Você se considera roqueiro (a)? Que tal ser testemunha ocular da História, e ainda por cima pertinho de casa? No dia 27 de setembro, a maior banda de rock-and-roll da América, o Aerosmith, faz na Pedreira Paulo Leminski a última das quatro escalas brasileiras de sua turnê de “despedida” – a Aero-Vederci Baby! Tour 2017. Antes, se apresentam no dia 18 de setembro na Esplanada Mineirão, em Belo Horizonte; no Rock in Rio, no dia 21; e no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 24.

Acha exagerado classificar a banda capitaneada pelo vocalista Steven Tyler (69 anos) e pelo guitarrista Joe Perry (66) como a maior dos Estados Unidos? Bem, em primeiro lugar eles estão na ativa desde 1970, e com a mesma formação – com exceção de um período de quatro anos no início da década de 1980, quando os guitarristas Joe Perry e Brad Whitford foram substituídos por Jimmy Crespo e Rick Dufay, respectivamente.

Além disso, é a banda norte-americana que mais vendeu em toda a História, com mais de 150 milhões de álbuns comercializados em todo o mundo. Detém ainda o recorde de discos de ouro e multiplatina para uma banda dos Estados Unidos, emplacou 21 músicas no top 40 da lista das 100 mais da Billboard e nove em primeiro lugar na lista Hot Mainstream Rock Tracks, o ranking das músicas mais tocadas nas rádios rock. Sem falar nos quatro Grammys e nos 10 MTV Video Music Awards acumulados ao longo da carreira.

Porém, o Aerosmith costuma ser reconhecido como uma grande banda de hard rock, mais lembrado pelos gritos e o visual extravagante de Steven Tyler, por baladinhas mela-cueca como “Cryin’”, “Amazing” e “I Don’t Want to Miss a Thing” e pelos inesquecíveis videoclipes estrelados por Alicia Silverstone e a filha mais famosa do vocalista, a atriz Liv Tyler. Ou por ser a primeira banda de rock a ter uma versão exclusiva do videogame Guitar Hero e pelas participações de Steven Tyler no júri do American Idol e no seriado Two and a Half Man. Mas sua importância no panteão do rock transcende as ramificações do gênero, os clipes ou a presença em programas populares de tevê.

O grupo criado em Boston em 1970 tem as raízes fincadas no blues, na country music, no rockabilly e no rock da Invasão Britânica dos anos 1960. Em sua biografia, O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda? – Uma Memória Feita de Rock n’ Roll (Editora Benvirá, 2011, 479 págs.), Steven Tyler conta que a primeira música que “entrou direto em sua veia” – ainda na infância – foi “All for the Love of a Girl”, do cantor norte-americano de country Johnny Horton. Também amava as harmonias dobradas dos Everly Brothers, o blues de Bo Diddley e o rock primordial de Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard e Chubby Checker.

Outras influências foram Beach Boys (cuja música “In my Room” levou Tyler a largar a bateria para cantar), The Animals, Jimi Hendrix, Fleetwood Mac e os britânicos Beatles, Rolling Stones, Yardbirds e Led Zeppelin. Porém, a persona artística do vocalista (incluindo o visual, os lenços no pedestal do microfone e os gritos) foi claramente influenciada por Janis Joplin, a quem ele assistiu no festival de Woodstock. “Ela me tocou fundo e ainda me faz chorar. Ninguém é melhor e mais sagrado do que Santa Janis”, resume Tyler na autobiografia. Joe Perry, por sua vez, a outra metade da alma musical da banda, é claramente influenciado pelo blues.

Na “árvore genealógica do rock”, pode-se dizer que o Aerosmith bebeu na fonte do blues, do country e do rock clássico para ajudar a criar o hard rock, ao dar sequência ao legado de bandas como Led Zeppelin e New York Dolls. Ou seja, a trilha aberta pelo grupo de Steven Tyler e Joe Perry nos Estados Unidos foi seguida na sequência por bandas como Van Halen, Kiss, Def Leppard, Quiet Riot, Guns N’ Roses, Whitesnake, Mötley Crüe, AC/DC, Scorpions, Skid Row, ZZ Top, Twisted Sister e Bon Jovi, entre outros.

Sobreviventes

Poucas bandas emplacaram tantos hits ao longo dos anos como o Aerosmith. Quase todos os 15 álbuns de estúdio da banda tiveram uma ou mais faixas de grande sucesso. As exceções foram os três discos lançados na época de maior turbulência, o fim dos anos 70 e início dos 80: Night in the Ruts (1979), Rock in a Hard Place (1982) e Done With Mirrors (1985).

E poucos grupos superaram tantos desafios para seguir em frente. Começando pelos maiores clichês do rock, os problemas com drogas, as brigas entre os integrantes e a interferência das esposas/namoradas. Passando por acidentes automobilísticos, quedas e apagões no palco, intrigas, o peso dos anos e até um câncer – o baixista Tom Hamilton foi diagnosticado com um tumor na garganta em 2011, e considerado curado em 2015. Só Steven Tyler passou por oito clínicas de reabilitação entre 1983 e 2010, para se livrar da dependência em drogas.

Mas o Aerosmith quase acabou mesmo entre o fim da década de 1970 e a metade dos anos 1980. E por causa de um copo de leite! Em 28 de julho de 1979, a banda se apresentou no festival World Series of Rock em Cleveland, encabeçando um line-up que tinha ainda Ted Nugent, Journey, Thin Lizzy e AC/DC. Nos bastidores, Elyssa, então esposa de Joe Perry, começou uma briga feia com Terri Hamilton, mulher do baixista Tom, e jogou um copo de leite nela. O guitarrista saiu em defesa da mulher e Tyler, enfurecido com a situação, demitiu Joe Perry. O guitarrista-base, Brad Whitford, deixou o grupo em 1981.

Steven Tyler só voltou a falar com Joe Perry em 1983, quando soube que o guitarrista havia sido convidado para tocar com Alice Cooper. A banda voltou a reunir sua formação clássica no início de 1984. Não por acaso, os três álbuns lançados nesse período foram os que tiveram o pior desempenho na carreira do grupo: Night in the Ruts (1979), Rock in a Hard Place (1982) – o único sem Joe Perry e Brad Whitford – e Done With Mirrors (1985).

Entretanto, mesmo com a reunião, a banda continuava decadente na metade dos anos 1980. A ressurreição viria em 1986, de uma forma inusitada: o convite do grupo de rap Run-DMC para regravar “Walk this Way”, lançada pelo Aerosmith onze anos antes, no álbum Toys in the Attic. A parceria, que também rendeu um clipe antológico, ajudou o rap a se consolidar entre os ouvintes brancos, foi o primeiro single do gênero a figurar no top 10 da Billboard e levou o Run-DMC a ser o primeiro artista de hip-hop a ser capa da Rolling Stone. Mas quem mais ganhou com a união foi o Aerosmith: voltou a tocar nas rádios de música jovem e ao topo das paradas. Tanto que o álbum seguinte à gravação com o Run-DMC, Permanent Vacation (1987), vendeu 5 milhões de cópias – dez vezes mais que o antecessor, Done With Mirrors (1985). Daí em diante, a banda de Boston conseguiu se manter no topo do rock mundial.

Show em Curitiba

A julgar pelo repertório que a banda tem apresentado na atual turnê, o show na Pedreira Paulo Leminski deve ter 19 músicas. Dessas, seriam quatro covers (“Stop Messin’ Round” e “Oh Well”, do Fleetwood Mac; “Come Together”, dos Beatles; e “Mother Popcorn”, de James Brown); três faixas de Get a Grip (“Cryin’”, “Eat the Rich” e “Livin’ on the Edge”); outras três de Toys in the Attic (“Sweet Emotion”, “Toys in the Attic” e “Walk this Way”); duas de Nine Lives (“Falling in Love (Is Hard on the Knees)” e “I Don’t Want to Miss a Thing”); duas de Permanent Vacation (“Dude (Looks Like a Lady)” e “Rag Doll”); duas de Pump (“Janie’s Got a Gun” e “Love in an Elevator”); uma do álbum de estreia (“Dream On”); uma de Done With Mirrors (“Let the Music Do the Talking”) e uma gravada ao vivo (“Chip Away the Stone”).