconhecido por um grupo que frequentava um bar vizinho. Eles o aplaudiram muito e Tim os chamou para perto: "venham pra cá e tragam um scotch para a gente tomar”. Foi o que aconteceu. Com os novos amigos ele bebeu, contou piadas, quis conhecer a Rua 24 horas, sumiu e reapareceu dormindo no apart hotel na hora programada para iniciar o show.

Tim Maia vem ou não vem?

“O que eu posso dizer é que não foi fácil convencê-lo fazer o show, mas conseguimos”, lembra Apter.

“Enfim o arrastamos para o palco lá pelas 2h da madrugada, algumas pessoas tinham ido embora achando que ele não viria. Mas ele chegou e fez um show maravilhoso. Posso dizer que o ouvir cantando "Primavera" naquela noite foi a grande emoção da minha carreira de produtor”, lembra Apter.

Logo no início do show, outra faceta de Tim Maia apareceu: a do mpusico genial e perfeccionista. “Haroldo, cadê o retorno?”, reclamava Tim Maia com um de seus mais famosos bordões. Para atender ao padrão Tim Maia de qualidade, Apter trocou todo o equipamento e contratou uma empresa paulista para fazer o som da casa.

Tim Maia me fez trocar o equipamento dizendo que era precário. Ele tinha razão. Pensei: ‘nunca mais quero passar por isso’. Foi um divisor de águas. Contratamos um técnico e a melhor mesa de som do país, o que fez o Aeroanta ficar famosos no meio musical como o melhor som. Devo essa ao Tim Maia”.  

Anos 1990, auge da popularidade do síndico

Os shows da sexta e do sábado foram um sucesso. Com a casa lotada e sem ocorrências, a passagem de Tim Maia rendeu boas histórias - a maioria impublicáveis. 

“Ele é uma das pessoas mais bonitas, com o maior caráter e com uma alma gigante e cheia de bondade que conheci. Era ressabiado com as pessoas que não conhecia bem, mas com os amigos era especial, sensível e bacana demais”, lembra.

Para Tim Maia, a década de 1990 foi um período de muito de trabalho e problemas de saúde, mas mesmo assim o cantor lançou nove discos em apenas sete anos e conquistou uma nova geração de fãs.

Sua música foi gravada por artistas do pop nacional como Titãs, Marisa Monte e Paralamas do Sucesso. Sua gravação de Como Uma Onda, de Lulu Santos e Nelson Motta, foi usada na trilha de um comercial de e virou um grande sucesso.

Seu amigo Jorge Ben Jor retomou a carreira impulsionado pelo grande sucesso de W/Brasil cujo refrão é “Chama o sindico...Tim Maia!”

Tim Maia também foi o artista mais consagrado pela crítica nesse período, vencendo por cinco vezes o atualmente conhecido como Prêmio da Música Brasileira (antigo prêmio Sharp) de 1990 a 1997.

Porém, dono do próprio nariz, dono da própria gravadora, a Seroma (junção das sílabas iniciais de seu nome, Sebastião Rodrigues Maia) também deu margem a fama de furão por faltar a alguns shows, às vezes por problemas de saúde (aí incluídos alguns excessos boêmios).

Àgua mineral e bolachas diet

Quando voltou para Curitiba em fevereiro de 1995, Tim Maia estava no auge da popularidade. Tinha, porém, sofrido um principio de infarto e por recomendação médica estava pegando leve: limpo, mais magro e sóbrio depois de um programa de reabilitação.

Segundo o jornalista Fabiano Camargo, então assessor de imprensa do Aeroanta as exigências do camarim eram “água mineral e bolachas diet e nada de álcool”.

Ele conta que havia a maior expectativa se ele apareceria ou não, pois vinha daquela fase que faltou muitos shows. “Mas ele veio. No show, cantou um pouco menos do que o público esperava: começava e daí vinha com: ‘isso ai, agora vocês, vamos lá, todo mundo comigo... Mas foi legal demais. Meio Tim Maia valia por muitos artistas inteiros”.

O fotografo Gilson Camargo trabalhou para o Aeroanta durante três anos– de 1993 a 1996 – e documentou mais de 180 espetáculos neste período. São de Camargo as fotos de Tim Maia soltando a voz com sua a camisa azul cintilante em fevereiro de 1995.

Cerca de três anos depois, em 8 de março de 1998, durante um show em Niterói (RJ), Tim Maia passou mal e deixou o palco numa ambulância. Com complicações cardiovasculares, ficou internado durante uma semana e faleceu no dia 15 de março de infecção generalizada.